Semiárido

reciprocidalismoAdmin
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A reciprocidade é uma prática que possui uma importância vital para os agricultores familiares e domésticos que vivem em uma situação de economia pré-capitalista (ou em comunidades que mantêm fortes laços de economia moral e comunitária, como muitas no Semiárido). Ela não é apenas um valor cultural, mas sim um mecanismo de sobrevivência e coesão social que substitui as redes de segurança institucional, ausentes ou precárias. A Reciprocidade é a base da sobrevivência das populações carentes do semiárido. Em um sistema pré-capitalista – ainda muito latente nas trocas comerciais nas comunidades isoladas -, o foco não está no lucro individual máximo, mas na reprodução social e material da família e da comunidade, na aliança comunitária. A reciprocidade atua como a infraestrutura que garante essa reprodução, em alguns aspectos essenciais da vida humana.
 

  1. Segurança e Seguridade Social – A reciprocidade cria uma (a) Rede de Amparo, na medida em que as trocas criam redes de segurança informal. Em caso de crise (doença, perda de safra, morte de um animal), a comunidade aciona o sistema de “dar, receber e retribuir”. Uma família que empresta sementes em um ano de seca sabe que receberá ajuda ou trabalho em troca no futuro, mesmo que o valor não seja estritamente medido em dinheiro, assim como, uma (b) Distribuição de Riscos. Em economias de alta vulnerabilidade, como as do Semiárido, o risco de perda é alto. A reciprocidade socializa o risco, impedindo que um único evento catastrófico (como uma seca-relâmpago) cause o colapso total de uma família.
     
  2. Acesso a Recursos e Trabalho (Mútua) – O trabalho é, por natureza, a mais essencial expressão do Reciprocidalismo, porquanto a (c) a mão de obra e os mutirões são extremamente pronunciados. A forma mais visível da reciprocidade é o mutirão ou a mútua. O trabalho pesado (plantio, colheita, construção de casas e benfeitorias, como cisternas) é realizado coletivamente, sem pagamento em dinheiro, mas com a expectativa de que o beneficiado retribua a ajuda quando outro vizinho precisar. Isso supera a falta de capital para contratação de mão de obra, nem como, o (d) Empréstimo de Insumos Agrícolas é fundamental para a produção agrícola. Como a liquidez monetária é baixa, a reciprocidade garante o acesso a insumos essenciais. O agricultor pode emprestar uma junta de bois, sementes, ou um pedaço de terra em troca de uma parte da colheita ou de trabalho futuro.
     
  3. Fortalecimento da Identidade Comunitária – A identidade comunitária é o sentimento de pertencimento e conexão que os indivíduos sentem em relação a um grupo social, construído a partir de experiências compartilhadas, valores, história e tradições comuns. Ela se manifesta por meio de elementos como língua, costumes, símbolos e até mesmo a relação com um determinado espaço físico. Os dois aspectos que ressaltam esses valores são a (e) Economia Moral, que é o sistema de reciprocidade, enraizado em uma economia moral, na qual a confiança e a honra têm mais valor do que um contrato legal. O não cumprimento da dívida de reciprocidade (o não-retribuir) resulta em punição social (isolamento, perda de reputação), o que funciona como um forte mecanismo de controle social, assim como, a (f) Cooperação e Coesão, que promove e reforça os laços de vizinhança, essencial para comunidades rurais que enfrentam desafios ambientais e políticos comuns. O agrário filosófico, nesse sentido, é vivido mediante reciprocidade.
                Em síntese, em contextos pré-capitalistas, a reciprocidade é o capital social que garante a subsistência, a estabilidade e a capacidade de adaptação da agricultura familiar. Ela funciona como o sistema de seguros, crédito e mão de obra em uma única estrutura social. O Reciprocidalismo é o sistema que agrega e coloca em sintonia todas as nuances da vida comunitária.