Racionalidade do Afeto

reciprocidalismoAdmin
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Com as premissas do Reciprocidalismo, fica evidente que a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Jean Robert, existe uma concepção de que a chave para o desenvolvimento é maior produção e a chave para maior ´produção é uma aplicação mais ampla e mais vigorosa do conhecimento científico e técnico. Um agricultor familiar não produz mais do que seu pai produziu nem usa força mecânica para aliviar seu fardo. Os especialistas dizem que ele é subdesenvolvido. O sentido moderno de produção, onde o homem é o produtor e o produto é uma nova entidade, exige uma ruptura com o sentido tradicional da palavra, produção. A produção tornou-se um conceito econômico quando se transformou na fonte de valor. O agricultor familiar sente orgulho de poder suprir sua família com a lata qualidade de seus produtos, diferentemente dos produtos que vendem nos supermercados. Ele sabe quando plantar para que as plantas recebam chuvas suficientes para crescer e produzir bons frutos. Quando a planta começa a crescer, ele gentilmente achega terra ao seus troncos e às suas raízes para que elas não fiquem expostas ao sol. No tempo certo, ele e sua família fazem as limpas. A capina é um trabalho cansativo e é acompanhado de celebrações festivas. Como muitos outros agricultores, eles se esforçam ao máximo para conservar algumas tradições nas condições hostis em que se encontra. Não faz nenhuma despesa monetária, pois escolhe suas sementes entre os maiores grãos da mais recente colheita e usa pouco ou nada de fertilizantes químicos. Ele se baseia no seu trabalho e no de sua família. Se o seu trabalho fosse avaliado segundo as normas do lucro econômico, seria classificado como não lucrativo; todavia, a agricultura familiar obedece outra lógica, encarna outro modo de vida. Além disso, sentem um sabor diferente nos frutos por eles produzidos.

A reflexão de Jean Robert oferece o contraste definitivo entre o Valor de Troca (mercado) e o Valor de Uso e Vínculo (reciprocidade). Ao conectarmos essa visão ao Reciprocidalismo, percebe-se que o "subdesenvolvimento" atribuído ao agricultor familiar é, na verdade, uma cegueira estatística: o sistema econômico é incapaz de medir a riqueza que não passa pelo caixa, mas que sustenta a vida. No Semiárido, a anomia foi causada justamente pela tentativa de substituir esse "orgulho do produtor" pela métrica fria da "produtividade mecânica".

1.0. A Produção como Modo de Vida vs. A Produção como Entidade Econômica – Jean Robert destaca que o agricultor não produz apenas grãos; ele produz o sustento da alma e do corpo através do cuidado.

1.1. A Racionalidade do Afeto – O ato de “achegar terra ao tronco” e as “celebrações festivas” na capina são o que Nizomar chama de Tecnologias de Convivência. Não são gastos monetários, mas investimentos em Capital Social;
1.2. O Bloqueio do Progresso Real – Quando os especialistas classificam essa agricultura como “não lucrativa”, eles bloqueiam o progresso ao ignorar que esse agricultor é soberano: ele possui a semente, conhece o tempo e domina a técnica. O desenvolvimento moderno tenta transformá-lo em um “operário da terra”, dependente de insumos químicos e crédito bancário, o que o torna vulnerável e, finalmente, “miserabilizado”.

2.0. A Invenção do Subdesenvolvimento via Eficiência Mecânica – Para a lógica descrita por Robert, quem não usa “força mecânica” é subdesenvolvido.

2.1. O Equívoco Técnico – No Semiárido, a mecanização pesada muitas vezes ignora a fragilidade do solo e a variabilidade das chuvas. O agricultor familiar pratica uma Ciência de Precisão Ancestral ao selecionar os melhores grãos;
2.2. A Visão do Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo propõe que o progresso não é a substituição do homem pela máquina, mas o fortalecimento do homem pelo Dom. A “luta” contra as condições hostis mencionada por Robert só é vencida quando o trabalho da família se expande para o trabalho do Núcleo de Reciprocidade.

3.0. A Implantação: Re-legitimando a “Outra Lógica” – Implantar o Reciprocidalismo sob a ótica de Jean Robert significa criar uma Zona de Proteção à Soberania Alimentar e Ética:

3.a. O Sabor do Dom – O “sabor diferente” que o agricultor sente nos frutos é o sabor da Autonomia. O Reciprocidalismo protege esse valor. Em um Núcleo de Reciprocidade, o excedente desse agricultor não é apenas “mercadoria” para o supermercado, mas é moeda de honra que circula entre vizinhos;
3.b. A Ciência como Reforço da Tradição – Diferente da aplicação “vigorosa” da tecnologia descrita por Robert como espoliativa, o Reciprocidalismo utiliza a ciência para potencializar a semente do agricultor. O técnico não vem para substituir a semente crioula pelo híbrido químico, mas para ajudar a criar estoques comunitários mais eficientes, preservando o modo de vida;
3.c. A Cura da Anomia pelo Orgulho da Produção – O subdesenvolvimento acaba quando o agricultor deixa de ter vergonha de seu “fardo” e recupera o orgulho de sua qualidade. Ao se unir em um Núcleo, ele prova que sua lógica é lucrativa socialmente: ele tem segurança hídrica, alimentar e, acima de tudo, Paz Social.

SÍNTESE FINAL: O REENCANTAMENTO DO TRABALHO – Jean Robert nos ensina que a economia moderna sequestrou a palavra “produção”. O Reciprocidalismo a devolve ao seu dono. Recriar o Semiárido é entender que: (i) O lucro econômico é insuficiente – precisamos de lucro social e biológico; (ii) A semente é soberania – O Fiandeiro que guarda sua semente não é “atrasado”, é o guardião do futuro; (iii) A festa na capina é engenharia social – É o que mantém o povo unido contra a anomia e o desespero.

O mercado quer que o agricultor produza para o mundo e morra de fome de vínculos; a Reciprocidade quer que ele produza para os seus e viva na abundância da honra. O sabor da fruta que o Fiandeiro colhe é o sabor da liberdade que o planejamento jamais conseguirá produzir.