Técnica de Convivência contra Sistema Técnico

reciprocidalismoAdmin
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O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Desfazer o desenvolvimento para refazer o mundo na perspectiva de Jacques Ellul não significa um retorno simplista à era pré-industrial, mas sim uma revolução radical contra a autonomia da “técnica”. Para Ellul, a técnica é o conjunto de métodos racionais visando à máxima eficiência em todas as áreas (economia, política, vida pessoal), que se tornou um sistema autônomo que condiciona e domina o ser humano, destruindo a liberdade e a reciprocidade genuína. Para resgatar essa reciprocidade, Ellul propõe uma mudança de paradigma baseada nos seguintes pontos: 1. Desmistificar e “desfetichizar” a Técnica está em (i) Reconhecer a autonomia da técnica – Entender que a técnica moderna não é neutra; ela age por conta própria e transforma meios em fins; (ii) Questionar a eficiência – Abandonar a busca cega pela máxima eficiência (rendimento, produtividade) como o valor supremo da sociedade; (iii) Recusar o determinismo – Rejeitar a ideia de que “o progresso técnico é inevitável” ou que “se algo pode ser feito, deve ser feito”. 2. Ação de “Desfazer o Desenvolvimento” (Decrescimento) ocorre mediante a (iv) Redução do domínio técnico – Desmantelar técnicas que diminuem o ser humano e substituí-las por formas de organização social que valorizem o humano e o local; (v) Valorização do qualitativo sobre o quantitativo – A sociedade técnica foca no mensurável. Refazer o mundo exige focar na qualidade das relações e da vida, que não são mensuráveis, contrariando a lógica técnica; (vi) Descentralização – Fomentar comunidades autônomas e locais que se libertem da padronização imposta pelo sistema técnico global. 3. Resgatar a Reciprocidade Genuína significa (vii) Recuperar o tempo humano – A técnica impõe um ritmo frenético. A reciprocidade genuína requer tempo para a convivência, a conversa e a presença, sem a mediação de ferramentas de eficiência; (viii) Vínculos de proximidade – Fortalecer relações pessoais diretas, em detrimento de interações mediadas por propaganda, marketing ou plataformas digitais que manipulam e instrumentalizam o humano; (ix) O “Pequeno Grupo” como Resistência – Ellul via nos pequenos grupos a possibilidade de viver a liberdade (reciprocidade) fora da massa padronizada pelo sistema técnico. 4. A Revolução do Indivíduo (Mudança Sociológica) se faz pelo (a) (x) Testemunho do contrário – Para Ellul, a ação mais revolucionária é viver testemunhando a verdade de que a técnica não é o senhor do mundo, vivendo uma vida não condicionada pela busca de eficácia; (xi) Consciência crítica – Desenvolver a capacidade de ver por meio da propaganda e da ideologia tecnicista para agir de forma livre. Por fim, para Ellul, refazer o mundo envolve uma “desobediência” ao sistema técnico, colocando o ser humano e suas relações qualitativas acima da racionalidade técnica, visando a liberdade em vez da mera produção.
A integração entre o pensamento de Jacques Ellul e o Reciprocidalismo oferece uma crítica contundente à forma como a “técnica” desumanizou o Semiárido. Ellul nos ensina que o desenvolvimento convencional falhou porque se tornou um sistema autônomo voltado para a máxima eficiência (lucro no Mercado ou controle no Estado), sacrificando a liberdade e a reciprocidade. No Reciprocidalismo, os Núcleos de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido (NIT) funcionam exatamente como os “Pequenos Grupos de Resistência” de Ellul: espaços onde a técnica é devolvida ao seu lugar de serva do humano, e não de senhora da vida.

1.0. A Técnica de Convivência contra o Sistema Técnico – Ellul define a “técnica” como a busca cega pela eficiência. No Semiárido, isso se manifestou em grandes obras de engenharia que muitas vezes ignoram o saber local e criam dependência.

