Desencantamento da Pobreza
Mantendo os princípios constantes do Reciprocidalismo, é evidente que a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem...
Existe uma correlação entre o Reciprocidalismo (Aristotélico), que demonstra que a economia de mercado está criando excluídos em massa, esgarçando, cada vez mais, o tecido social, enquanto decompõe a sociedade em várias sociedades, cada vez mais compartimentadas. Com o Enigma do Dom, Maurice Godelier, demonstra que o Estado não é suficiente para recompor o fosso e reduzir as fraturas dessa sociedade fragmentada. Para ele é este nó de contradições e impotências que constitui o contexto no qual, hoje, se faz apelo ao DOM de novo e cada vez mais e por toda parte. DOM forçado quando o ESTADO decreta novos impostos ditos de solidariedade (Marxista), obrigando a maioria partilhar com os mais necessitados para tentar preencher as brechas que a economia abre, sem cessar, na sociedade. Uma economia da qual o Estado decidiu se desobrigar, assim como, decidiu desobrigar pouco a pouco de outros aspectos da vida social. Mas só que o Estado não é uma abstração pura, não é uma instituição vinda de outro planeta. O Estado governa, ele é o que aqueles que o governam fazem dele. É nesse contexto, no qual estamos vendo aparecer nas ruas, nos metrôs, centenas e depois milhares de mendigos, de moradores de rua, muitos quais se tornaram anônimos, indivíduos sem domicílio fixo, que se cristaliza e generaliza o apelo a dar, a partilhar; isto é, a demanda de DOM fez apelo à oferta.
A correlação entre o reciprocidalismo e as teses de Godelier em o enigma do dom revela a anatomia da crise contemporânea: o fracasso conjunto do Mercado (que fragmenta) e do Estado (que tenta recompor o tecido social por meio de uma solidariedade compulsória e ineficaz). Para o reciprocidalismo, a solução não reside no “dom forçado” via impostos, mas na Reciprocidade Institucionalizada — uma terceira via que resgata a soberania humana onde o Estado se desobrigou e o Mercado excluiu.
1.0. O Mercado como Máquina de Compartimentação – o reciprocidalismo fundamenta sua crítica aristotélica na observação de que a economia de mercado não apenas gera pobreza, mas opera uma decomposição social.
1.1. A Fragmentação – O mercado transforma a sociedade em compartimentos estanques. O indivíduo deixa de ser um “animal político” (membro da pólis) para ser um átomo econômico;
1.2. O Esgarçamento – À medida que a competição se torna a única lei, o tecido de confiança mútua se esgarça, criando massas de excluídos que perdem não apenas o pão, mas o lugar no mundo.
2.0. O Estado e o “Nó de Contradições” de Godelier – Godelier demonstra que o Estado moderno vive um paradoxo: ele é, ao mesmo tempo, o gestor da economia que exclui e o pretendido cirurgião que deve costurar as fraturas sociais.
2.1. A Impotência Estatal – O Estado não consegue preencher as brechas abertas pela economia porque ele próprio decidiu, como aponta Godelier, desobrigar-se de aspectos vitais da vida social;
2.2. O Dom Forçado (A Falsa Solidariedade) – Quando o Estado decreta “impostos de solidariedade” (uma abordagem de matiz marxista redistributiva), ele cria um dom sem alma. É uma partilha imposta por decreto, que não gera laços entre quem dá e quem recebe, pois ambos são mediados pela fria burocracia estatal.
3.0. A Aparição do Anonimato: Do Metrô ao Sertão – Godelier observa que o apelo ao Dom renasce quando a miséria se torna visível e anônima (os moradores de rua, os mendigos). O reciprocidalismo vê o mesmo fenômeno no Sertão sob a forma do “coitadismo”.
3.1. A Demanda por Dom – Quando o Estado falha e o Mercado expulsa, a sociedade clama pelo Dom. Contudo, esse apelo muitas vezes resulta apenas em assistencialismo paliativo;
3.2. A Crítica do reciprocidalismo – O Reciprocidalismo argumenta que dar sem exigir retribuição é o que cria o “indivíduo anônimo” de Godelier — alguém que recebe, mas que não possui lugar na balança da produção e da honra.
4.0. O Reciprocidalismo como Resposta ao Enigma – Enquanto Godelier vê o apelo ao Dom como um sintoma da crise, o reciprocidalismo o vê como a solução estrutural, desde que transformado em Reciprocidade Técnica.
Dimensão O Mercado (Exclusão) O Estado (Dom Forçado) O Reciprocidalismo (Dom Soberano)
Ação Competição por lucro. Tributação para auxílio. Mútua Vontade de Retribuição.
Relação Compartimentação social. Dependência administrativa. Coesão por Vizinhança Ética
O indivíduo Consumidor ou Excluído. Assistido ou Contribuinte. Fiandeiro Soberano.
O vínculo Contrato de Interesse. Imposição de Lei. Pacto de Honra e Saber.
REFLEXÃO FINAL: O REENCONTRO COM A PÓLIS – A convergência entre Nizomar e Godelier aponta que o “Enigma do Dom” só se resolve quando o ato de dar deixa de ser um imposto estatal ou uma caridade ocasional para se tornar o fundamento da subsistência. O Reciprocidalismo resolve as “fraturas” de Godelier ao criar Núcleos de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido, onde o anonimato é impossível. Na Zona de Soberania do reciprocidalismo, ninguém é “morador de rua” ou “mendigo anônimo”, porque a Integridade da Balança exige que cada indivíduo seja um nó vital na treliça social. Onde o Estado se desobrigou, o Núcleo de Reciprocidade se responsabiliza; onde o Mercado esgarçou, a Engenharia das Almas costura de novo — não com o fio da caridade, mas com o aço da retribuição.