Etnocentrismo do Padrão de Vida e a Anomia

reciprocidalismoAdmin
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De acordo com as premissas do Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Serge Latouche, a lógica do desenvolvimento econômico está na exploração mais eficiente dos recursos naturais por meio da utilização da ciência e da tecnologia mediante o uso de equipamentos industriais. Ao estabelecer esse mesmo padrão para todos os países do globo, sugeriu-se automaticamente que ele era o ideal pelo qual todas as organizações mundiais deveriam lutar, diferentemente do que os especialistas em geografia humana dedicavam-se continuamente a estudar que eram modos de vida diferentes, tentando descrever as maneiras de viver específicas a uma região ou a um determinado contexto social. Apesar da esperança de uma vida satisfatória seja uma preocupação muito humana, a obsessão por esse modelo de padrão de vida é muito recente, nascendo assim o mito do desenvolvimento. Á base do paternalismo das agências internacionais que lidam com o terceiro mundo existe um etnocentrismo assustador. Se seguíssemos um internacionalismo verdadeiro e genuíno, ou um universalismo, seria preciso que pedíssemos aos especialistas das últimas regiões primitivas que ainda retam no mundo para preparar uma lista das deficiências que nós, os povos dos países desenvolvidos, sofremos – solidão, depressão, estresse, neuroses, insegurança, violência etc.
Esta reflexão encerra um ciclo de pensamento crítico essencial: a percepção de que o “subdesenvolvimento” não é uma ausência de progresso, mas a destruição de modos de vida específicos em favor de um padrão global tecnocrático. Ao cruzar a “Decrescimento” de Serge Latouche com o Reciprocidalismo, revela que a verdadeira pobreza do Semiárido começou quando o sertanejo foi ensinado a desprezar sua capacidade de convivência para adorar o mito do consumo.

1.0. O Etnocentrismo do Padrão de Vida e a Anomia – Latouche denuncia que o desenvolvimento impôs um padrão único, ignorando a geografia humana e as maneiras específicas de viver. No Semiárido, isso se manifestou como a deslegitimação do “saber de convivência”.

1.1. A Conexão com Nizomar – Quando as agências internacionais e o Estado impõem o modelo industrial (grandes obras, dependência tecnológica externa), elas causam o que o Reciprocidalismo chama de Anomia.

1.2. O Bloqueio do Progresso – Ao tentar transformar o sertanejo em um “consumidor ocidental padrão”, retira-se dele o seu maior ativo: a rede de reciprocidade. O progresso é bloqueado porque o povo é forçado a competir em um jogo cujas regras (estresse, neurose, exploração) destroem a saúde social do território.

2.0. A Inversão do Olhar: A “Pobreza” dos Desenvolvidos – A provocação de Latouche é magistral: se pedíssemos aos “primitivos” para listar nossas deficiências, eles apontariam nossa solidão e insegurança.
2.1. No Reciprocidalismo, essa “riqueza ocidental” é vista como uma forma de indigência espiritual e social;
2.2. O Homo miserabilis do desenvolvimento pode ter um celular, mas não tem um vizinho em quem confiar. O Fiandeiro do Reciprocidalismo pode enfrentar a seca, mas nunca enfrenta a solidão, pois ele está inserido na tríade do Dar, Receber e Retribuir.

3.0. A Implantação: O Semiárido como Alternativa ao Mito – A implantação do Reciprocidalismo, sob a ótica de Latouche, não é um projeto de “trazer o progresso”, mas de libertar a vida satisfatória”.

3.a. Valorização do Modo de Vida Específico – Em vez de equipamentos industriais de larga escala que escravizam ao mercado, o Reciprocidalismo prioriza as Tecnologias de Convivência com o Semiárido (agricultura regenerativa, cisternas, bancos de sementes, manejo agroecológico etc.). São tecnologias que respeitam a geografia humana e não exigem que o sertanejo deixe de ser quem é para “progredir”;
3.b. O Universalismo da Reciprocidade – Contra o etnocentrismo das agências, Nizomar propõe o universalismo do Dom. A solução para o Semiárido não virá de Washington ou de Brasília, mas da restauração do círculo de ajuda mútua. O “sucesso” não é atingir o PIB per capita europeu, mas atingir o Índice de Soberania do Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido;
3.c. A Cura das Neuroses Modernas via Vínculo – A implantação dos Núcleos de Reciprocidade atua na prevenção das “patologias do desenvolvimento” (estresse, depressão, violência etc.). Ao restaurar o sentimento de pertencimento e a segurança do estoque comum, o Reciprocidalismo oferece o que Latouche chama de “vida satisfatória” — um estado de dignidade que o mito do desenvolvimento, em sua obsessão por expansão, jamais conseguiu entregar.

SÍNTESE FINAL: O DESPERTAR DA SOBERANIA LOCAL – A reflexão de Serge Latouche nos alerta que o desenvolvimento é uma religião secular que nos custou a nossa autonomia. O Reciprocidalismo é o caminho de “apostasia” desse mito. Implantar o Reciprocidalismo no Semiárido é: (i) Rejeitar o Paternalismo – Parar de medir nossa dignidade pela régua do outro; (ii) Abraçar a Diversidade – Entender que a nossa “geografia humana” exige uma economia do afeto e do estoque, não da exploração e do fluxo; (iii) Tecê-lo na Prática – Cada reunião de Núcleo é um ato de resistência contra o etnocentrismo homogeneizante. “O desenvolvimento nos prometeu o mundo e nos deu a solidão. O Reciprocidalismo nos devolve o vizinho e nos dá o Sertão Soberano.