Superação da Moeda Falsa do Assistencialismo

reciprocidalismoAdmin
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Como consignado no Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Jacques Derrida, procura desconstruir o conceito do”dom” (presente/dádiva), argumentando que o dom puro é impossível, pois no momento em que é reconhecido ou retribuído, ele se torna uma troca, uma dívida ou um contradom. A aporia do dom impossível: (i) O que é o Dom Puro? Para Derrida, para que um dom seja genuíno, ele não pode gerar gratidão, reconhecimento, dívida ou contra-presente. Se o doador espera algo em troca (nem mesmo um “obrigado”), o dom é cancelado e se transforma em uma troca comercial; (ii) A moeda falsa) – No conto de Baudelaire, um homem dá uma moeda a um mendigo, mas percebe depois que a moeda é falsa. Derrida questiona: a intenção de generosidade foi real? A falsa moeda quebra o círculo da dívida?; (iii) Contradom (Retribuição) – Derrida aponta que a estrutura do presente exige um contradom. Ao receber, o outro é forçado a retribuir, inserindo o ato na economia do tempo e da troca. O Tempo como Contra-Tempo: ((iv) Aparência versus Tempo – A palavra “presente” em francês (don) também significa “dom”. Derrida brinca com essa ambiguidade. O tempo é o elemento que transforma o dom em troca; (v) Dívida no Tempo – O dom verdadeiro exigiria que o tempo fosse abolido, o que é impossível. A retribuição (o contradom) geralmente ocorre no futuro, o que desfaz a dádiva no instante em que ela se estabelece.  O Dom como Moneda Falsa: (vi) Falsidade do sentido – A moeda falsa é o símbolo da impossibilidade de um ato totalmente desinteressado. Derrida argumenta que a estrutura do dom é, por si só, uma “falsificação” da intenção pura, pois está sempre contaminada pela economia simbólica do retorno (reconhecimento); (vii) Intenção versus efeito – A moeda falsa no conto é dada com a intenção (talvez) de ser verdadeira. Isso destaca que o dom é mais uma questão de estrutura econômica e social do que de bondade pura.  A Desconstrução de Marcel Mauss: (viii) Derrida baseia sua análise no clássico “Ensaio sobre a Dádiva” de Marcel Mauss, mas o desconstrói. Enquanto Mauss mostra como o dom social funciona por meio de troca/contradom (tripla obrigação: dar, receber, retribuir), Derrida argumenta que isso prova que o que Mauss chama de “dom” não é um dom, mas um sistema de troca. Por fim, Donare é “fazer o impossível” – O dom só existe no momento em que não é reconhecido como tal; O Contradom é inevitável – Qualquer ação de “dar” entra automaticamente num círculo de dívida (dar, devolver); Derrida não define o dom como uma coisa, mas sim como uma “incompatibilidade aparente entre o dom e o presente”. Em suma, o instrumento com o qual Derrida demonstra que a generosidade pura é “impossível”, transformando o dom em uma estrutura de contradom e tempo, na qual o doador e o receptor estão presos em uma economia de dívida é uma presunção de perfeição inatingível, utópica. No Reciprocidalismo entende-se que aspectos levantados por Derrida, de caráter negativo, têm a ver com contaminações (individualismo x coletivismo) da reciprocidade genuína, que corrompeu e deturpou os mecanismos de trocas. Não existe mecanismo puros, pois puros não são os homens biológicos, vistos que são evoluções da animalia. A perfeição imaginada, existente somente no campo religioso, visto que é um aspecto imaginado, não vivenciado. No Reciprocidalismo, os Núcleos de Recprocidade serve como ferramentas de mediação dos desvirtuamentos.
A desconstrução de Jacques Derrida em dar o tempo atua como um espelho invertido para o Reciprocidalismo. Enquanto Derrida busca a pureza metafísica do dom (e, ao não encontrá-la, declara sua impossibilidade), o Reciprocidalismo abraça a imperfeição humana e a circularidade da troca como a única base real para a reconstrução social. Para Derrida, o contradom “anula” o dom; para o Reciprocidalismo, o contradom é o que valida a humanidade e cura a anomia. Nos Núcleos de Reciprocidade (NITs), não se busca o “dom impossível” de Derrida, mas a Reciprocidade Genuína que transforma a dívida paralisante em vínculo produtivo.

