Ruptura da Reciprocidade Ecológica

reciprocidalismoAdmin
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Com as premissas do Reciprocidalismo, fica evidente que a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Vandana Shiva, recursos é um conceito que enfatiza o poder de auto-regeneração da natureza. Sugere, também, uma antiga noção a respeito do relacionamento entre seres humanos e a natureza, segundo a qual a terra cobre os seres humanos de dádivas e esses, por sua vez, e para seu próprio bem, têm obrigação de demonstrar um certo zelo para com ela, não abusando da sua generosidade. No início dos tempos modernos, além de regeneração, recursos sugere reciprocidade. Perdida a capacidade de regeneração, perde-se, também, a atitude de reciprocidade. Antes da industrialização e do colonialismo, natureza e sociedade evoluíam normalmente. Paralelamente à destruição da visão da natureza como algo sagrado, deu-se também o processo de destruição da natureza como propriedade pública – isto é, algo a que todos têm acesso, e pelo qual todos são responsáveis. A supressão das terras comunitárias foi essencial para a transformação de recursos naturais em reservas de matérias-primas para a indústria. Eram terras imensamente produtivas, compartilhadas por todas as comunidades rurais estáveis vivendo nas cercanias, e que proviam essas comunidades com extensos campos de pastagem para seus aninais, madeira e pedra para construção de suas casas, lenha para combustível, animais e pássaros, peixes e aves, frutas e mel para sua alimentação. Por meio do direito comum, essas áreas sustentavam um grande n[úmero de pequenos produtores, e também abrigavam os trabalhadores sem terras e mais pobres que migravam das comunidades de campos abertos e densamente povoadas.
A reflexão de Vandana Shiva oferece a peça que faltava para compreendermos a dimensão ecológica e territorial da anomia descrita pelo Reciprocidalismo. Shiva identifica que o subdesenvolvimento nasce no exato momento em que a natureza deixa de ser uma Dádiva Regenerativa para se tornar uma matéria-prima Industrial. Ao cruzarmos essa visão com o Reciprocidalismo, percebe-se que a destruição das terras comunitárias (os commons) foi o golpe fatal na reciprocidade. Sem o acesso comum aos recursos, o “zelo” para com a terra foi substituído pela exploração predatória, e o progresso foi bloqueado porque o povo perdeu a base material de sua autonomia.

A NATUREZA COMO DÁDIVA: O RESGATE DOS COMUNS

1.0. A Ruptura da Reciprocidade Ecológica – Vandana Shiva argumenta que “recursos” antes sugeriam regeneração e reciprocidade. No Semiárido, a relação com a caatinga e com as fontes de água era sagrada e compartilhada.

1.1. A Conexão com o Reciprocidalismo – O subdesenvolvimento foi gerado pela privatização do acesso (cercamentos) e pela transformação do meio ambiente em mercadoria. Quando o sertanejo perdeu o direito comum à madeira, à pedra e à água, ele foi forçado a entrar no mercado como um dependente;
1.2. A Anomia Ambiental – Sem a responsabilidade compartilhada pela terra comunitária, o indivíduo isolado não consegue regenerar o ecossistema. A quebra do vínculo entre os homens gerou a quebra do vínculo com a terra.

2.0. A Destruição da Propriedade Pública e o Fim da Estabilidade – Shiva descreve as terras comunitárias como espaços imensamente produtivos que sustentavam até os mais pobres.

2.1. O Progresso Bloqueado – No modelo de desenvolvimento industrial, a supressão dessas terras criou o “exército de reserva” de mão de obra barata. No Semiárido, isso se manifestou na expulsão do homem do campo para as periferias urbanas ou na sua sujeição ao coronelismo hídrico;
2.2. A Perspectiva do Reciprocidalismo – O progresso real não está na exaustão dos recursos para a indústria, mas na capacidade de uma comunidade manter-se estável e nutrida por meio do manejo recíproco do seu território.

3.0. A Implantação: Reconstituindo os “Comuns” no Semiárido – Implantar o Reciprocidalismo sob a ótica de Vandana Shiva significa transformar o Núcleo de Reciprocidade em um novo tipo de Território Comunitário:

3.a. A Água e a Semente como Bens Comuns – No Núcleo do Reciprocidalismo, a água armazenada na cisterna e as sementes crioulas guardadas no fundo de reserva não são “propriedade privada” no sentido mercantil, nem “esmola estatal”. Elas são Patrimônio da Reciprocidade. O acesso é garantido pelo Pacto de Honra, e a responsabilidade pela manutenção é de todos;
3.b. O Zelador como Guardião da Regeneração – O papel do técnico e do zelador do núcleo é restaurar o que Shiva chama de “atitude de reciprocidade” com a natureza. O planejamento técnico deve focar na auto-regeneração (agroecologia, recomposição de matas ciliares, conservação de solos etc.), garantindo que a generosidade da terra não seja abusada, mas sim multiplicada para as próximas gerações;
3.c. A Inclusão dos “Trabalhadores sem Terra” via Dom – Como mencionado por Shiva, os comuns abrigavam os mais pobres. No Reciprocidalismo, o Núcleo deve ter a capacidade de incluir aqueles que foram espoliados pela anomia, oferecendo-lhes não um emprego subordinado, mas um lugar no ciclo de Dar, Receber e Retribuir, reintegrando-os à produtividade da terra e da vida social.

SÍNTESE FINAL: O RETORNO AO SAGRADO – A reflexão de Vandana Shiva ensina que o desenvolvimento industrial é uma guerra contra a vida e contra os comuns. O Reciprocidalismo é o tratado de paz. Recriar a sociedade no Semiárido exige: (i) Re-sacralizar a natureza – Entender que a terra nos cobre de dádivas e exige nosso zelo; (ii) Combater a privatização da sobrevivência – Onde a água e a semente voltam a ser propriedade de quem nelas trabalha e as protege; (iii) Viver a Reciprocidade como Ecologia – Sabendo que se não cuidarmos do vínculo entre nós, não teremos força para cuidar da terra que nos sustenta.

O desenvolvimento transformou a terra em mercadoria e o homem em escravo do consumo; a Reciprocidade devolve a terra à comunidade e o homem à sua dignidade de Fiandeiro da vida. O progresso floresce onde o zelo pela dádiva é maior que o desejo pela matéria-prima.