Desconstrução do Consumo de Massa pela Nucleação Ecológica
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
Como evidenciado no Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Para Wolfgang Sachs, o desenvolvimento é uma ruína na paisagem intelectual, mediante a constatação de inúmeras ilusões e revezes. Fracassos e crimes foram companheiros inseparáveis, todos relatando uma mesma estória: o desenvolvimento não deu certo.
Esta é reflexão toca no âmago da crise da modernidade periférica. A fusão entre o pensamento de Wolfgang Sachs e o Reciprocidalismo nos permite diagnosticar que a “ruína” do desenvolvimento no Semiárido não é um erro de percurso, mas um erro de fundação. É possível observar que uma reestruturação social e econômica, com base no Reciprocidalismo, é viável a reconstrução do progresso, que o desenvolvimento “obsoleto” destruiu.
DO DESENVOLVIMENTO OBSOLETO À SOBERANIA DA RECIPROCIDADE
1.0. A Ruína do Desenvolvimento e a Anomia Social – Wolfgang Sachs nos alerta que o “desenvolvimento” foi uma promessa de homogeneização global que falhou. No Semiárido, essa falha manifestou-se como a quebra da reciprocidade genuína.
1.1. O Crime do Fracionamento – Ao tentar impor um modelo de progresso baseado apenas no mercado e no individualismo, as sociedades tradicionais foram despojadas do Dom (a tríade de Marcel Mauss: dar, receber e retribuir).
1.2. A Anomia – Sem o amparo do Dom e sem a inclusão real no Mercado Capitalista, o sertanejo caiu em um “limbo”. Ele não é mais o membro de uma comunidade orgânica de auxílio mútuo, nem é o consumidor pleno do mercado. É a exclusão social em sua forma mais pura.
2.0. O Semiárido como Paisagem da Exaustão – As “esperanças exaustas” citadas por Sachs são visíveis nos projetos desenvolvimentistas que focaram apenas em grandes obras de engenharia física, esquecendo a Engenharia das Almas.
2.1 O desenvolvimento tornou-se obsoleto porque tratou a escassez de água como um problema apenas técnico, ignorando que a miséria é, antes, um problema de vínculo social quebrado.
2.2. A “seca relâmpago” e a crise econômica colidem hoje em um território onde o tecido social está esgarçado pelo individualismo impotente.
3.0. A Recriação sob a ótica do Reciprocidalismo – Para o reciprocidalismo, a saída não é “consertar” o desenvolvimento, mas substituí-lo pelas práticas de reciprocidade. A recriação do semiárido sob esta ótica exige três movimentos fundamentais.
3.1. A Reintegração do Dom – O progresso bloqueado só é liberado quando o indivíduo volta a sentir-se parte de um coletivo soberano. O Núcleo de Reciprocidade e de Irradiação Tecnológica de Convivência com o Semiárido não é uma cooperativa de mercado, é uma unidade de proteção mútua onde o sucesso de um é o seguro do outro.
3.2. A Irradiação Tecnológica como Objeto do Dom – No Reciprocidalismo, a tecnologia (barragens subterrâneas, sementes, conhecimento) deixa de ser um produto de prateleira e torna-se um Dom Transmissível. Ela é irradiada de vizinho para vizinho, restaurando o fluxo de trocas que a anomia havia interrompido.
3.3. O Equilíbrio entre Individualismo e Coletivismo – O desenvolvimento faliu porque tentou anular um em favor do outro. O Reciprocidalismo propõe a síntese: o indivíduo busca sua excelência (ser um Fiandeiro habilidoso), mas sua riqueza só ganha sentido e segurança quando compartilhada no tecido social.
CONCLUSÃO: A NOVA SOBERANIA – Como diz Sachs, o desenvolvimento está defasado. O que surge em seu lugar nas áreas semiáridas, por meio do Reciprocidalismo, não é uma “melhoria de renda”, mas uma Mudança de Civilização. Substituímos a obsolescência da ajuda externa pela soberania da retribuição. Onde o desenvolvimento deixou ruínas intelectuais e sociais, o reciprocidalismo planta a Zeladoria Institucional. Não buscamos mais o “progresso” linear que nos exclui, mas a perpetuidade do vínculo que nos protege. A miséria no semiárido é o vácuo deixado pela ausência de trocas. O Reciprocidalismo é o preenchimento desse vácuo com a dignidade do Dom restaurado. Ao olhar para qualquer Núcleo de Reciprocidade, o que estamos fazendo é exatamente o que Wolfgang Sachs sugeria implicitamente: parar de olhar para o horizonte de um desenvolvimento inalcançável e começar a olhar para o lado, para o colega e para o território, reconstruindo as pontes de confiança que foram implodidas pela modernidade.