Árvore da Vida
O Reciprocidalismo, procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
O Reciprocidalismo – objeto da minha Tese de Doutoramento, defendida junto a Universidade de Milão (Bicocca) Itália – é um sistema de progresso econômico e social que se manifesta entre os agricultores domésticos e familiares das regiões secas, como uma economia de trocas e doações que se opõe e funciona como alternativa tanto à lógica individualista da Economia de Mercado quanto à dependência assistencialista da Economia de Estado. O conceito é uma revalorização das práticas tradicionais de Reciprocidade (dar, receber e retribuir), elevando-as a um modelo filosófico e prático de progresso econômico e social. Os eixos de manifestações do Reciprocidalismo, por meio de práticas comunitárias, que garantem a sobrevivência e a coesão social em um ambiente de escassez e vulnerabilidade, são incontáveis.
(a) Mutirão e Mútua, que é manifestação clássica. O trabalho (mão de obra) é trocado por trabalho futuro e não por salário em dinheiro. O agricultor que recebe ajuda para construir uma cisterna ou ajuda para tratos culturais na agricultura de subsistência, sabe que deve retribuir ajudando na colheita do vizinho ou em outro benefício. Isso supera a falta de capital para pagar salários; além disso,
(b) Troca de Sementes e Insumos. Em vez de comprar no mercado formal, os agricultores trocam sementes crioulas (adaptadas ao semiárido), mudas e adubos orgânicos. Essa troca valoriza o conhecimento tradicional e garante a diversidade genética das lavouras, aumentando a resiliência coletiva contra as secas e, também, o
(c) Empréstimo sem valor e Juros Monetários. O empréstimo de um animal (cavalo, jumento, boi etc.) ou de uma ferramenta é feito com a expectativa de retribuição em serviço, semente, ou com o próprio bem restituído em bom estado, e não com a cobrança de juros de mercado que levariam ao endividamento.
(d) Autonomia Comunitária – A solução dos problemas da comunidade (falta de água, construção de estradas vicinais, entre outros) é buscada primariamente dentro da própria comunidade, mediante esforço coletivo da reciprocidade, reduzindo a espera pela ação lenta e burocrática do poder público;
(e) Valorização do Conhecimento Local – O Reciprocidalismo legitima as tecnologias sociais (como o uso de forragens nativas, a manutenção de barreiros etc.) que nasceram da experiência e da troca de saberes entre os agricultores, em oposição a soluções técnicas exógenas e impostas, tal qual, o (f) Controle Social – As decisões sobre o uso dos recursos e a alocação de trabalho são feitas pela própria comunidade, garantindo que o que é feito sirva aos interesses coletivos e não a objetivos políticos momentâneos.
Em suma, o Reciprocidalismo funciona como o capital social da agricultura familiar e doméstica (doar e receber) e a um terceiro invisível: a aliança. Em regiões secas, onde o capital monetário é escasso e a intervenção estatal pode ser ineficaz, a capacidade de confiar no vizinho e de contar com o apoio mútuo é a verdadeira garantia de sobrevivência e de desenvolvimento sustentável. É o mecanismo que transforma a escassez em cooperação, a vulnerabilidade em resiliência, a amizade em proteção.