Núcleos de Constituição
O Reciprocidalismo entende o fato de que as culturas híbridas são capazes de construir um sentido diferente com relação às tendências dominantes....
A comparação entre o Reciprocidalismo e a Economia de Comunhão (EdC) de Chiara Lubich revela um diálogo profundo entre a ontologia aristotélica e a mística comunitária cristã. Ambas as correntes buscam redimir a economia do egoísmo, mas operam em planos e estruturas distintas. Enquanto o Reciprocidalismo é uma “Ciência da Existência” que atua na base física e biológica do Semiárido, a EdC é um “estilo de vida empresarial” que atua na ressignificação do capital dentro do mercado global.
1.0. Ontologia vs. Estética da Vida – A principal diferença reside na fundamentação filosófica.
1.1. Reciprocidalismo (Hilemorfismo) – o reciprocidalismo foca na união inseparável entre matéria e forma. A pobreza é combatida transformando a potência do solo (matéria) por meio do trabalho técnico e moral (forma/essência). É uma ciência que busca a Eudaimonia por entre a independência material e técnica (Agricultura Regenerativa, Barragem, Bokashi etc.).
1.2. Economia de Comunhão (Estilo de Vida) – Chiara Lubich foca na cultura do dar. A pobreza não é apenas carência material, mas uma escolha de sobriedade. O empresário da EdC vive a “pobreza evangélica” como um desapego espiritual que transborda em comunhão social.
2.0. A Teoria das Causas e a Finalidade do Lucro
Podemos analisar, exemplificando, a dinâmica do lucro em ambos os sistemas por meio das Quatro Causas Aristotélicas.
Exemplo I
Causa: Material
Reciprocidalismo (Nizomar Falcão): Recursos locais, trabalho familiar, sementes
Economia de Comunhão (Chiara Lubich): Capital privado, empresas, mercado global
Exemplo II
Causa: Formal
Reciprocidalismo (Nizomar Falcão): O Núcleo de Reciprocidade, o mutirão
Economia de Comunhão (Chiara Lubich): A Empresa Capitalista sob a ótica da Unidade.
Exemplo III
Causa: Eficiente
Reciprocidalismo (Nizomar Falcão): O agricultor e mútua vontade
Economia de Comunhão (Chiara Lubich): O empresário e a cultura do dar.
Exemplo IV
Causa: Final
Reciprocidalismo (Nizomar Falcão): A realização do Potencial humano.
Economia de Comunhão (Chiara Lubich): A Comunhão Universal e a Fraternidade.
3.0. Mercado e Propriedade: Duas Estratégias – As duas correntes aceitam a realidade material, mas reagem de formas diferentes à estrutura capitalista.
3.1. A EdC e o Capitalismo de Comunhão – A EdC mantém a estrutura da empresa privada e do mercado, mas subverte a Causa Final. O lucro não é o fim, mas o meio para três fins: o crescimento da empresa, a ajuda aos necessitados e a formação de “homens novos”. É o capital posto em comunhão voluntária.
3.2. O Reciprocidalismo e a Autonomia Rústica – O sistema do reciprocidalismo é mais cético em relação à dependência do mercado global. Ele busca criar um sistema onde o agricultor não precise “vender sua alma” para o sistema financeiro. A propriedade é resguardada, mas a produção é voltada para a vida (locavorismo) e para o fortalecimento do laço social imediato.
4.0. O Significado da Pobreza
4.1. Para Chiara Lubich, a pobreza é compartilhada para ser superada; é um valor que gera comunhão. A EdC “cura” a pobreza integrando o pobre no círculo da produção e do consumo;
4.2. Para o reciprocidalismo, a pobreza é uma carência que deve ser resolvida pela ativação das causas. O pobre tem a “potência” da riqueza dentro de si; o Reciprocidalismo fornece a “forma” (conhecimento e técnica) para que essa potência vire “ato” (abundância).
Síntese: O Encontro na Reciprocidade Genuína – O que une o reciprocidalismo e Chiara tem em comum é a convicção de que a economia neoclássica falhou ao ignorar as motivações humanas intrínsecas; (i) A EdC humaniza o mercado de cima para baixo (pelo empresário); (ii) O Reciprocidalismo humaniza o território de baixo para cima (pelo agricultor). Ambas, todavia, concordam que a “mão que lava a outra” é mais eficiente do que a “mão invisível” do mercado quando se trata de gerar felicidade real.