Cercamento do Conhecimento e a Anomia Tecnológica

reciprocidalismoAdmin
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Para o Reciprocidalismo, a reciprocidade genuína foi a espoleta que transformou a selvageria em civilização, notadamente a Reciprocidade Genuína que se baseia na gentileza e no oferecimento de valor sem esperar um retorno direto e imediato, gerando conexões mais profundas e duradouras, enquanto que, a reciprocidade estratégica é a regra, frequentemente citada em psicologia social, que descreve a tendência de retribuir favores recebidos para evitar rejeição social ou para conseguir benefícios futuros.  Nesses termos, para o Reciprocidalismo de Nizomar Falcão a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado.
Conferindo Brian Manning, a Revolução Inglesa não foi apenas como um conflito constitucional ou religioso, mas um processo fundamental de transição econômica e social, onde a transformação das terras comunitárias em mercadorias desempenhou papel central. A síntese dos ideais de Manning sobre esse processo envolve os seguintes pontos: (i) A “Mercadorização” da Terra (Enclosures) – Manning descreve como o movimento de cercamentos (enclosures) transformou terras comunais, usadas coletivamente pelos camponeses para pastagens e cultivo, em propriedade privada. A terra deixou de ser um meio de subsistência comunitária para se tornar uma mercadoria, voltada para a produção com fins de lucro, especialmente para a criação de ovelhas (matéria-prima para a indústria de lã); (ii) Conflito de Classe e o “Povo” – O autor destaca que a revolução teve um forte componente de luta de classes. Os cercamentos eram promovidos por grandes proprietários de terras e gentry, gerando resistência popular. A transformação da terra em mercadoria foi vista como um roubo dos direitos tradicionais dos “pobres” e camponeses; (iii) A Posição do Parlamento – Embora a revolução tenha começado com esperanças populares de que o Parlamento protegeria as terras comuns, Manning aponta que os regimes revolucionários, em sua maioria, acabaram apoiando o desenvolvimento do capitalismo agrário, favorecendo a conversão da terra em propriedade privada e capital; (iv) Consequências Sociais – Esse processo resultou no êxodo rural, com camponeses perdendo suas formas de subsistência e tornando-se trabalhadores assalariados, formando uma nova força de trabalho para a indústria nascente; (v) A Mudança de Mentalidade – O foco deslocou-se do “bem comum” para o “lucro individual”. A terra, antes vista como base de vida, foi redefinida como um ativo de capital e investimento . Em síntese, para Brian Manning, a Revolução Inglesa removeu os obstáculos feudais (como as terras comunais) para a livre expansão do capitalismo, com a transformação das terras em mercadorias sendo um pilar da agrarian capitalism (capitalismo agrário) que emergiu no período.
A análise de Brian Manning sobre os cercamentos (enclosures) na Revolução Inglesa oferece a gênese histórica da anomia que o Reciprocidalismo de Nizomar Falcão busca combater no Semiárido brasileiro. Manning descreve o momento em que a terra deixou de ser o palco da reciprocidade comunitária para se tornar um ativo financeiro, um processo que Manning identifica como o pilar do capitalismo agrário, mas que o Reciprocidalismo identifica como o bloqueio do progresso humano pela destruição do Dom. Integrar Manning ao Reciprocidalismo permite compreender que o subdesenvolvimento das terras secas não é fruto do clima, mas da reprodução histórica desse “cercamento” – não apenas da terra, mas do conhecimento e da tecnologia.

DO CERCAMENTO À IRRADIAÇÃO: RECONQUISTANDO O BEM COMUM

1.0. O “Cercamento” do Conhecimento e a Anomia Tecnológica – Manning demonstra que a Revolução Inglesa transformou a terra de subsistência em mercadoria de lucro. No Semiárido, vivemos um cercamento moderno: o acesso à tecnologia de convivência (água, sementes, manejo) é frequentemente “cercado” pelo Mercado (preços inacessíveis) ou pelo Estado (por meio do clientelismo).
1.1. A Resposta do NIT – Os Núcleos de Reciprocidade (NIT) funcionam como o “desercamento” (disenclosure). Ao transformar a tecnologia em um bem comum através da Irradiação, o Reciprocidalismo retira a solução técnica da prateleira das mercadorias e a devolve ao campo da reciprocidade genuína.

2.0. A Posição do Mediador (Estado, Mercado e o “Povo”) – Manning aponta que o Parlamento Inglês, embora parecesse um aliado popular, acabou favorecendo o capital. O Reciprocidalismo propõe que o Núcleo seja o mediador que impede que essa história se repita nas terras secas: (i) Contra o Lucro Individualista (Mercado) – O Núcleo impede que a tecnologia seja usada para a acumulação que exclui o vizinho. A ética da irradiação garante que o ganho de produtividade de um agricultor se torne o ganho de segurança hídrica de todos; (ii) Contra a Gestão do Capital (Estado) – O Núcleo evita que o agricultor se torne apenas um “trabalhador assalariado” ou dependente de subsídios. Ele restaura a propriedade do saber, permitindo que o sertanejo recupere sua autonomia produtiva sem precisar do êxodo rural.

3.0. A Mudança de Mentalidade: Da Mercadoria ao Dom – Manning descreve a mudança de mentalidade do “bem comum” para o “lucro individual”. O Reciprocidalismo faz o caminho inverso, a partir da *Reciprocidade Genuína: (i) A Tecnologia como Terra Comunal – No Reciprocidalismo, o saber técnico é o novo “comum”. A Irradiação é o mecanismo que garante que esse comum não seja cercado; (ii) O subdesenvolvimento é superado quando o agricultor percebe que sua força não está na venda isolada de sua produção (mercadoria), mas na sua inclusão em uma rede de Dons e Contra-dons que garante a resiliência do grupo frente às crises climáticas.

4.0. O Fim do Êxodo Rural pela Soberania do Núcleo – A Revolução Inglesa resultou no êxodo rural massivo. O subdesenvolvimento do Semiárido frequentemente empurra o sertanejo para a periferia das grandes cidades.

4.1. Restaurar a Base de Vida – Ao transformar as terras secas em espaços de alta tecnologia social e reciprocidade, o NIT fixa o homem no campo. A dignidade é restaurada porque a terra volta a ser, como nas comunidades pré-cercamento de Manning, a base de vida e de relações, e não apenas um ativo de investimento externo.

SÍNTESE: A REVOLUÇÃO DA RECIPROCIDADE – Relacionar Brian Manning ao Reciprocidalismo de Nizomar Falcão permite concluir que: (i) O Subdesenvolvimento é um Cercamento – Ele bloqueia o fluxo de recursos e saberes para favorecer interesses externos ou anômicos; (ii) O Núcleo é o Novo “Common” – Um espaço de gestão coletiva onde a tecnologia é o instrumento da união, não da separação; (iii) A Irradiação é a Retomada – É o ato político de devolver ao povo o direito de progredir através da cooperação, superando a lógica da mercadorização absoluta.

Se os cercamentos ingleses criaram o trabalhador despossuído, os Núcleos de Reciprocidade criam o sertanejo soberano. Onde o mercado vê um ativo e o Estado vê um problema social, o Reciprocidalismo vê uma vinha pronta para produzir frutos coletivos, desde que o laço da reciprocidade genuína seja a cerca que protege a todos, em vez de excluir a maioria.