NIT como Moderador da Ditadura do Dinheiro
1.0. O NIT como Moderador da “Ditadura do Dinheiro” – Alain Minc alerta sobre o risco de a economia se tornar um...
De acordo com os postulados do Reciprocidalismo a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Otto Ullrich, com a era do desenvolvimento a ciência e a tecnologia passaram a ser os atores mais importantes no cenário mundial. Acreditava-se que a ciência e a tecnologia eram a causa da superioridade do norte e a garantia de promessa do desenvolvimento. Essa promissaõ de ajuda ao mundo inteiro criou a impressão de que, finalmente os rastros sangrentos do colonialismo eram coisa do passado. Não era verdade que os antigos conquistadores tinham agora se transformado em assistentes generosos, dispostos a partilhar os instrumentos de sua riqueza com os pobres. Independente de seus custos ambientais e materiais, muito dos custos sociais e culturais da introdução de tecnologias ocidentais também permaneceram ocultos durante a euforia tecnológica dos anos 50 e 60. Os ditos instrumentos do desenvolvimento não são instrumentos algum, e sim sistemas técnicas que penetram furtivamente em todas as áreas da vida e que não admitem alternativas.
Esta reflexão mergulha na ferida aberta pela “promessa tecnológica” do século XX. Como bem pontuou Otto Ullrich, a ciência e a tecnologia foram vendidas como presentes generosos, mas atuaram como “Cavalos de Troia” coloniais, sistemas que penetraram no Semiárido para desmantelar a autonomia local e impor uma dependência invisível. O Reciprocidalismo atua precisamente na desconstrução desse sistema técnico invasor para resgatar o progresso que foi usurpado das mãos do povo.
O RESGATE DO PROGRESSO: DA TECNOLOGIA INVASORA À CIÊNCIA DO DOM
1.0. A Desmascaramento da “Ajuda Generosa” – Ullrich alerta que os antigos conquistadores não se tornaram assistentes; eles apenas trocaram a espada pela Bula Técnica. O desenvolvimento prometido criou uma “euforia” que ocultou o custo mais alto: a destruição da Reciprocidade Genuína.
1.1. A Atuação do Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo identifica que o subdesenvolvimento não é falta de tecnologia, mas a Anomia causada pela substituição do “Pacto de Honra” pelo “Contrato Técnico”. O Reciprocidalismo retira o véu da ajuda externa e revela que o verdadeiro progresso só existe quando a força motriz é o Vínculo, e não a dependência de insumos vindos do Norte.
2.0. A Quebra dos Sistemas Técnicos “Sem Alternativa” – A tecnologia ocidental, segundo Ullrich, é um sistema que não admite alternativas, forçando o agricultor a entrar em uma engrenagem de consumo (sementes híbridas, venenos, maquinário pesado).
2.1. O Resgate do Domínio – O Reciprocidalismo devolve ao sertanejo o domínio das forças produtivas. Por meio da Irradiação de Tecnologias de Convivência, a ciência deixa de ser um sistema fechado e invasivo para se tornar um Insumo da Autonomia.
2.2. No Núcleo de Reciprocidade, a tecnologia é “decomposta” e “recomposta” pelo saber local. Ela passa a admitir alternativas porque é o Fiandeiro quem decide como usá-la para fortalecer o estoque comum, e não para alimentar o mercado externo.
3.0. Do Progresso Bloqueado à Soberania Irradiada – O progresso foi bloqueado porque o sistema técnico ocidental drenou o capital social do Semiárido. O Reciprocidalismo desbloqueia esse processo em três frentes.
3.1. Soberania Cognitiva – O mediador (agente de Ater) atua como espoleta, despertando o saber de dentro para fora. O conhecimento técnico é absorvido como um dom que deve ser retribuído, e não como uma verdade absoluta imposta;
3.2. Soberania Material – A criação de Fundos de Reserva e bancos de sementes nos Núcleos garante que o sustento não dependa da “generosidade” volátil do Estado ou das empresas;
3.3. Soberania Social – Ao restaurar as trocas do Dom, o indivíduo deixa de ser um “átomo” no sistema de mercado e volta a ser parte de uma Rede de Soberania.
CONCLUSÃO: A RETOMADA DAS RÉDEAS DA HISTÓRIA – O Reciprocidalismo é a resposta à “invasão furtiva” descrita por Ullrich. Ele compreende que a tecnologia não é neutra; ou ela serve ao domínio do capital, ou ela serve à libertação do ser humano através da reciprocidade. Resgatar o progresso usurpado significa admitir que: (i) A ciência deve ser um Dom: – Se o conhecimento não circula para fortalecer o vizinho, ele é colonização; (ii) A técnica deve ser vernacular – Ela deve se curvar à geografia humana do Semiárido; (iii) A força está no Vínculo – O domínio das forças que causaram o subdesenvolvimento só é possível quando o povo retoma o controle sobre o que produz, o que consome e, principalmente, sobre como se ajuda.
O desenvolvimento nos deu as ferramentas para sermos escravos de uma eficiência alheia; o Reciprocidalismo nos devolve a alma para sermos arquitetos de nossa própria abundância.