Ilusão da Liberdade sem Dívida

reciprocidalismoAdmin
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Relacionando os pressupostos do Reciprocidalismo, de que a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado, é preciso refletir. Como escreveu Samuel Sajay, atualmente nos perguntamos se é possível desfazer o desenvolvimento e refazer o mundo, redescobrindo o senso de proporção, na medida em que um mundo feito não é natural, não é dado. A era do desenvolvimento representa, talvez, a primeira tentativa, deliberada, e prolongada de fazer o mundo todo. O desenvolvimento fabricado pelo homem (ou inatural) transforma os ritmos e os limites naturais em processos planejados. O desenvolvimento programado dos homens foi e ainda é, a essência dos programas de desenvolvimento. A humanização dos povos teve início com a era do iluminismo e foi confirmada pela história recente do desenvolvimento. Como o desenvolvimento universalizou o humano, talvez sejas pertinente recuperar sua história. Para ser livre, o homem não toma nada do que é dado: rejeita submeter-se às obrigações e aos deveres, rejeita as dádivas por medo de ter que dar alguma coisa em troca. O fato de escapar dos ritmos e dos ciclos naturais (fome, miséria, desespero) não basta para assegurar a liberdade do homem; ele deve romper também seus laços ancestrais. Se o que é dado implica submissão, o que é feito expressa a liberdade do homem, porque aquilo que é feito pelo homem é necessariamente límpido para ele. O homem moderno para fugir do ritmo ora generoso, ora cruel, da natureza, para aumentar os próprios bens e para garantir para si uma vida fácil, desnaturou o mundo mediante a ciência e a tecnologia. Para escapar das constrições tradicionais e das regras de costume habituais, o homem destrói o seu ambiente social mediante a ciência da sociedade. Substitui os laços tradicionais por laços sociais estruturados; substitui os deveres por direitos e as obrigações morais por um recibo.
A reflexão de Samuel Sajay expõe o “pecado original” da modernidade: a tentativa deliberada de fabricar o mundo em substituição ao mundo dado. Ao trocar a dádiva (que exige retribuição) pelo recibo (que encerra o vínculo), o homem moderno acreditou estar comprando sua liberdade, mas acabou por produzir a anomia e o subdesenvolvimento. O Reciprocidalismo propõe justamente o caminho de volta. Para “desfazer o desenvolvimento” e “refazer o mundo”, é necessário resgatar a coragem de ser devedor, substituindo a frieza do recibo pelo calor do Pacto de Honra.

DESFAZER O FABRICADO, REFAZER O VINCULADO

1.0. A Ilusão da Liberdade sem Dívida – Sajay argumenta que o homem moderno rejeita a dádiva por medo de ter que dar algo em troca, confundindo “ausência de obrigações” com liberdade. No Semiárido, isso se manifestou no assistencialismo: o Estado entrega o “benefício” e emite um “recibo” eleitoral ou burocrático, desobrigando o cidadão de olhar para o vizinho.

1.1. A Conexão com o Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo afirma que essa “liberdade” é a semente da exclusão. Quando o homem não deve nada a ninguém, ele também não pertence a ninguém. O progresso foi bloqueado porque o indivíduo, isolado em seus “direitos” abstratos, perdeu a rede de proteção real do Dom. Refazer o mundo exige aceitar novamente o “ritmo ora generoso, ora cruel” da natureza, mas enfrentando-o através da Aliança.

2.0. Do “Mundo Fabricado” à “Convivência com o Dado” – O desenvolvimento tentou “desnaturar” o mundo via tecnologia para garantir uma vida fácil, mas gerou um ambiente social destruído.

2.2. A Proposta dos Núcleos – Os Núcleos de Reciprocidade (NRI) não tentam “fabricar” um novo clima ou ignorar a seca (o inatural). Eles propõem a Convivência. A tecnologia de convivência (cisterna, barragem, manejo de forragens etc.) não é uma ferramenta para “fugir da natureza”, mas para harmonizar-se com seus ciclos. Ela não é imposta de cima (planejada), mas despertada como uma “espoleta” na consciência do Fiandeiro.

3.0. Substituir o Recibo pela Obrigação Moral – Sajay aponta que substituímos deveres por direitos e obrigações por recibos. Isso retirou o “sentido de proporção” das sociedades.

3.1. A Cura da Anomia – No Reciprocidalismo, a entrada em um Núcleo não gera um recibo, gera um Dever de Honra. Ao receber o conhecimento ou a infraestrutura hídrica, o sujeito assume o compromisso da Irradiação. Essa obrigação moral é o que “refaz o mundo”, pois religa os membros em uma rede de dependência mútua saudável. O subdesenvolvimento é vencido quando a segurança deixa de ser um “serviço contratado” e volta a ser um “vínculo vivido”.

4.0. Resgatando o Senso de Proporção: O Homem “Fiandeiro” – Refazer o mundo, na perspectiva do Reciprocidalismo, é devolver ao homem a sua escala humana. O desenvolvimento universalizou o “humano” como uma abstração; o Reciprocidalismo resgata o Sertanejo como uma realidade.

4.1. O progresso usurpado é retomado quando o domínio das forças (água, solo, semente) volta para o Face-a-Face. Desfazer o assistencialismo significa parar de tratar o homem como um “projeto a ser feito” por especialistas e passar a tratá-lo como um Dador potencial. A dignidade não vem do que o homem recebe do Estado, mas do que ele é capaz de retribuir ao seu Núcleo.

SÍNTESE FINAL: O REFAZER ANTROPOLÓGICO – Relacionar Sajay e o Reciprocidalismo é entender que o desenvolvimento foi uma tentativa de criar um mundo sem “custo social” (sem o peso da honra), o que resultou em um deserto de laços. Para refazer o mundo no Semiárido, os Núcleos de Reciprocidade propõem: (i) Apostar na Gratuidade Obrigatória – Receber a técnica como dádiva e entregá-la como dever; (ii) Sair do Planejamento Mecânico – Entrar na Irradiação Orgânica, onde o conhecimento flui pelo contágio do exemplo; (iii) Redescobrir o Sagrado no Vínculo – Entender que a maior tecnologia de sobrevivência não é o aço ou o concreto, mas a Reciprocidade Genuína.

O desenvolvimento nos deu o recibo da nossa solidão; o Reciprocidalismo nos devolve a dívida da nossa fraternidade. Refazer o mundo não é uma obra de engenharia, é um rito de devolução: devolver ao homem o seu lugar no ciclo da vida e ao vizinho o seu lugar no coração do outro.