Descolonização da Mente: o “I Am a Sertanejo” (Eu sou um Sertanejo)
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
De acordo com as premissas do Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Gérald Berthoud, esse movimento global de mercado também invadiu os países o sul. A maioria desses países sequer têm escolha; de um modo ou de outro são forçados a integrar-se profundamente na economia de mercado internacional e a dela dependerem cada vez mais. Em um grande número de casos, o impacto do mercado na totalidade da vida social desses países tem consequências dramáticas, como ilustram claramente as políticas de ajuste estrutural. Para que as sociedades tradicionais, em cujo meio o princípio supostamente básico de uma expansão sem limites nas áreas da economia e da tecnologia é normalmente um elemento estranho, aceitem essas noções, será necessário primeiramente superar uma série de obstáculos simbólicos e morais, ou seja, livrá-las de noções e práticas inibidoras tais como mitos, cerimônias, rituais, ajuda mútuas, redes de solidariedade e outras coisas semelhantes. Consideradas necessárias para o desenvolvimento, essas condições drásticas foram promulgadas, de forma explícita e brutal há muitas décadas.
Esta reflexão nos coloca diante do que Gérald Berthoud identifica como o “desmantelamento deliberado” das estruturas sociais para dar lugar à engrenagem do mercado. Ao conectar essa visão com o Reciprocidalismo, percebe-se que o subdesenvolvimento do Semiárido não é um acidente geográfico, mas o resultado de uma cirurgia social traumática. Para que o mercado internacional operasse, foi preciso extirpar o “obstáculo” da solidariedade. O que chamaram de “práticas inibidoras” — a ajuda mútua, o mutirão e o estoque comunitário — eram, na verdade, as tecnologias de sobrevivência que garantiam que o progresso não fosse um privilégio de poucos, mas um patrimônio de todos.
1.0. A Invasão do Mercado e a Engenharia da Anomia – Berthoud descreve como os países do Sul foram forçados a uma “ajuste estrutural” que exigia o abandono de rituais e redes de solidariedade. No Semiárido, isso se traduziu na troca da Reciprocidade Genuína (o Dom) pela Dependência Assistencialista* e pelo Individualismo Mercantil.
1.1. O Obstáculo Simbólico – Para o mercado, uma comunidade que se ajuda é “ineficiente” porque não consome serviços externos.
1.2. A Consequência do Reciprocidalismo – Ao “livrar” o sertanejo de suas redes de solidariedade, o sistema criou a Anomia. Sem o Dom e sem capital para o Mercado, o povo foi lançado no vácuo social, onde o progresso está permanentemente bloqueado por falta de lastro humano.
2.0. A Recriação: O Caminho da “Re-Sacralização” da Ajuda Mútua – Recriar a sociedade semiárida sob a ótica do Reciprocidalismo exige o caminho inverso ao descrito por Berthoud. Não se trata de “modernizar” o sertanejo, mas de re-legitimar o que foi brutalmente descartado como atraso.
2.a. O Retorno dos “Mitos e Rituais” de Cooperação – Onde a economia de mercado vê “práticas inibidoras”, o Reciprocidalismo vê Segurança Social. A recriação exige que o mutirão volte a ser celebrado não como folclore, mas como Engenharia das Almas. O ritual de retribuição é o que dá sentido ético à tecnologia.
2.b. O Dom como Resistência ao Ajuste Estrutural – Enquanto as políticas de ajuste estrutural impõem a escassez de serviços públicos, o Núcleo de Reciprocidade impõe a abundância do vínculo. Se o mercado exclui quem não tem dinheiro, o Dom inclui quem tem honra.
A “expansão sem limites” mencionada por Berthoud é substituída pela Soberania dos Limites: o entendimento de que o progresso real é aquele que respeita o equilíbrio do ecossistema e a dignidade do vizinho.
3.0. A Síntese: O Semiárido como Território de Soberania – A reflexão de Berthoud nos mostra que fomos despojados de nossa cultura para sermos integrados como “dependentes” no mercado global. O Reciprocidalismo propõe que o Semiárido seja um Território de Exceção à Lógica Mercantil. Para recriar essa sociedade, o técnico, o político e o sertanejo devem entender que: (i) A Ajuda Mútua é a Ciência de Ponta – Não há tecnologia mais avançada para conviver com a seca do que uma rede de pessoas que confiam umas nas outras; (ii) A Tecnologia deve ser Irradiada, não Vendida – Para quebrar a dependência do mercado internacional, o conhecimento deve circular livremente (como o presente de peixe por mandioca) através dos Núcleos; (iii) A Identidade de Fiandeiro é o Antídoto – Contra a “política drástica” de desmonte social, afirmamos a política da Reciprocidade.
CONCLUSÃO: A HONRA CONTRA O MERCADO – O que Berthoud descreve como “condições drásticas promulgadas há décadas” foi a tentativa de matar a alma do povo para alimentar a máquina da economia. O Reciprocidalismo é o renascimento dessa alma. Recriar o Semiárido é admitir que o nosso “ajuste estrutural” não será feito por bancos internacionais, mas pelo Pacto de Honra assinado na poeira do chão da roça. O progresso será desbloqueado no momento em que a ajuda mútua deixar de ser vista como “obstáculo” e passar a ser vista como a nossa Única Rota de Fuga para a Liberdade.
Eles tentaram nos livrar de nossos mitos para nos tornar escravos da economia. Nós resgatamos nossos vínculos para nos tornar donos de nosso destino.