Desfazendo o Miro de Tristão no Sertão
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
O sistema econômico e social do Reciprocidalismo: o reciprocidalismo, tangencia o contrato social de Rousseau, notadamente na situação da vida na natureza e da liberdade natural. O Estado assistencialista e o Mercado, em determinado momento, deixam de buscar o bem-comum e passam a servir interesses particulares. Nesse momento a sociedade adoece, porque gera desigualdade, deixando evidente que a reciprocidade genuína foi rompida. Em Rousseau, o estado de natureza é uma condição de bondade, liberdade e igualdade, onde o “bom selvagem” vive isolado e guiado pela piedade, sem propriedade privada ou conflitos estruturais. A corrupção humana surge com a vida em sociedade e a propriedade, exigindo o contrato social para restabelecer a justiça e a liberdade civil baseada na vontade geral. O homem no estado de natureza não é social, é guiado por instintos, auto-preservação e compaixão. A desigualdade é mínima (física) e não estrutural.
O imbricamento entre o Reciprocidalismo e o pensamento de Jean-Jacques Rousseau ocorre no diagnóstico da crise da civilização moderna e na busca por uma “Nova Vontade” que restabeleça a dignidade humana. O tangenciamento ocorre em quatro momentos fundamentais, onde a mútua vontade de Falcão se apresenta como a ferramenta prática para realizar a “vontade geral” de Rousseau, especialmente quando o Estado e o Mercado falham em sua missão ética.
1.0. A Ruptura da Reciprocidade: A “Queda” de Rousseau – Para Rousseau, a desigualdade estrutural nasce com o primeiro homem que cercou um terreno e disse: “Isto é meu”. Ali, a liberdade natural foi trocada por uma dependência corrupta.
1.1. Tangenciamento – No Reciprocidalismo, o diagnóstico é idêntico. Quando o Mercado e o Estado deixam de servir ao bem comum para atender a interesses particulares, eles rompem a reciprocidade genuína. O homem deixa de ser um “Fiandeiro” (protagonista) para ser um dependente (assistido ou explorado). A “doença” da sociedade exposta pelo Reciprocidalismo é o que Rousseau chama de perda da piedade natural.
2.0. Liberdade Natural vs. Liberdade Civil – No estado de natureza, o homem é guiado pela autopreservação e pela compaixão. Ao entrar na sociedade, ele perde essa liberdade instintiva.
2.1. A Proposta do Reciprocidalismo – O Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido busca resgatar o que restou dessa “bondade natural” sertaneja (a hospitalidade, o partilhar o pouco) e elevá-la ao status de Liberdade Civil. No Reciprocidalismo, o contrato não é assinado com um Estado abstrato e burocrático, mas com o vizinho. O Fiandeiro recupera sua liberdade não isoladamente (como o bom selvagem), mas por meio do Pacto de Mútua Vontade, onde a obediência à lei que ele mesmo criou para o Núcleo é o exercício supremo da liberdade.
3.0. A Vontade Geral e o Núcleo de Reciprocidade – A “Vontade Geral” de Rousseau não é a simples soma das vontades individuais (interesses privados), mas o que é melhor para o corpo social.
3.1. O Encontro – O núcleo de reciprocidade é a célula onde a vontade geral é exercida de forma pura. Quando o grupo decide construir uma barragem subterrânea ou plantar Spondias (Umbu-cajá) em áreas degradadas, não o faz por lucro individual (Mercado) ou por obrigação legal (Estado), mas porque a reciprocidade genuína identifica que o florescimento do território é o florescimento de cada um. É a aplicação da “piedade” rousseauniana transformada em tecnologia social.
4.0. O Estado Assistencialista como a “Falsa Instituição” – Rousseau critica as instituições que acorrentam o homem em nome da segurança.
4.1. O Conflito – O reciprocidalismo identifica que o Estado assistencialista, ao dar sem exigir retribuição, e o Mercado, ao exigir sem oferecer vínculo, anula a humanidade do sertanejo;
4.2. O Reciprocidalismo propõe um “Novo Contrato Social Territorial”. Se o grande contrato social faliu porque foi capturado por interesses particulares, o pequeno contrato do Núcleo de Reciprocidade restabelece a justiça. A desigualdade volta a ser apenas física/natural, e não mais política estrutural, pois todos no núcleo operam sob a mesma regra de dar, receber e retribuir.
Tabela de Imbricamento Filosófico
Conceito de Rousseau Aplicação no Reciprocidalismo O Salto do Reciprocidalismo
Estado de Natureza A vida no Sertão antes da degradação social Resgate da “piedade” e hospitalidade nativa.
Propriedade (Origem do Mal) Latifúndio e Dependência Monetária. Substituição pela Posse Produtiva Recíproca.
Vontade Geral Decisões da Assembleia do Núcleo de Reciprocidade. O bem do território acima do lucro individual.
Liberdade Civil Autonomia do Fiandeiro. Ser dono do próprio destino através do mutirão.
5.0. Conclusão: O “Bom Selvagem” torna-se o “Fiandeiro Consciente”
O reciprocidalismo não quer que o sertanejo volte ao isolamento do estado de natureza (o que seria impossível e perigoso). Ele propõe que o sertanejo use sua bondade e instinto de cooperação para fundar uma sociedade onde o contrato social seja real, visível e palpável. O Reciprocidalismo é a cura para a corrupção social descrita por Rousseau; é a prova de que, mesmo em uma sociedade adoecida, é possível criar “oásis de ética” onde a reciprocidade genuína volta a ser a lei suprema.