Esfacelamento da Cultura e o Bloqueio do Progresso
Com as premissas do Reciprocidalismo, fica evidente que a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas...
Com as premissas do Reciprocidalismo, fica evidente que a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Arturo Escobar, as técnicas e práticas do planejamento foram essenciais para implantação do desenvolvimento. Simbolizava, aplicação do conhecimento científico e técnico ao setor público. O planejamento deu legitimidade à tarefa do desenvolvimento. O conceito geral de planejamento indica a certeza de que mudanças sociais podem ser forjadas e dirigidas, oo até produzidas quando desejadas; ou seja, com a ajuda de um planejamento adequado, os países pobres seriam capazes de progredir com uma certa tranquilidade. Uma convicção axiomática que não exigia demonstração, pela maioria dos grupos de especialistas em desenvolvimento. Isso ocorreu porque em um determinado momento a burguesia europeia foi forçada a buscar soluções para o problema da pobreza. Na verdade, a administração da pobreza deu lugar a toda uma área de intervenção, área a que alguns pesquisadores deram o nome de social. Pobreza, saúde, educação, saneamento, desemprego etc., foram definidos como problemas sociais que, por sua vez, demandavam um conhecimento minucioso da sociedade e da população, com intervenções na vida cotidiana. No momento em que o Estado assumiu a responsabilidade pelo desenvolvimento, as metas governamentais passaram a ser necessariamente, um gerenciamento eficaz da população que a disciplinasse, a fim de garantir seu bem-estar e a ordem adequada. Em suma, o aparecimento do social possibilitou a expansão da socialização e da sujeição das pessoas às normas dominantes, bem como, na sua inserção na maquinaria da produção capitalista.
Esta reflexão nos coloca diante da “maquinaria” que sustenta o subdesenvolvimento: o planejamento tecnocrático. A análise de Arturo Escobar revela que o desenvolvimento não foi apenas um projeto econômico, mas uma tecnologia de controle social que transformou a vida das pessoas em “problemas sociais” a serem administrados. Ao cruzar essa visão com o Reciprocidalismo, percebe-se que o planejamento estatal, ao tentar “gerenciar a pobreza”, acabou por asfixiar a Reciprocidade Genuína. O progresso foi bloqueado porque o sertanejo deixou de ser o sujeito de sua própria sobrevivência para se tornar o objeto de um plano desenhado por especialistas distantes.
O PLANEJAMENTO COMO DISCIPLINA VS. A RECIPROCIDADE COMO LIBERDADE
1.0. A Invenção do “Social” e a Morte do Dom – Escobar argumenta que a pobreza foi transformada em uma “área de intervenção” (o social). Isso permitiu que o Estado entrasse na vida cotidiana para disciplinar a população.
1.1. A Conexão com o Reciprocidalismo – No Semiárido, essa intervenção substituiu o Pacto de Honra comunitário por normas burocráticas. O que antes era resolvido pela rede de solidariedade (saúde, educação, segurança hídrica) passou a ser um “item de planejamento”;
1.2. A Consequência – O povo perdeu a soberania sobre seus próprios problemas. Quando a “administração da pobreza” assume o controle, ela retira do indivíduo o dever de Dar e Retribuir, transformando-o em um receptor passivo de políticas públicas — o que Nizomar identifica como a essência da Anomia.
2.0. O Planejamento como Ferramenta de Sujeição – Para Escobar, o planejamento é o mecanismo que insere as pessoas na maquinaria capitalista. No contexto do desenvolvimento, “planejar” significa moldar o comportamento do pobre para que ele seja funcional ao sistema.
2.1. O Bloqueio do Progresso – Esse planejamento ignora a geografia humana e a cultura local. Ele tenta produzir mudanças “forjadas e dirigidas”, mas, como não tem raízes na reciprocidade, gera apenas infraestruturas vazias (cisternas abandonadas, projetos falidos) e uma população desmobilizada que espera a próxima “ordem adequada” do governo.
3.0. A Implantação do Reciprocidalismo (desconstruindo o planejamento de cima) – A implantação do Reciprocidalismo sob a ótica de Escobar exige uma inversão completa da lógica do planejamento:
3.a. Do Gerenciamento da População à Soberania do Núcleo – Diferente da “administração da pobreza”, o Reciprocidalismo propõe a Gestão da Abundância do Vínculo. O Núcleo de Reciprocidade não espera um plano governamental para decidir como gerir sua água ou seu fundo comum; ele exerce a Soberania Técnica. O planejamento deixa de ser um instrumento de disciplina estatal e passa a ser um acordo de convivência entre Fiandeiros;
3.b. O Conhecimento Científico como Insumo, não como Autoridade – Escobar critica a “convicção axiomática” dos especialistas. No modelo do Reciprocidalismo, a ciência técnica (agrônomos, engenheiros etc.) perde o papel de “senhora do destino” e assume o papel de Colaboradora do Dom. O técnico traz a informação, mas o desenho da vida cotidiana permanece nas mãos do Núcleo;
3.c. A Restauração do Protagonismo Social – Contra a “socialização para a sujeição”, o Reciprocidalismo promove a Educação para a Reciprocidade. O objetivo não é integrar o sertanejo na maquinaria capitalista como um dente de engrenagem, mas fortalecê-lo como um Agente de Soberania que interage com o mercado a partir de sua própria base de segurança coletiva.
SÍNTESE FINAL: O FIM DA “ADMINISTRAÇÃO DA POBREZA” – A reflexão de Arturo Escobar nos ensina que o desenvolvimento planejado foi a ferramenta que nos domesticou. O Reciprocidalismo é o ato de “desobediência planejada” que devolve o poder ao povo. Recriar o Semiárido é admitir que: (i) A pobreza não é um problema social a ser gerenciado – É uma condição de espoliação que se cura com a restauração do Dom; (ii) O progresso não pode ser forjado de fora – Ele deve ser fiado de dentro, por meio da retribuição de honra; (iii) Somos sujeitos, não objetos – Onde o Estado vê “população a ser disciplinada”, nós vemos “Fiandeiros a serem libertos”.
O planejamento buscou ordem e bem-estar por meio da sujeição; o Reciprocidalismo alcança a prosperidade mediante Aliança de Honra. Onde o técnico planeja a nossa vida, o progresso para; onde o Núcleo decide o seu destino, a vida floresce.