Superação da Esterilidade do Saber

reciprocidalismoAdmin
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De acordo com os postulados do Reciprocidalismo de que a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Hassan Zaoual, em nossos dias existe uma separação entre os pesquisadores universitários e o mundo dos fatos e das práticas, como também da divisão entre as ciências dos homens, causando uma esterilidade dos conhecimentos produzidos por essas instâncias de produção de saberes. Isso está ligado aos fenômenos do desenvolvimento e da mundialização que não podem ser absolutamente separados da cultura capitalista. Para além das tendências e das combinações locais, tudo se mantém e parece integrar-se num todo que, depois do fracasso do socialismo, poderíamos definir como a civilização do capitalismo. A uma teologia da acumulação, da concorrência e da uniformidade, é necessário reagir com uma contrateologia, aquela da diversidade da humanidade, do respeito à natureza, à criação e à autonomia das populações. A proliferação doas riscos e das incertezas denuncia a crise da civilização do capitalismo, no mesmo momento em que ela parece dominar o mundo. O desenvolvimento nasceu de uma vontade de poder da cultura ocidental, entendida como projeto de dominação do mundo. A ruptura com o capitalismo e com sua mundialização contemporânea exige, pois, uma nova civilização, que abarque todos os setores da condição humana. O capitalismo seduz e destrói as capacidades de regeneração dos ambientes.
A reflexão de Hassan Zaoual nos oferece a moldura de uma “crise civilizatória”. Ele identifica que o desenvolvimento e a mundialização não são apenas processos econômicos, mas uma teologia da uniformidade que esteriliza o conhecimento e destrói a capacidade de regeneração das culturas locais. Ao relacionarmos essa visão com o Reciprocidalismo, percebe-se que a implantação dos Núcleos de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido não é apenas uma estratégia técnica para o Semiárido, mas a materialização da “contrateologia” que Zaoual invoca: uma nova civilização baseada na autonomia e no vínculo, capaz de desfazer o desenvolvimento para refazer a vida.

A CONTRATEOLOGIA DO DOM: REFAZENDO A CIVILIZAÇÃO NO SEMIÁRIDO

1.0. A Superação da “Esterilidade do Saber” – Zaoual critica a separação entre a universidade e a prática, o que gera conhecimentos inúteis para as populações reais. O desenvolvimento imposto de fora tratou o sertanejo como um objeto de estudo, nunca como um sujeito de saber.

1.1. A Conexão com Nizomar – O Reciprocidalismo rompe essa esterilidade ao instituir a Irradiação Tecnológica. Aqui, o saber não está trancado em teses; ele é uma espoleta que explode na prática do agricultor. O conhecimento técnico só ganha vida quando se torna “carne” por meio do Pacto de Honra, sendo testado, adaptado e repassado de vizinho para vizinho.

2.0. Rompendo com a “Teologia da Acumulação” – O capitalismo, segundo Zaoual, impõe a concorrência e a acumulação como dogmas. No Semiárido, isso gerou a Anomia: o vizinho tornou-se concorrente pela água e pelo crédito, destruindo a solidariedade ancestral.

2.1. A Resposta dos Núcleos – A implantação dos Núcleos de Reciprocidade substitui a teologia da acumulação pela Teologia da Circulação. O progresso deixa de ser o acúmulo individual (que gera exclusão) e passa a ser o fortalecimento do Estoque Comum. A riqueza não é o que se guarda, mas o que se é capaz de Irradiar. Isso resgata a capacidade de regeneração social que o capitalismo havia destruído.

3.0. Desfazer o Assistencialismo para Resgatar a Autonomia – Zaoual afirma que o desenvolvimento nasceu de uma “vontade de poder” ocidental. O assistencialismo é o braço caridoso dessa dominação, mantendo as populações em uma infância perpétua de dependência.

3.1. A Cura da Anomia – Para refazer o mundo, o Reciprocidalismo propõe a Soberania Técnica e Moral. Ao invés de esperar o “milagre” do Estado (assistencialismo), o Núcleo de Reciprocidade organiza sua própria sobrevivência. O domínio das forças produtivas volta para as mãos da comunidade. Desfazer o desenvolvimento significa parar de ser “vítima do projeto alheio” para se tornar o Fiandeiro do próprio destino.

4.0. A Nova Civilização da Diversidade e do Respeito – Frente à crise de incertezas da civilização do lucro, o Reciprocidalismo oferece uma Perspectiva Segura. Ele redescobre a Reciprocidade Genuína como a única base capaz de abarcar “todos os setores da condição humana” — o econômico, o social, o místico e o ecológico. Os Núcleos tornam-se Faróis de Conhecimento que respeitam a natureza não como um recurso a ser explorado, mas como um parceiro de convivência. A técnica (cisternas, manejo, sementes) serve para proteger a diversidade da vida, e não para uniformizar o campo.

SÍNTESE FINAL: O REFAZER COMO ATO DE RESISTÊNCIA – Relacionar Zaoual e o Reciprocidalismo é entender que o subdesenvolvimento é uma ferida na alma das populações, causada por uma civilização que esqueceu como se dá. Para refazer o mundo a partir do Semiárido, o Reciprocidalismo propõe: (i) Trocar a Concorrência pela Aliança – Onde o sucesso de um Núcleo garante a segurança do vizinho; (ii) Substituir a Mundialização pela Soberania Local – Criando territórios onde o lucro não consegue penetrar para destruir os laços; (iii) Viver a Reciprocidade como Fé Prática – Entendendo que o ato de Dar, Receber e Retribuir é a tecnologia mais avançada contra a barbárie do isolamento.

A civilização do capitalismo produz o deserto de homens; o Reciprocidalismo produz o oásis de vínculos. Refazer o mundo não é uma utopia, é a tarefa diária de cada Fiandeiro que decide que sua honra vale mais que o seu recibo.