NIT como Espaço Autodeterminadas

reciprocidalismoAdmin
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O Reciprocidalismoo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Desfazer o desenvolvimento para refazer o mundo na perspectiva de André Gorz não significa um retorno nostálgico ao passado pré-industrial, mas sim uma revolução ecossocialista e cultural. O objetivo é libertar o ser humano da racionalidade econômica capitalista, que subsumiu o “mundo vivido” (a vida cotidiana, as relações, a natureza) à lógica da produção de mercadorias. Para Gorz, resgatar a reciprocidade genuína implica separar a vida humana da necessidade de trabalho assalariado/heterodeterminado e construir autonomia por meio do “tempo liberado”. Os pilares dessa transformação segundo o pensamento gorziano: 1. Abolição do trabalho (ou sua redução drástica) – Gorz argumenta que a automação avançada tornou o trabalho assalariado (a “heterodeterminação”) desnecessário em tempo integral. Isso permite (i) redução do tempo de trabalho – Produzir mais com menos trabalho humano, liberando tempo para atividades autodeterminadas e autônomas, (ii) Renda de cidadania/renda básica – Desvincular o direito à existência e o acesso aos meios de vida do emprego assalariado. A renda deve ser garantida independentemente do trabalho realizado e (iii) Recusa da sociedade de trabalho – Superar a ideia de que o trabalho é o núcleo da identidade humana; 2. Reformas não-reformistas – Gorz propôs que os movimentos sociais não busquem apenas melhorias paliativas, mas medidas que enfraqueçam o poder do capital e ampliem a autonomia mediante o (iv) contra o proletariado tradicional – luta não é apenas para “tomar os meios de produção”, mas para mudar o que é produzido e como, tal como luta por jornadas de trabalho extremamente reduzidas, descentralização produtiva e controle comunitário sobre recursos; 3. Ecologia política (nossa ecologia) – Gorz distingue “nossa ecologia” da “ecologia deles” (capitalista), por meio do (v) Desdesenvolvimento – Recusar o crescimento econômico infinito. A “boa vida” não está ligada ao consumo de privilégios ou mercadorias, mas à construção de um “comum” e dos (vi) limites à racionalidade econômica – A produção deve servir às necessidades básicas e sustentáveis, não à acumulação de capital; 4. Resgate da reciprocidade genuína (mundo vivido) – A reciprocidade genuína ocorre fora do mercado, na esfera da autonomia, onde as relações não são utilitaristas. Por conta da (vii) esfera da autonomia – Fomentar atividades que os indivíduos realizam por si mesmos (ou em cooperação voluntária), como cultivar, consertar, criar, educar, fora da lógica de valor e dinheiro e do (viii) comunitarismo – Valorizar trocas locais, economia solidária genuína (não mercantil) e o “faça você mesmo” (do-it-yourself), visando uma “cultura do comum. Por fim, para refazer o mundo, Gorz sugere: (ix) Reduzir o tempo de trabalho assalariado (a esfera da necessidade), (x) Ampliar o tempo livre e a autonomia (a esfera da liberdade), (xi) Estabelecer uma renda universal (direito à existência) e (xii) Trocar o consumo materializante pela troca social e ecológica (reciprocidade).
A integração entre a ecologia política de André Gorz e o Reciprocidalismo oferece uma estratégia de libertação para o semiárido que vai além da sobrevivência: trata-se da transição da esfera da necessidade (a luta contra a seca) para a esfera da liberdade (a convivência soberana). Para Gorz, o subdesenvolvimento é a captura do tempo e da vida pela racionalidade econômica; para o Reciprocidalismo, os Núcleos de Reciprocidade (NIT) são as ferramentas de “desenvolvimento” (ou des-desenvolvimento gorziano) que permitem ao sertanejo romper com a heterodeterminação do Estado e do Mercado.

1.0. O NIT como Espaço de Atividades Autodeterminadas – Gorz defendia a redução do trabalho assalariado para liberar o “tempo de vida”. No Semiárido, o tempo do sertanejo é frequentemente escravizado pela burocracia do assistencialismo (filas, cadastros) ou pela exploração do mercado (trabalho pesado por baixa remuneração).