3.1. Desfetichizar a Técnica – O Reciprocidalismo não rejeita a tecnologia, mas a “desfetichiza”. A cisterna de placas ou o manejo da umbu-cajazeira não são ferramentas de “máximo rendimento” para o Mercado, mas Tecnologias de Convivência. Elas são qualitativas. O objetivo não é o lucro frenético, mas a estabilidade da vida. Ao focar no “fazer com o vizinho”, o NIT retira a técnica do isolamento racional e a devolve ao fluxo da conversa e da presença humana.

2.0. O Núcleo como “Pequeno Grupo” de Resistência – Jacques Ellul via na massa padronizada a morte da liberdade. O Estado trata o sertanejo como massa manobrável (assistencialismo) e o Mercado o trata como consumidor padronizado.

2.1. Descentralização e Autonomia – O NIT é a materialização da resistência elluliana. Ele é o pequeno grupo que se liberta da padronização global. Como mediador de conflitos, o Núcleo protege o indivíduo da eficiência desumana do Mercado (que exige produção em massa) e da burocracia técnica do Estado (que exige formulários e submissão). No Núcleo, a regra é o vínculo de proximidade, o reconhecimento mútuo que a técnica não consegue mensurar.

3.0. Recuperar o tempo humano por meio da Irradiação – Ellul afirma que a técnica impõe um ritmo frenético que destrói a reciprocidade. A reciprocidade genuína exige tempo.

3.1. O Ritmo da Irradiação – A irradiação de tecnologias no Reciprocidalismo respeita o Tempo Humano. Não é um “treinamento rápido” de RH ou uma “entrega de metas” governamental. É um processo de aprendizado mútuo que exige presença. Ao ensinar o vizinho, o agricultor “testemunha o contrário” (como queria Ellul): ele prova que o tempo gasto no cuidado com o outro é mais valioso que o tempo gasto na busca solitária pela eficácia produtiva. O progresso é desbloqueado não pela velocidade da máquina, mas pela profundidade do laço social.

4.0. A Revolução do indivíduo e a consciência crítica – Superar o subdesenvolvimento das terras secas, sob a ótica de Ellul e o Reciprocidalismo, exige uma desobediência ao “determinismo técnico”.

4.1. Testemunho da verdade – Quando um agricultor se recusa a ser apenas um “beneficiário” do Estado e decide se tornar um irradiador, ele realiza uma revolução sociológica. Ele está dizendo que a técnica não é o senhor do seu mundo. O NIT é o espaço onde se desenvolve a consciência crítica para ver por meio da propaganda do desenvolvimento. O sertanejo descobre que a sua liberdade não está no consumo de produtos industriais, mas na sua soberania técnica e na sua capacidade de dar e receber e testar as tecnologias, para adequá-las às suas necessidades.

SÍNTESE: A LIBERDADE ACIMA DA PRODUÇÃO – A reflexão integrativa entre Ellul e o Reciprocidalismo estabelece novos parâmetros para o Semiárido: (i) O Humano é o Fim, a Técnica é o Meio – A superação do subdesenvolvimento não é medida pelo aumento do PIB, mas pela restauração da capacidade de convivência qualitativa; (ii) A Resistência é local – A autonomia dos núcleos é a única defesa contra a “gaiola de ferro” da racionalidade técnica que vem de fora; (iii) A Reciprocidade é a nova revolução – Contra a instrumentalização do humano pelo marketing ou pela política, o Reciprocidalismo coloca o Dom* como a força que organiza a sociedade.

Jacques Ellul nos alertou que o sistema técnico nos tornaria escravos da eficácia; o Reciprocidalismo nos mostra que a Reciprocidade Genuína é a chave da nossa desobediência. No Sertão de Ellul, o progresso não é ter a máquina mais rápida, mas ter a mão mais estendida. O Núcleo de Reciprocidade é o lugar onde a técnica se ajoelha diante da vida