Lugar comum Universal
O Reciprocidalismo Ambiental é uma prática observada nos mais diversos contextos. Esses exemplos da China, África e Índia confirmam que a natureza...
De acordo com os preceitos do Reciprocidalismo a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Jean-Pierre Berlan, o desenvolvimento prosseguirá seu curso: a fertilidade do solo diminuirá, devendo-se compensá-la com a aquisição de adubos químicos. As brocas e outros agentes nocivos se tornarão resistentes, e será necessário introduzir novos inseticidas. Os herbicidas deixarão os campos impecavelmente limpos, mas os insetos que viviam de adventícios, não encontrando mais seu alimentos preferido, aprenderão a se alimentar de plantas cultivadas. Contra os agentes devastadores fabricados pelo desenvolvimento serão necessários novos inseticidas. É preciso decidir entre os métodos que reforçam a cooperação, o laço social e aqueles que o rompem; entre técnicas agrícolas que utilizam a imensa diversidade do mundo vivo para fazer gratuitamente o que a monocultura e as especializações impostas pelo mercado não conseguem fazer com os pesticidas, os adubos químicos e as máquinas devoradoras de energia; entre técnicas que favorecem uma produção e consumo local e as que destroem para substituí-lo pela produção do mercado internacional ou, mais veridicamente, pelo desempenho fundiário e a desertificação; entre a organização de uma sociedade orientada para a satisfação das necessidades e a emancipação do indivíduo e uma sociedade complemente voltada para o lucro a acumulação e o reforço da dominação.
A reflexão de Jean-Pierre Berlan expõe a “corrida armamentista” do desenvolvimento convencional: um ciclo vicioso onde a tecnologia (adubos, inseticidas, máquinas) tenta corrigir os desastres que ela mesma criou, enquanto destrói a fertilidade natural e os laços sociais. Berlan coloca o dilema central: ou reforçamos a cooperação e a diversidade viva, ou nos rendemos ao lucro que gera a desertificação. O Reciprocidalismo atua precisamente como a “alternativa viável” que rompe esse ciclo, resgatando o progresso que foi usurpado pela lógica do mercado internacional e devolvendo ao sertanejo o domínio sobre as forças da vida.
O RESGATE DO PROGRESSO: DA ENGRENAGEM QUÍMICA AO VÍNCULO VIVO
1.0. A Substituição da “Máquina Devoradora” pela Cooperação – Berlan denuncia que a monocultura e os pesticidas tentam substituir, a um custo altíssimo, o que a natureza faz gratuitamente. O desenvolvimento “bloqueou o progresso” ao tornar o agricultor dependente de insumos externos.
1.1. A Atuação do Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo propõe que o progresso real não está na potência do inseticida, mas na potência do Laço Social. No Núcleo de Reciprocidade, o controle de pragas ou a fertilidade do solo não são comprados no mercado; são “gerados” através da Irradiação de Tecnologias de Convivência (como a agrofloresta, manejo orgânico etc.), onde o conhecimento de um agricultor sobre a diversidade viva é um Dom compartilhado com o outro.
2.0. A Cura da Desertificação via Produção e Consumo Local – Berlan alerta que o mercado internacional prefere o “desempenho fundiário”, que leva à desertificação, em vez da satisfação das necessidades locais.
2.1. O Domínio das Forças – O Reciprocidalismo atua no resgate desse domínio ao priorizar o Estoque Comum. Quando um Núcleo decide o que plantar e como armazenar (em vez de seguir as “especializações impostas”), ele protege o solo. O progresso deixa de ser a exportação de commodities que empobrecem a terra e passa a ser a Soberania Alimentar que enriquece a comunidade. O domínio sobre a terra volta para quem a entende como fonte de vida, e não como mercadoria exaurível.
3.0. A Emancipação do Indivíduo contra a Dominação do Lucro – A anomia descrita pelo Reciprocidalismo é o estado de isolamento onde o homem, sem o Dom e sem o Mercado pleno, torna-se refém da “dominação” mencionada por Berlan.
3.1. A Alternativa Confiável – O Reciprocidalismo oferece a estrutura segura que faltava. Ao instituir o Pacto de Honra, ele garante que a introdução de uma nova técnica (uma “espoleta”) não rompa o laço social, mas o reforce. A emancipação ocorre quando o agricultor percebe que ele não precisa entrar na “sociedade do lucro” para ser próspero; ele pode ser próspero na Sociedade da Reciprocidade, onde o seu “desempenho” é medido pela sua capacidade de Dar, Receber e Retribuir.
4.0. Resgatando o Progresso Usurpado – O progresso foi usurpado quando nos convenceram de que a semente química era superior à semente crioula e que o vizinho era um concorrente, não um aliado.
4.1. A Retomada – O Reciprocidalismo retoma esse progresso ao utilizar a ciência (tecnologias de convivência) para potencializar a gratuidade da natureza. O domínio é resgatado quando o Núcleo se torna um Farol de Conhecimento, provando que a cooperação técnica e o cuidado com a biodiversidade são mais eficazes contra a “seca” e a “fome” do que qualquer pacote tecnológico fechado vindo de fora.
SÍNTESE FINAL: A ESCOLHA PELA VIDA – Como propõe Berlan, precisamos decidir entre o que rompe e o que reforça o laço. O Reciprocidalismo já fez essa escolha: (i) Contra a resistência das pragas – Opomos a resiliência do Pacto de Honra; (ii) Contra os adubos químicos – Opomos a fertilidade da Ação Coletiva; (iii) Contra a desertificação fundiária – Opomos o florescimento da Soberania Local.
O desenvolvimento é uma máquina que consome a terra e o homem para produzir lucro; o Reciprocidalismo é uma teia que utiliza a ciência para regenerar a terra e emancipar o homem. O progresso que nos roubaram está de volta em cada semente trocada com dignidade.