Além dos Bens Materiais: O Direito ao Pertencimento
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
Uma correlação entre o Reciprocidalismo e o Espírito da Dádiva de Jacques T. Godbout é importante, na medida em que, a dádiva de um serviço atrai outra. É preciso compreender a lei das gravidades das trocas de outra forma que não pela lei do equilíbrio geral mercantil. É a intenção que conta. Na dádiva, tudo está na maneira e no gesto. No mercado, ao contrário, é o resultado que conta. É por isso que a dádiva não tem preço. O preço implica a procura da equivalência mercantil, unívoca, com outro objeto do mesmo preço, enquanto a dádiva pede uma contradádiva cujo valor depende da relação entre as duas pessoas, da sequência de a relação em que a dádiva se situa. A gratuidade contribui para denominar essa diferença fundamental: a dádiva não procura a igualdade ou equivalência.
A correlação entre o Reciprocidalismo e o pensamento de Jacques T. Godbout em O Espírito da Dádiva é o que confere a “alma” técnica ao projeto do Reciprocidalismo. Enquanto o mercado é a ditadura do resultado e da equivalência matemática, o Reciprocidalismo é a estratégia do gesto e da continuidade da relação. Nesta integração, compreendemos que o Núcleo de Reciprocidade não busca “quitar dívidas”, mas sim alimentar vínculos por meio de uma gravidade social própria.
1.0. A Lei da Gravidade das Trocas: Além do Equilíbrio Mercantil – Godbout afirma que a dádiva possui uma “lei da gravidade” que não se explica pelo equilíbrio geral mercantil.
1.1. No Reciprocidalismo – No mercado, se eu recebo 10 horas de trabalho, devo pagar o valor exato dessas 10 horas para “zerar” a conta. No Núcleo de Reciprocidade do reciprocidalismo, a troca não visa o “zero”. O Fiandeiro retribui o trabalho não para se livrar de uma dívida, mas para manter a gravidade que o mantém unido ao grupo. A retribuição é o motor que gera o movimento, não o freio que encerra a transação.
2.0. A Intenção e o Gesto vs. O Resultado – Para Godbout, na dádiva “tudo está na maneira e no gesto”. No mercado, o resultado é soberano.
2.1. A Engenharia das Almas – O Reciprocidalismo ensina que a construção de uma barragem não é apenas um resultado de engenharia. A “maneira” como o grupo se reúne, a ética do mutirão e a intenção de fortalecer a soberania coletiva valem mais do que o volume de água represada. Se a barragem for feita sem o “gesto” da reciprocidade, ela é apenas concreto; com o gesto, ela é libertação.
3.0. A Recusa do Preço e a Busca pela Relação – Godbout explica que o preço busca a equivalência unívoca (Objeto A = Valor X), enquanto a dádiva pede uma contradádiva que depende da relação.
3.1. O Valor da Relação – No Reciprocidalismo, as trocas não têm preço, têm Valor de Soberania. A retribuição de um Fiandeiro não precisa ser uma cópia exata do que recebeu. Se ele recebeu sementes e retribui com o ensino da técnica de manejo a um jovem, não há equivalência mercantil, mas há uma sequência de relação. O valor está no fato de que a corrente não parou.
4.0. A Gratuidade e a Não-Equivalência – A diferença fundamental apontada por Godbout é que a dádiva não procura a igualdade.
4.1. A Balança do Reciprocidalismo – Embora o reciprocidalismo fale em “Balança Íntegra”, esta não é uma balança de farmácia, mas uma balança ética. A integridade não vem de dar “o mesmo peso em quilos”, mas de dar “o mesmo peso em compromisso”. A gratuidade do Reciprocidalismo reside no fato de que o excedente produzido não é lucrado, é irradiado. A “não-equivalência” permite que o sistema cresça: eu recebo um, mas minha gratidão e meu compromisso me levam a retribuir dois, expandindo o Núcleo de Reciprocidade.
SÍNTESE: O ESPÍRITO DO FIANDEIRO
Elemento O Mercado (Lógica do Preço) O Reciprocidalismo (Espírito da Dádiva)
Foco O Resultado Final (Produto). O Gesto e a Intenção (Relação).
Objetivo Encerrar a troca (Quitar). Continuar a troca (Vincular).
Métrica Equivalência Monetária. Justiça Proporcional e Afetiva.
Natureza Transação Única. Sequência de Vida e Soberania.
CONCLUSÃO: A DÁDIVA COMO TECNOLOGIA AGROPECUÀRIA – O Reciprocidalismo utiliza o “Espírito da Dádiva” de Godbout como uma tecnologia de coesão. Ao retirar o “preço” das relações internas do Núcleo de Reciprocidade, o reciprocidalismo protege o Fiandeiro da frieza do mercado. O que mantém o Núcleo unido não é um contrato de dívida, mas a beleza do gesto retribuído, que torna cada membro indispensável para a sequência da vida do outro.