Economia Moral

reciprocidalismoAdmin
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Em sua obra Costumes em Comum, E. P. Thompson descreve a luta das comunidades rurais para preservar uma Economia Moral contra a ascensão do capitalismo de mercado. Para Thompson, o mercado não deveria ser um lugar de exploração anônima, mas um espaço de obrigações sociais. O Reciprocidalismo é a atualização dessa resistência no Semiárido brasileiro.

1.0. O Modelo Paternalista vs. A Soberania do Núcleo – Thompson afirma que o modelo paternalista sobrevivia no “corpo desgastado da lei” e no conceito consuetudinário (o costume). No Reciprocidalismo, o “paternalismo” não é o assistencialismo político degradado, mas a responsabilidade da comunidade sobre si mesma. O reciprocidalismo substitui a lei estatutária fria pela Lei da Reciprocidade. O Núcleo de Reciprocidade e de Irradiação de Tecnologias recupera o costume de que o recurso (água e terra) pertence à comunidade e deve ser gerido para a proteção dos pobres, e não para o lucro de atravessadores.

2.0. O Mercado Direto e a Transparência – Thompson defende que o mercado deve ser, na medida do possível, direto: do agricultor para o consumidor. No Reciprocidalismo, esta é a essência da Irradiação Tecnológica. Ao eliminar a dependência de insumos externos caros e a figura do atravessador por meio das Tecnologias de Convivência, o Núcleo de Reciprtocidade restaura o “mercado transparente”. A troca direta entre núcleos ou com a comunidade local não visa apenas o preço, mas o sustento do laço social. O valor de vínculo supera o valor de troca.

3.0. A Liberdade do Cidadão vs. A Liberdade do Selvagem – A citação de Thompson é implacável: a liberdade total de tirar partido do mercado em detrimento da comunidade não é a liberdade do cidadão, mas a “liberdade de um selvagem”. Na Engenharia das Almas, o reciprocidalismo identifica essa “liberdade selvagem” no comportamento de quem busca o enriquecimento individual às custas do esgotamento hídrico ou da exploração do vizinho. No Reciprocidalismo, quem tira partido da tecnologia para proveito puramente egoísta, rompendo o pacto de irradiação, “não merece a proteção conferida pelo poder da sociedade (Núcleo de Reciprocidade)”. A liberdade no Núcleo é a liberdade vinculada: sou livre porque pertenço a uma rede que me protege, e essa proteção exige o respeito ao costume da partilha.

4.0. O Costume como Resistência Tecnológica – Para Thompson, o costume era uma ferramenta de luta. No Reciprocidalismo, as tecnologias (Barragens, Silos, IA Tercia etc.) tornam-se os novos costumes em comum. Elas não são propriedades privadas, mas parte do patrimônio consuetudinário do Núcleo. Quando um Fiandeiro ensina a técnica a outro, ele está reafirmando que o conhecimento é um bem comum que o mercado não pode cercar.

SÍNTESE: A PROTEÇÃO DA COMUNIDADE

Conceito (Thompson) Prática (reciprocidalismo) Objetivo Final
Economia Moral Reciprocidalismo / Dom e Contradom. Justiça social além do lucro.
Consuetudinário Protocolos de Honra e Mutirão. Normas baseadas no costume ético.
Contra a Liberdade Selvagem Critério de Idoneidade e Irradiação. Blindagem contra o egoísmo mercantil.
Proteção da Sociedade Segurança Hídrica e Soberania Alimentar. Dignidade de quem vive em comunidade.

REFLEXÃO PARA O MEDIADOR – Seguindo Thompson, o Mediador deve entender que o Núcleo de Reciprocidade é um bastião contra a “selvageria” do mercado que atomiza os indivíduos. O Reciprocidalismo oferece a “proteção conferida pelo poder da sociedade” àqueles que aceitam o jugo doce da reciprocidade.