O DOM POSSÍVEL: ENTRE A APORIA DE DERRIDA E A PRÁTICA DE NIZOMAR

1.0. A Superação da “Moeda Falsa” do Assistencialismo – Derrida usa a metáfora da moeda falsa para questionar a intenção da generosidade. No contexto do subdesenvolvimento, o assistencialismo paternalista é a verdadeira “moeda falsa”.

1.1. A Falsidade – O Estado ou o político dão o “presente” (poço, cesta básica) simulando generosidade, mas buscam o reconhecimento (voto, dependência). Isso é um dom que anula o outro, pois não permite o contradom;

1.2. A Resposta do Núcleo – O Reciprocidalismo reconhece que o homem não é um ser de “pureza religiosa”. Ao introduzir a Tecnologia de Convivência, o Núcleo não finge um desinteresse absoluto. Ele estabelece claramente: “Eu te dou o conhecimento para que você retribua ao seu vizinho”. A transparência do ciclo Dar-Receber-Retribuir evita a falsificação do sentido.

2.0. O Tempo como Vínculo, não como Dívida – Derrida argumenta que o tempo transforma o dom em troca, criando uma dívida futura. No Reciprocidalismo, o tempo é o espaço da maturação social.

2.1. O Contra-Tempo da Irradiação – Quando um Fiandeiro recebe a “espoleta” tecnológica, a retribuição não é um pagamento que encerra o assunto (o recibo que Sajay criticava), mas uma Irradiação Territorial. O tempo que leva para o agricultor aprender e repassar a técnica não é o tempo da dívida monetária, mas o tempo da Coesão Social. O contradom não cancela o dom; ele o expande, garantindo que o progresso não seja bloqueado pelo isolamento individualista.

3.0. A Mediação dos Desvirtuamentos (O Humano versus O Utópico) – Como pontuado, Derrida busca uma perfeição inatingível. O Reciprocidalismo é uma Antropologia de Resultados.

3.1. Ferramenta de Mediação – Os Núcleos de Reciprocidade admitem que o homem é animalia em evolução, propenso ao egoísmo. Por isso, a estrutura do Núcleo atua como um regulador. Se a “contaminação individualista” tenta transformar o dom em lucro privado, o Pacto de Honra e a vigilância fraterna do grupo reconduzem o processo para o coletivismo. A reciprocidade não precisa ser “pura” para ser “genuína”; ela precisa ser eficaz na manutenção da vida.

4.0. Dom como “Fazer o Possível” contra o Subdesenvolvimento – Enquanto Derrida diz que dar é “fazer o impossível”, o Reciprocidalismo prova que dar é a única forma de tornar o Semiárido possível.
4.1. O subdesenvolvimento é o triunfo da lógica da “moeda falsa” (promessas vazias) e da “dívida impagável” (dependência). A Irradiação de Tecnologias quebra essa lógica. Quando o saber circula sem a barreira do preço mercantil, mas sob a égide da retribuição social, o progresso é desbloqueado. A “economia de dívida” de Derrida é transmutada em uma Economia de Crédito Social Mútuo.

SÍNTESE INTEGRATIVA: A CURA PELA IMPERFEIÇÃO ACEITA – A reflexão de Derrida nos alerta contra a hipocrisia, mas o Reciprocidalismo nos oferece a cura prática; (i) Aceitar a Circularidade – O contradom não é um erro; é o motor da sociedade. Sem retribuição, não há laço, apenas caridade desempoderadora; (ii) Tecnologia como Dom Real – Ao contrário da moeda falsa, a tecnologia de convivência (cisterna, manejo das pastagens, da caatinga etc.) produz resultados concretos na natureza e na mesa do sertanejo; (iii) Fortalecimento da Coesão – Onde Derrida vê uma “prisão na dívida”, o Reciprocidalismo vê a libertação pela interdependência. Somos livres porque precisamos uns dos outros e temos o que oferecer em troca.

Derrida nos mostra que o dom puro é um fantasma; o Reciprocidalismo nos mostra que a Reciprocidade Genuína é a carne e o sangue da sobrevivência. No Semiárido, não buscamos o dom que paira acima do tempo, mas o pacto que caminha no tempo, de mãos dadas com o vizinho.