Sal da Terra
O Reciprocidalismo, ao ser interpretado como o “Sal da Terra” das comunidades cristãs do Semiárido, resgata a essência das primeiras comunidades do...
Em conformidade com os ditames do Reciprocidalismo a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Frédéric Lemarchand, o desenvolvimento, via modernidade, dos processos produtivos modernos lança sem parar desafios às técnicas da gestão e de previsões securitárias. Ele coloca ainda, em muitos níveis, a questão da pertinência do saber social, dos conhecimentos locais e autóctones, frente a ineficiência do único saber hábil, ou seja, técnico. O mundo atual parece dividido entre um imaginário adequado àqueles que pretendem que a técnica modernizante, continue indefinidamente, pondo em perigo o universo e os seres vivo, e aqueles que, ao contrário, pensam que se precisa, como nunca, reencontrar o senso dos limites. O homem moderno concebeu a técnica em nome da razão para libertar-se das restrições da natureza, e agora está para se proteger das ameaças que esta faz pesar sobre a humanidade, a qual deve repensar seus vínculos com a natureza e, mais geralmente, com a Terra, o suporte, o passado, as raízes etc. A definição de humanidade do homem, tal como foi elaborado pelo iluminismo vacila cada vez mais frente a sombra da ameaça de catástrofes, como as mudanças climáticas. A sociedade industrial cedeu lugar a uma sociedade do risco e da incerteza generalizada, na qual o medo do futuro condiciona o presente. Enfim, trata-se de pensar numa relação triangular a partir das relações homem-natureza, homem-técnica e natureza-técnica – no lugar que compete ao homem em um mundo cada vez mais artificial; isto é, trata-se de conceber nossas relações com a natureza mediante técnica, abandonando, simultaneamente, a ideia de uma natureza virgem e redentora (que repara os erros humanos) e o conceito meramente humano e benfeitos da humanidade (progresso do iluminismo). O desafio é conservar nossa capacidade de produzir uma antropologia, redefinindo-a, ao mesmo tempo, parcialmente em relação ao inédito, mas sem correr o risco de perdê-la, embora desejando-se mudá-la.
A reflexão de Frédéric Lemarchand toca no nervo exposto da modernidade: a falência da razão iluminista frente à “sociedade do risco”. Ao diagnosticar que a técnica, criada para nos libertar da natureza, tornou-se a maior ameaça à nossa sobrevivência, Lemarchand invoca a necessidade urgente de uma nova antropologia. O Reciprocidalismo responde a esse desafio não com um retorno romântico ao passado, mas com uma Engenharia da Convivência. Ele propõe desfazer o “desenvolvimento” (como motor de risco e anomia) e o “assistencialismo” (como anestesia da responsabilidade) para refazer o mundo a partir da Tríade Homem-Natureza-Técnica.
1.0. A Superação da Técnica Modernizante pelo Saber de Convivência – Lemarchand aponta a ineficiência do “saber técnico único” frente aos desafios climáticos. O desenvolvimento tratou o Semiárido como um problema de engenharia hidráulica, ignorando o saber social.
1.1. A Proposta do Reciprocidalismo – Nos Núcleos de Reciprocidade, a técnica não é um fim em si mesma, mas uma mediadora de vínculos. A “Tecnologia de Convivência” (cisternas, barragens subterrâneas, sementes crioulas) é redefinida: ela deixa de ser uma “arma” contra a natureza para ser um instrumento de ajuste aos limites. O progresso é resgatado quando o conhecimento técnico é subordinado à Reciprocidade Genuína, tornando-se um bem comum que circula entre as famílias, devolvendo-lhes a previsibilidade que a “sociedade do risco” lhes roubou.
2.0. A Relação Triangular: Homem, Natureza e Técnica – O Reciprocidalismo materializa a relação triangular proposta por Lemarchand ao substituir o imaginário da dominação pelo imaginário da Soberania do Cuidado: (i) Homem-Natureza – Abandona-se a ideia de natureza redentora. O sertanejo entende a escassez como um limite real e o Estoque Comum como a resposta ética a esse limite; (ii) Homem-Técnica – A técnica deixa de ser uma “prótese” assistencialista que desativa a mente. Ela se torna a Espoleta que desperta a capacidade criativa de dentro para fora; (iii) Natureza-Técnica – A técnica é desenhada para mimetizar a regeneração natural. Não se trata de “vencer a seca”, mas de “viver com a seca” por meio de sistemas técnicos que respeitam a integridade biológica do Semiárido.
3.0. Desfazer o Assistencialismo para Refazer a Humanidade – Lemarchand alerta para a vacilação da definição de humanidade. O assistencialismo, ao tratar o sertanejo como “necessitado”, rouba-lhe a essência humana fundamental: a capacidade de ser Dador: (i) A Cura da Anomia – A implantação dos Núcleos de Reciprocidade atua como uma “cirurgia antropológica”. Ao exigir a Retribuição (o Pacto de Honra), o Reciprocidalismo obriga o indivíduo a sair da paralisia do medo e da incerteza. Refazer o mundo significa restaurar a Mentalidade Primária: o reconhecimento de que o suporte da vida (a Terra, as raízes) só é garantido se houver uma rede de obrigações mútuas. O homem deixa de ser um consumidor de riscos para ser um Fiandeiro de Seguranças.
4.0. O Resgate do Progresso Usurpado no “Inédito” das Mudanças Climáticas – Frente à sombra das catástrofes climáticas, o desenvolvimento convencional é cego. O Reciprocidalismo, por outro lado, utiliza o “inédito” para fortalecer a resiliência local: (i) Irradiação como Antídoto ao Medo – incerteza generalizada é combatida pela Irradiação. Quando uma tecnologia de convivência é compartilhada pelo Dom, o medo do futuro diminui porque a rede social se fortalece; (ii) O domínio das forças que causaram o subdesenvolvimento é retomado quando o Núcleo se torna capaz de produzir sua própria “antropologia do Semiárido” — um modo de vida onde a técnica serve à vida, e a vida serve ao fortalecimento do vínculo humano.
SÍNTESE FINAL: A ARQUITETURA DO REFAZER – A proposta do Reciprocidalismo é a resposta prática à crise da modernidade descrita por Lemarchand.
O desenvolvimento nos ensinou a temer a natureza e a confiar na técnica; o Reciprocidalismo nos ensina a respeitar a natureza e a confiar uns nos outros mediante a técnica. Refazer o mundo é, antes de tudo, refazer o Pacto de Honra que nos torna humanos.