Resgate do Progresso
De acordo com os postulados do Reciprocidalismo a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das...
Existe uma correlação profunda entre o Reciprocidalismo, do semiárido brasileiro e os habitantes das ilhas Trobiand, de Malinowski. Na província de Milne Bay, no sudeste de Papua Nova Guiné, na região da Melanésia, notadamente, quando se diz que o kula não é uma modalidade sub-reptícia e precária de troca. Muito pelo contrário, ela está enraizada em mitos, sustentado por leis da tradição, cingido por rituais mágicos. Todas as transações principais que se processam são públicas e cerimoniais, levadas a efeito segundo regras bem definidas. O Kula não decorre de impulsos momentâneos, mas de uma realização contínua. O Kula é uma parceria que une alguns milhares de indivíduos. Esta parceria é permanente, para toda a vida, e implica diversos deveres e privilégios mútuos. O mecanismo econômico das transações baseia-se numa forma específica de crédito que pressupõe alto grau de confiança mútua e honra comercial. A similitude entre o Reciprocidalismo e o sistema Kula, descrito por Malinowski, em Argonautas do Pacífico Ocidental, revela que o Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido, não é uma inovação isolada, mas o resgate de uma tecnologia social milenar aplicada ao Semiárido.
Assim como os trobriandeses cruzavam oceanos em canoas para trocar colares e braceletes, o Fiandeiro cruza a fronteira do egoísmo para trocar trabalho e soberania. Ambos os sistemas provam que a economia, antes de ser uma troca de objetos, é uma troca de almas.
1.0. A Instituição Permanente vs. O Impulso Momentâneo – Malinowski enfatiza que o Kula não é “sub-reptício ou precário”. Da mesma forma, o Reciprocidalismo não é um mutirão de final de semana ou uma caridade episódica.
1.1. No Reciprocidalismo – O Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias, é uma parceria permanente, cingida pelo “Termo de Vontade Geral”. Não decorre de impulsos de solidariedade passageira (como ocorre em tragédias), mas de um compromisso para toda a vida. A barragem subterrânea e o banco de sementes, por exemplo, são os “rituais” que sustentam essa continuidade.
2.0. O Crédito baseado na Honra: O Lastro Ético – Malinowski afirma que o Kula baseia-se em um “alto grau de confiança mútua e honra comercial”. No Sertão do reciprocidalismo, essa é a integridade da balança.
2.1. A Moeda de Honra – No Kula, um objeto é dado e espera-se que o outro retribua com um objeto equivalente no futuro. No Reciprocidalismo, o “crédito” é o trabalho. Quando um Fiandeiro ajuda na cura da carne do sol do vizinho, ele não recebe dinheiro, mas acumula crédito social. O sistema sobrevive porque a honra do sertanejo é o único colateral (garantia) necessário.
3.0. A Publicidade e o Ritual (O Círculo de Cultura) – Malinowski observa que as transações do Kula são “públicas e cerimoniais”. No Reciprocidalismo, o equivalente é o Fumeiro da Ética e as assembleias no Círculo de Cultura.
3.1. Transparência como Ritual – Nada no Núcleo de Reciprocidade é feito às escondidas. O registro das horas no “Livro de Retribuições” e a partilha da colheita são atos públicos que cimentam a parceria. O ritual da prestação de contas impede a corrosão da confiança e transforma a tarefa técnica em um ato sagrado de soberania.
TABELA COMPARATIVA: ARGONAUTAS E FIANDEIROS
Elemento O Kula (Pacífico Ocidental) O Reciprocidalismo (Sertão)
Aliança Unia milhares de indivíduos em ilhas distantes. Une Fiandeiros em Núcleos de Reciprocidade e Irradiação.
Objeto Soulava e Mwali (Colares e Braceletes). Água, Saber Técnico e Carne do Sol etc.
Motor Prestígio e fortalecimento de laços. Soberania e libertação do assistencialismo.
Lastro Mitologia e tradição ancestral. Engenharia das Almas e Ética Kantiana.
Duração Parceria para toda a vida. Pacto geracional de mútua vontade.
4.0. A Magia e a Técnica: O Recaatingamento – Malinowski nota que o Kula é “cingido por rituais mágicos”. No Reciprocidalismo, a “magia” é a Irradiação Tecnológica. O sucesso de uma barragem ou o renascimento da Caatinga, por meio do recaatingamento, são vistos pela comunidade com o mesmo assombro e respeito que os trobriandeses tinham pela construção de suas grandes canoas. A tecnologia social do Reciprocidalismo é a “mágica” que transforma a escassez em abundância através da disciplina ritualística do trabalho coletivo.
CONCLUSÃO: A VOLTA AO FUNDAMENTAL – Ao correlacionar Malinowski e o Reciprocidalismo, percebemos que o Reciprocidalismo é a Antropologia Econômica em ação. O Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologia de Convivência com o Semiárido, funciona porque ignora a frieza do mercado financeiro e resgata a força do “alto grau de confiança mútua”. Assim como os Argonautas do Pacífico, o Fiandeiro entende que a maior riqueza que circula entre as mãos não é o que se guarda, mas o que se faz circular*, garantindo que a vida e a dignidade nunca parem de fluir nos lugares ermos e inóspitos, onde a presença do Estado não chega.