Inversão do Custo e a Morte da Fonte
Em conformidade com os ditames do Reciprocidalismo, a fratura da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das...
De acordo com os postulados do Reciprocidalismo a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu José Bové, o que constitui a base do atual movimento planetário da globalização e da vontade de dizer que é preciso desfazer o desenvolvimento para refazer o mundo é a necessidade de acabar com a ideologia do desenvolvimento. Esse grande mito do século XIX foi a ideologia dominante no século XX, construída, ao mesmo tempo, pelos liberais e pelos marxistas, constituindo verso e reverso da mesma moeda. Não podemos mais aceitar essa lógica das vanguardas e essa lógica cientificista aplicada na economia política. É isso que temos de rediscutir. Ela tem como ponto de partida a agricultura. E não é por acaso, porque foi nesse setor que se estabeleceu o questionamento do dogma do produtivismo. Desse ponto de vista, qual é a esperança? Pois bem, as esperanças são homens e as mulheres que hoje se mobilizam por toda parte para denunciar essa situação, mas também para construir alternativas ao dia-a-dia, e não esperar o amanhã para começarem essa construção. Isso é novo, hoje: ao fato de homens e mulheres lutarem para construírem alternativas sem esperar que as instituições políticas provenientes do colonialismo resolvam todos os problemas. São os movimentos sociais, os agricultores que se dão as mãos e a união dos diversos movimentos representa uma verdadeira esperança.
A reflexão de José Bové ecoa com precisão a engenharia social proposta pelo Reciprocidalismo. Ambos identificam que o “desenvolvimento” não foi uma solução, mas uma ideologia paralisante que converteu o cidadão soberano em um dependente das vanguardas políticas (sejam liberais ou marxistas). No Reciprocidalismo, o resgate do progresso usurpado não passa por esperar a “reforma das instituições coloniais”, mas por refazer o mundo a partir do dia-a-dia da agricultura, restaurando o domínio sobre as forças produtivas e sociais que foram sequestradas pelo produtivismo.
O REFAZER DO MUNDO: A AGRICULTURA COMO CÉLULA DE RESISTÊNCIA
1.0. A Quebra do Dogma do Produtivismo – Bové afirma que a agricultura é o ponto de partida para questionar o produtivismo. No Semiárido, o produtivismo exigiu que o agricultor abandonasse a Reciprocidade Genuína (o mutirão, a semente crioula, o estoque comum) para se tornar um apêndice do mercado internacional.
1.1. A Resposta do Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo propõe que o progresso seja desbloqueado através da Soberania do Dom. O agricultor deixa de produzir apenas para o lucro abstrato e passa a produzir para fortalecer a rede de segurança do seu Núcleo de Reciprocidade. O “sucesso” não é medido pela tonelagem exportada, mas pela robustez do vínculo social e pela resiliência do território.
2.0. O Resgate das Forças Usurpadas: A Autonomia do “Hoje” – A esperança mencionada por Bové – homens e mulheres construindo alternativas sem esperar pelas instituições – é a base da Irradiação Tecnológica do Reciprocidalismo.
2.1. Contra a Lógica das Vanguardas – O Reciprocidalismo rejeita o mediador que se coloca como “salvador” ou “vanguarda cientificista”. O conhecimento técnico é apenas uma espoleta;
2.2. O Domínio das Forças – O domínio sobre o destino é retomado quando o agricultor percebe que a tecnologia de convivência (a cisterna, o barreiro, o manejo) pertence a ele e ao seu vizinho pelo Pacto de Honra, e não por uma concessão burocrática estatal.
3.0. A União dos Movimentos: O Núcleo como Farol – Bové fala sobre agricultores que “se dão as mãos”. No Reciprocidalismo, esse ato é formalizado no Núcleo de Reciprocidade.
3.1. A Cura da Anomia – A exclusão social é combatida ao reintegrar o indivíduo em uma microeconomia de troca de dons;
3.2. A Irradiação como Movimento Social – Quando um Núcleo funciona, ele se torna um Farol de Conhecimento. Ele não guarda a solução para si; ele a irradia para outros núcleos, criando uma rede horizontal que substitui a hierarquia colonial por uma Federação de Reciprocidades.
CONCLUSÃO: A ESPERANÇA É O “FIANDEIRO” EM AÇÃO – Para o Reciprocidalismo, resgatar o progresso usurpado significa admitir que o desenvolvimento foi um mito que nos roubou a capacidade de agir. A proposta do Reciprocidalismo é a materialização do que Bové clama: desfazer a ideologia do desenvolvimento para refazer o mundo por meio do gesto humano. No Semiárido, isso significa: (i) Parar de esperar o amanhã – A cisterna construída hoje pelo mutirão é mais potente que o plano decenal do governo; (ii) Retomar a Ciência – Usar a tecnologia não para se sujeitar ao mercado, mas para garantir a autonomia do Núcleo; (iii) Politizar o Cotidiano – Cada semente trocada e cada hora de trabalho retribuída é um ato político de descolonização.
O desenvolvimento foi a moeda que nos comprou a alma; a Reciprocidade é a aliança que nos devolve a terra. Não esperamos que o colonialismo se cure; nós curamos a nós mesmos ao darmos as mãos no chão do sertão.