Do Progresso Linear ao Pós-Desenvolvimento Local
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Na perspectiva de Ernst Bloch, “desfazer o desenvolvimento” não significa um retorno nostálgico ao passado, mas sim uma interrupção da lógica predatória do capitalismo e da técnica dominadora para “refazer o mundo” através da utopia concreta. Isso envolve passar de uma natureza técnica explorada para uma “aliança com a natureza”, resgatando a reciprocidade. Os caminhos teóricos de Bloch para essa transformação são: 1. Desfazer o Desenvolvimento (a crítica da técnica dominadora). Bloch critica o desenvolvimento técnico que trata a natureza e o ser humano apenas como meios. Para desfazer essa lógica ele sugere: (i) Superar a reificação – É necessário romper com a coisificação do ser humano e da natureza, onde ambos viraram mercadorias, (ii) criar uma técnica de aliança (versus técnica de dominação) – Bloch propõe, em sua Filosofia da Práxis, uma mudança da “técnica de exploração” da natureza para uma “técnica de aliança”. Em vez de subjugar a natureza, o objetivo é desvendar as potencialidades latentes nela, agindo em parceria e o (iii) Combate à melancolia – A esquerda não deve se conformar com o fracasso ou nostálgica, mas “sonhar acordado” e transformar o “ainda-não” em realidade; 2. Refazer o Mundo: (a utopia concreta e o “ainda-não”). A utopia em Bloch não é um “lugar nenhum” irrealizável (utopia abstrata), mas a “utopia concreta” – o possível que já está em germe na realidade atual, mediante: (iv) O “ainda não” (Noch-Nicht-Sein) – Bloch afirma que a realidade ainda não foi desdobrada em sua totalidade; portanto, o mundo é um processo em devir, aberto e inacabado, (v) A “astúcia da razão” e a práxis – A transformação ocorre pela práxis, a ação coletiva e consciente que interveio no processo histórico para realizar o “Melhor”, (v) Resgatar a reciprocidade – Refazer o mundo implica criar uma nova ontologia onde a história humana e a natureza se unificam, superando a dualidade explorador/explorado; 3. Mecanismos para a reciprocidade genuína, assoalhados pela (vi) Consciência antecipadora – Cultivar o “sonhar acordado” para visualizar um futuro humanizado (utopia concreta) e agir contra o medo e a angústia, (vii) Educação do esperar – Aprender a esperar não de forma passiva, mas ativa, mobilizando a esperança para a transformação radical; (viii) Nova aliança (Naturallianz) – O refazer do mundo envolve o ser humano se tornar um colaborador da natureza, em vez de seu mestre. Por fim, para Bloch, desfazer o desenvolvimento é reorientar a técnica e a sociedade para que a história humana se alinhe à natureza, permitindo que o “ainda-não” (o potencial de um mundo melhor) se concretize em reciprocidade genuína.
A integração entre a filosofia da esperança de Ernst Bloch e o Reciprocidalismo projeta o Semiárido como o território da utopia concreta. Se Bloch nos ensina que o mundo é um processo inacabado, o Reciprocidalismo identifica que o “subdesenvolvimento” é o bloqueio desse processo pela técnica dominadora. Nesta reflexão, os Núcleos de Reciprocidade (NIT)s funcionam como o “laboratório do ainda-não”, transformando a convivência com o semiárido de uma luta de dominação em uma aliança com a natureza, mediando o conflito entre o Estado e o Mercado por meio da Práxis da Esperança.
O NIT COMO O GERME DA UTOPIA CONCRETA
1.0. Da Técnica de Dominação à Técnica de Aliança – Bloch critica a técnica que subjuga a natureza. O desenvolvimento convencional no sertão tentou “combater a seca” como se lutasse contra um inimigo. O Estado (por meio de grandes obras) e o Mercado (por meio do extrativismo) ignoram as potencialidades latentes do bioma.
