Desconstrução da Pobreza como Essência

reciprocidalismoAdmin
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De acordo com os dogmas do Reciprocidalismo a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu François Brune, o desenvolvimento usa eufemismos para se fazer acreditar e esse recurso é tanto mais usado de acordo com a posição de poder ou de responsabilidade daqueles que têm o direito à palavra. Lembro-me dos países subdesenvolvidos, com os quais ficava sinceramente comovido, que se tornaram em países em via de desenvolvimento. Pensava de modo sensato, necessário e humanamente elementar, em vacinar, ajudar na agricultura, escavar poços, implantar aqui e acolá alguns microprojetos, enfim, em agir ao rés do chão. Não creio que tais ações tenham sido nefastas; a ilusão fora criada pela palavra desenvolvimento, que era o denominador comum daqueles frágeis bolsões. O termo desenvolvimento implicava de per si, atraso antropológico, genético-histórico ou sócio-humano dos países ainda não-desenvolvidos em relação aos nossos, que supostamente o seriam. O imaginário do crescimento, ligado à ideia de Modernidade, é, ao mesmo tempo, um imaginário do atraso projetado em todos queles que ainda precisam evoluir, alcançar seus irmãos civilizados, protótipos da normalidade. A palavra pobreza é, sem dúvida, cômoda para designar certo tipo de miséria, mas em seu uso retórico pode tornar-se uma essência muito distante do real, uma ideia pura, fora do contexto de qualquer situação concreta.
A reflexão de François Brune expõe a armadilha semântica que sustenta o subdesenvolvimento: a criação do “atraso” como uma patologia antropológica. Ao rotular sociedades tradicionais como “em via de desenvolvimento”, o sistema moderno as destituiu de sua normalidade própria para transformá-las em cópias defeituosas do Ocidente. O Reciprocidalismo atua precisamente na quebra dessa retórica eufemística. Ele reconhece que o progresso foi usurpado não por falta de poços ou vacinas, mas pela imposição de uma identidade de “inferioridade” que paralisou a capacidade de auto-organização (a anomia).

1.0. A Desconstrução da Pobreza como “Essência” – Brune alerta que a palavra “pobreza” tornou-se uma ideia pura, desconectada do real. No Semiárido, o desenvolvimento tratou a escassez de água como uma “pobreza essencial” que exigia intervenção externa (o assistencialismo).

1.1. A Resposta do Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo substitui a “pobreza abstrata” pela Riqueza da Reciprocidade. Ele entende que uma comunidade que domina a tecnologia de convivência e mantém o Pacto de Honra não é “pobre” ou “atrasada”; ela é Soberana. O progresso é resgatado quando o agricultor deixa de ser o “alvo da comoção” de Brune para ser o Fiandeiro de seu próprio destino.

2.0. O Resgate da Normalidade Antropológica – O imaginário do crescimento projetou o atraso em todos que não seguiam o protótipo industrial. Isso bloqueou o progresso local porque invalidou o conhecimento vernacular.

2.1. A Atuação dos Núcleos – Os Núcleos de Reciprocidade não buscam “alcançar os irmãos civilizados”. Eles buscam estabelecer uma nova normalidade baseada no Semiárido. O progresso deixa de ser uma corrida para o futuro (evolução linear) e passa a ser o fortalecimento do presente através da Irradiação. Quando um núcleo domina uma tecnologia e a repassa pelo Dom, ele prova que sua “normalidade” é superior à dependência do mercado global.

3.0. Alternativas Viáveis contra a Ilusão do “Rés do Chão” – Brune admite que agir “ao rés do chão” (escavar poços, microprojetos) não é nefasto, mas a ilusão do termo “desenvolvimento” os tornava frágeis e isolados. O Reciprocidalismo preenche esse vácuo com uma Engenharia Social Confiável: (i) A Espoleta Cognitiva – Em vez de “ajudar na agricultura” de fora para dentro, o Reciprocidalismo usa a extensão rural como espoleta para despertar o saber interno; (ii) A Estrutura de Proteção – Diferente dos microprojetos isolados que morrem quando o técnico vai embora, o Núcleo de Reciprocidade possui um mecanismo de autogestão (Fundo de Reserva) que garante a continuidade sem depender da “piedade” externa mencionada por Brune.

  1. O Domínio das Forças Usurpadas – O domínio das forças que causaram o subdesenvolvimento é retomado quando o Pacto de Honra substitui o eufemismo. O subdesenvolvimento é uma força de desagregação social. O Reciprocidalismo atua como uma força de Religamento. Ao restaurar a obrigação de *Dar, Receber e Retribuir, ele retira o poder das mãos dos “assistentes generosos” (que mantêm o controle via eufemismo) e o devolve à base, onde o progresso é fruto do trabalho mútuo e da técnica compartilhada.

SÍNTESE FINAL: O FIM DA RETÓRICA DA CARÊNCIA – Para o Reciprocidalismo, resgatar o progresso usurpado é, antes de tudo, resgatar a verdade; (i) Rejeitar o Eufemismo – Não somos “em via de desenvolvimento”; somos uma sociedade em busca de Reciprocidade Genuína; (ii) Validar o Contexto – A solução para o Semiárido não é uma “ideia pura” de progresso ocidental, mas a prática concreta da Convivência; (iii) Instituir a Segurança – A alternativa confiável é o Núcleo, onde a tecnologia é um dom e a honra é a moeda.

O desenvolvimento usou palavras bonitas para nos convencer de nossa feiura; a Reciprocidade usa o trabalho duro e o pacto de face-a-face para nos devolver a beleza de nossa soberania.