Homem Vinha (Superação do Assistencialismo)

reciprocidalismoAdmin
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Mantido os condicionantes do Reciprocidalismo a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Marco Aurélio, nascemos para colaborar, assim como os pés, as mãos, as pálpebras, os dentes superiores e inferiores. Tenha presente que todos os seres racionais têm parentesco e que, preocupar-se com todos os homens (reciprocidade genuína) está de acordo com a natureza humana. Lembre-se que os seres racionais nasceram una para os outros. Execute exclusivamente aquilo que a razão de sua faculdade real sugira para favorecer os homens, entretanto, é preciso que uma nova orientação tenha sempre em sua origem uma certa convicção de justiça ou de interesse da comunidade, independente que lhe pareça agradável ou popular. É preciso pensamentos e intenções retas e justas, ações que visem o bem comum. Existe certo tipo de homem que, quando faz um favor a alguém, está disposto também, a cobrar-lhes o favor (assistencialismo); enquanto outra não está disposta a agir assim, mas , contudo, em seu interior, o considera como se fosse um devedor e é consciente do que fez. Um terceiro nem sequer é consciente do que fez, mas é semelhante a uma vinha que produziu frutos e nada mais reclama depois de ter o fruto que lhe é próprio, como o cavalo que galopou, o cachorro que seguiu o rastro da presa ou a abelha que produziu o mel. Assim o homem que fez um favor não persegue um benefício, mas o cede s outro, do mesmo modo que a vinha se emprenha em produzir novos frutos a seu devido tempo. A inteligência do universo tem caráter comunitário. Regozije-se e repouse em uma só coisa: em passar de uma ação útil à sociedade a outra ação útil à sociedade.
A integração entre a sabedoria estoica de Marco Aurélio e o Reciprocidalismo revela que a superação do subdesenvolvimento não é apenas uma questão de engenharia hídrica, mas de reforma moral e antropológica. Para o Imperador Filósofo, a cooperação é uma lei biológica; para o Reciprocidalismo, ela é a “espoleta” da civilização. O subdesenvolvimento das terras secas é a negação dessa natureza: é o estado onde o homem esqueceu que é “vinha” e passou a agir como “credor”, bloqueando o fluxo do progresso através da anomia.

A ECONOMIA DA NATUREZA: DO ESTOICISMO AOS NÚCLEOS DE RECIPROCIDADE

1.0. O Homem-Vinha: A Superação do Assistencialismo – Marco Aurélio descreve três tipos de homens ao fazer um favor. O primeiro cobra (o mercado puro), o segundo registra a dívida (o assistencialismo burocrático), mas o terceiro é como a vinha que produz frutos e nada mais reclama.

1.1. A Conexão com o Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo busca formar o “Homem-Vinha” no Semiárido – Por meio da Irradiação Tecnológica, o Fiandeiro entrega o conhecimento da convivência (o fruto) sem transformar o vizinho em um devedor eterno ou em um dependente político. O Núcleo de Reciprocidade é o pomar onde se pratica a ação útil à sociedade como uma função natural. A dignidade do sertanejo é restaurada quando ele deixa de ser “objeto de caridade” para ser “sujeito de utilidade comunitária”.

2.0. A Inteligência Comunitária contra a Anomia do Estado e Mercado – Marco Aurélio afirma que a “inteligência do universo tem caráter comunitário”. O subdesenvolvimento ocorre quando o Mercado fragmenta essa unidade em indivíduos egoístas e o Estado a substitui por uma estrutura impessoal.

2.1. O Núcleo como Mediador – Os Núcleos de Reciprocidade (NITs) funcionam como o “órgão” que restabelece a conexão entre os membros da sociedade. Mediação com o Mercado – O Núcleo impede que a competição predatória destrua os recursos comuns (água, sementes), impondo a “convicção de justiça” acima do lucro imediato. Mediação com o Estado – O Núcleo protege o cidadão da “invalidez” do assistencialismo, transformando a política pública em ferramenta de autonomia, não de controle.

3.0. A “Faculdade Real” e a Irradiação Tecnológica – O Imperador exorta a executar o que a razão sugere para favorecer os homens. No Semiárido, a razão sugere a Convivência.

3.1. Ação Útil à Sociedade – A implantação de tecnologias de convivência (cisternas, manejo agroecológico) é a aplicação prática da “faculdade real”. Quando um Núcleo irradia tecnologia para outro, ele está “passando de uma ação útil a outra”. Esse fluxo contínuo é o que Marco Aurélio chama de “repousar em uma só coisa”. O progresso é desbloqueado porque o conhecimento não é represado; ele circula como o sangue no corpo social, mantendo o parentesco entre os seres racionais do sertão.

4.0. A Justiça acima da Popularidade – Marco Aurélio alerta que a orientação deve vir da justiça, não do que é popular. O assistencialismo é popular, mas a reciprocidade é justa.

4.1. O Desafio do Reciprocidalismo – Propor que um agricultor receba uma tecnologia e tenha a obrigação de irradiá-la pode não ser “popular” em uma cultura de clientelismo, mas é a única via justa para o desenvolvimento. Os Núcleos de Reciprocidade sustentam essa “intenção reta”, garantindo que a tecnologia sirva ao bem comum e não ao privilégio individual. É a vitória da razão comunitária sobre o imediatismo da anomia.

SÍNTESE: REFAZER O MUNDO PELO DEVER NATURAL – Relacionar Marco Aurélio ao Reciprocidalismo permite concluir que a superação da miséria rural exige o resgate do sentido de parentesco universal: (i) Nascemos para Colaborar – O subdesenvolvimento é uma doença da desunião. O Núcleo é a cura pela cooperação orgânica; (ii) A Tecnologia é o Fruto da Vinha – Deve ser produzida e cedida para que novos frutos surjam no tempo devido; (iii) O Progresso é a Circulação da Utilidade – A riqueza não é o que se acumula, mas a velocidade com que uma ação útil gera outra ação útil por meio da irradiação tecnológica.

O mercado quer o seu preço, o Estado quer o seu recibo; a Reciprocidade quer apenas que você cumpra a sua natureza de ser racional e social. Refazer o mundo no Semiárido é agir como o sol que brilha ou a abelha que produz o mel: dar o que se tem para que o todo possa viver.