1.1. A Escapada da Heterodeterminação – O Núcleo de Reciprocidade funciona como a esfera da autonomia de Gorz. Ao dominar tecnologias como o manejo da Umbu-cajazeira, o reúso hídrico etc., o agricultor produz para si e para a comunidade fora da lógica do lucro. O NIT converte o “trabalho de sobrevivência” em atividade autônoma. O tempo gasto no núcleo não é tempo de exploração, mas tempo de criação e cooperação voluntária, onde a reciprocidade genuína resgata o “mundo vivido” que o capital tentou mercantilizar.

2.0. Reformas Não-Reformistas no Sertão – Gorz propunha medidas que enfraquecessem o poder do capital. O Reciprocidalismo aplica isso ao recusar o “progresso paliativo” oferecido pelo Estado (como o carro-pipa eterno).

2.1. Mediação do conflito – O NIT é uma “reforma não-reformista” porque não quer apenas “melhorar a seca”, mas mudar quem controla os meios de vida. Ele atua como mediador ao retirar o poder das elites: se a comunidade tem autonomia técnica e hídrica, o Estado perde o poder de barganha política e o Mercado perde o poder de ditar preços de subsistência. A irradiação tecnológica é a “descentralização produtiva” que Gorz tanto pregava.

3.0. “Nossa Ecologia” vs. O Crescimento Infinito – Gorz distinguia a ecologia libertária da ecologia capitalista. O subdesenvolvimento das terras secas foi bloqueado por uma visão que buscava transformar o sertão em um polo de agronegócio exaustivo.

3.1. Des-desenvolvimento e boa vida – O Reciprocidalismo abraça a “boa vida” gorziana — que não depende do consumo de mercadorias, mas do acesso ao Bem Comum. O NIT estabelece limites à racionalidade econômica: produz-se o suficiente para a vida digna e a sustentabilidade do bioma Caatinga. A tecnologia de convivência é a ferramenta da Ecologia Política, garantindo que a natureza não seja vista como recurso, mas como parte do “mundo vivido” a ser preservado para o tempo liberado.

4.0. Renda de Cidadania e a Riqueza do Dom – Para Gorz, a renda deve ser desvinculada do emprego. No Reciprocidalismo, a riqueza social gerada pela reciprocidade funciona como uma “renda de cidadania em espécie”.

4.1. Soberania do direito à existência – O NIT garante o acesso aos meios de vida (água, sementes, conhecimento) independentemente da inserção do indivíduo no mercado formal. A reciprocidade genuína — o ato de dar, receber e retribuir — cria uma rede de proteção social que substitui a alienação do consumo material pela troca social e ecológica. Superar o subdesenvolvimento é, portanto, expandir a esfera da liberdade onde o sertanejo pode, finalmente, “ser” em vez de apenas “ter” ou “servir”.

SÍNTESE: A REVOLUÇÃO DO TEMO LIBERADO NO SERTÃO – A integração entre André Gorz e o Reciprocidalismo estabelece que: (i) O Progresso é autonomia – O sucesso de um território não se mede pelo PIB local, mas pela quantidade de tempo que as famílias têm para suas atividades autodeterminadas no NIT; (ii) O NIT é o contra poder – Ele protege o sertanejo da “sociedade do trabalho” alienante, oferecendo uma alternativa de vida baseada na cooperação voluntária e no “faça você mesmo” técnico; (iii) Reciprocidade é libertação – A superação da anomia social ocorre quando o mercado deixa de ser o mediador das relações humanas e o Dom passa a ser o núcleo da identidade comunitária.

André Gorz nos ensinou que a liberdade começa onde a necessidade termina; Nizomar Falcão nos mostra que, no Semiárido, o Núcleo de Reciprocidade é a ponte para essa liberdade. No Sertão de Gorz, a Umbu-cajazeira é plantado no tempo liberado, e cada gota de água reutilizada é um passo a menos na direção do patrão e um passo a mais na direção do Comum.