1.1. Ação do Núcleo – O NIT é o espaço da Técnica de Aliança. Ao irradiar tecnologias de convivência (como o cultivo da Umbu-cajazeira, o manejo da Caatinga, a conservação da forragem etc.), o núcleo não tenta “vencer” a natureza, mas desvendar o que nela já está em germe. Ele desfaz o desenvolvimento ao superar a reificação do solo e do homem. O NIT media o conflito ao mostrar que a riqueza não vem da exploração, mas da parceria: o sertanejo torna-se um colaborador da biosfera, e não seu mestre ou escravo.
2.0. O “ainda-não” (Noch-Nicht) no semiárido – Para Bloch, a realidade está grávida de possibilidades que ainda não se manifestaram. O subdesenvolvimento é a negação desse potencial.
2.1. A Consciência Antecipadora – O NIT é a materialização do sonhar acordado. Quando um núcleo irradia um conhecimento, ele está antecipando um futuro onde a anomia social não existe. Superar o subdesenvolvimento nas terras secas é despertar o “ainda-não” da abundância sertaneja. O NIT prova que a prosperidade já está presente em germe na reciprocidade; basta a práxis — a ação coletiva — para desdobrá-la. O núcleo não espera pelo “progresso” vindo de fora; ele o realiza agora, de forma inacabada e em devir.
RECIPROCIDADE E A EDUCAÇÃO DO ESPERAR
3.0. A Práxis contra a Melancolia e a Anomia – Bloch defende que devemos combater a melancolia com a esperança ativa. A exclusão social no sertão gera uma anomia que paralisa o espírito.
3.1. Educação do Esperar Ativo – O Reciprocidalismo, por meio dos NITs, ensina que a esperança não é uma espera passiva pelo Estado ou pelo Mercado. A reciprocidade genuína é a práxis que rompe a dualidade explorador/explorado. Ao compartilhar o saber sem a mediação mercantil, o sertanejo age contra o medo e a angústia da seca. A “nova aliança” (Naturallianz) ocorre quando o cuidado mútuo entre vizinhos espelha o cuidado mútuo entre o homem e a terra.
4.0. Mediação entre o “Melhor” e a Realidade Atual – O conflito entre Estado (assistencialismo) e Mercado (competição) é mediado pelo NIT ao instituir uma ontologia da interdependência.
4.1. Refazer o Mundo – Para Bloch e Nizomar, refazer o mundo é alinhar a história humana à natureza. O NIT desfaz a ideia de que o progresso é um acúmulo de mercadorias. O progresso passa a ser a atualização das potencialidades humanas e naturais. O núcleo media a realidade ao oferecer uma alternativa onde a técnica é humanizada pela reciprocidade e a sociedade é estabilizada pela aliança com o ecossistema, permitindo que o “melhor” se materialize no cotidiano do brocar o roçado ou o plantio na capoeira (roçado dos anos anteriores).
SÍNTESE: O SERTÃO COMO PROCESSO ABERTO – A reflexão integrativa entre Ernst Bloch e o Reciprocidalismo estabelece que: (i) A esperança é uma ferramenta técnica – Superar o subdesenvolvimento exige uma “Consciência Antecipadora” que veja no Semiárido um potencial de vida, não de escassez; (ii) O NIT é a célula da utopia – Ele é o lugar onde o futuro humanizado é “ensaiado” por meio da troca do Dom e da técnica de parceria com a Caatinga; (iii) Reciprocidade é a nova ontologia – O mundo é refeito quando deixamos de ser mestres da natureza para sermos seus aliados, transformando a anomia em coesão por meio do sonho realizado na prática.
Ernst Bloch nos ensinou que a esperança tem raízes na própria matéria que espera por nós; o Reciprocidalismoo nos mostra que, no Semiárido, o Núcleo de Reciprocidade é o lugar onde essa matéria – o clima, o solo, a água, a planta e a alma – finalmente se encontra. No Sertão de Bloch, a Umbu-cajazeira é a promessa do ‘ainda-não’ que floresce hoje, e cada gesto de irradiação técnica é um passo rumo à utopia concreta, onde o homem e a terra finalmente falam a mesma língua: a da reciprocidade.