O Reciprocidalismo funciona como um sistema de estruturas cognitivas motivadoras. Quando a comunidade entende que sua sobrevivência depende do hábito da mútua, ela cria um universo de fins já realizados: (i) A segurança não vem da polícia, mas da vizinhança; (ii) O crédito não vem do banco, mas do Banco de Sementes ou de Forragem etc.; (iii) A proteção não vem do imposto, mas do cuidado com o meio ambiente.
Esse “universo de fins realizados” é o que garante que, mesmo diante das mudanças climáticas, a dignidade humana permaneça inabalável, sustentada pelo hábito ancestral de ser, para o outro, um porto seguro.
Ciência da Existência
Existe uma distinção fundamental que eleva o Reciprocidalismo, como concebemos, ao patamar de uma filosofia da realização humana, quando comparado com a solidariedade. Enquanto o caritativo solidário (de matriz marxista) muitas vezes se perde na luta de classes ou na assistência que mantém o status quo da carência, o Reciprocidalismo é “Realismo Aristotélico” puro: ele não quer apenas “sentir” pelo outro, ele quer que o outro seja e floresça por meio da transformação da matéria. Ao aplicar o hilemorfismo (doutrina que explica que todo ser físico é um composto inseparável de matéria – hylé-, o princípio indeterminado e potencial e, forma – morphé -, o princípio que determina e atualiza a matéria, definindo sua essência e o que ela é, sendo a forma o que torna a coisa inteligível e está imanente nela) e a teoria das causas (existência e mudança de tudo no mundo por meio de quatro aspectos essenciais: a causa material (do que é feito), a causa formal (sua forma ou essência), a causa eficiente (quem ou o que o fez) e a causa final (o propósito ou finalidade); o Reciprocidalismo deixa de ser um conceito e passa a ser uma ciência da existência.
- O Reciprocidalismo ajustado às quatro causas de Aristóteles – Para transformar a pobreza, proponho que olhemos para a comunidade e para a terra mediante estes quatro enfoques.
1.1. Causa Material (O quê?) – É o solo de aluvião, a semente crioula, o esterco para o Bokashi e o próprio suor do agricultor. É a base física sem a qual não há mudança;
1.2. Causa Formal (Como?) – É o desenho da barragem subterrânea, a rima do Cordel, o Protocolo de Reciprocidade. É a estrutura que organiza a matéria bruta em algo útil;
1.3. Causa Eficiente (Quem?) – É o mutirão, o “fio de ouro”, a mútua vontade. É a energia humana que coloca a matéria em movimento;
1.4. Causa Final (Para quê?) – É a Eudaimonia (Felicidade). Não é o lucro financeiro frio, mas o florescimento do ser humano em sua plenitude e dignidade.
2.0. De Potência a Ato: A Mudança das Condições Materiais – No realismo aristotélico, a semente é o Umbu em potência. No Semiárido: (i) O agricultor pobre é uma potência de prosperidade; (ii) O solo seco é uma potência de fartura; (iii) O Reciprocidalismo é o mecanismo que transforma essa potência em ato. A solidariedade “piedosa” apenas dá o peixe (consola a potência), enquanto o Reciprocidalismo constrói a barragem (realiza o ato).
3.0. Ética das Virtudes e o Justo Meio – A reciprocidade genuína é o justo meio entre dois vícios: (iv) A Deficiência (Individualismo) – O vício do isolamento e do egoísmo e O Excesso (Coletivismo Escravizante) – O vício da perda da identidade e da dependência estatal; (v) A Virtude (Reciprocidalismo) – O equilíbrio onde o indivíduo floresce porque está em relação de mútua com o outro e com a natureza.
4.0. O Empirismo do Profeta da Chuva – O conhecimento no Reciprocidalismo começa na sensação (o cheiro da terra, o vento, a chuva, a cor da formiga, o ninho do pássaro, o seu canto etc.). Como Aristóteles, entendo que não há nada no intelecto que não tenha passado pelos sentidos.
Para mim (vi) a observação ativa e passiva da Caatinga gera a experiência; (vii) A experiência gera a ciência (o saber técnico da convivência com o semiárido) e (vii) a ciência gera a liberdade, autonomia, emancipação.
Por fim, pode-se concluir: O Telos do Reciprocidalismo – O objetivo final (Telos) é o bem comum. O Reciprocidalismo é, portanto, uma tecnologia de felicidade. Ele utiliza o mundo material para libertar a alma humana das amarras da necessidade, permitindo que cada sertanejo seja o filósofo de sua realidade.