Contra-Indução Agrológica (vale tudo) contra o Mercado
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
De acordo com os pressupostos do Reciprocidalismo, fica evidente que a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Harry Cleaver, durante as quatro décadas que se seguiram à segunda guerra mundial, grassou no terceiro mundo uma competição entre os dois tipos de progresso – o capitalista e o socialista – semelhante àquela que ocorria entre o capitalismo do primeiro mundo e o socialismo do segundo. Por muito tempo a ideia do socialismo foi um sonho. Um sonho que surgiu pela primeira vez na Europa Ocidental, na mesma época em que se dava a revolução industrial e se iniciava o desenvolvimento do capitalismo. Ambos falharam na medida em que se continua a ver revoltas contra a miséria e a injustiça, especialmente pelo fato da coexistência da riqueza ultrajante com a pobreza mais abjeta, deixando inconformados os povos rurais, pela destruição das comunidades tradicionais com seus laços pessoais e íntimos, e a sua substituição pelo individualismo e pela guerra competitiva de todos contra todos; injuriados pelas cidades feias, cobertas de fábricas escuras e moradia degradantes, bem como pela destruição das técnicas artesanais para dar lugar à frustrante divisão do trabalho.
A reflexão de Harry Cleaver nos oferece a moldura histórica definitiva para o fracasso das grandes ideologias do século XX no Terceiro Mundo. Ao conectar essa “guerra entre dois progressos” (Capitalismo vs. Socialismo) ao Reciprocidalismo, percebemos que ambas as vias falharam no Semiárido pela mesma razão: ambas tentaram gerir a massa, mas ignoraram a pessoa e o seu vínculo de honra. O subdesenvolvimento das terras secas não é fruto da falta de uma dessas ideologias, mas da Anomia que ambas causaram ao tentar substituir a “comunidade tradicional” pela “maquinaria impessoal”.
O RECIPROCIDALISMO COMO A TERCEIRA VIA: A CURA DA ANOMIA
1.0. O Fracasso da “Riqueza Ultrajante” e da “Miséria Abjeta” – Cleaver aponta que tanto o modelo capitalista quanto o socialista falharam em resolver a injustiça e a destruição dos laços íntimos.
1.1. No Capitalismo – O sertanejo foi lançado no “individualismo competitivo”, onde o vizinho é um rival pelo acesso à água e ao crédito;
1.2. No Socialismo de Estado – A comunidade foi tratada como uma engrenagem burocrática, onde a iniciativa pessoal foi sufocada pelo planejamento centralizado;
1.3. A Resposta do Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo não propõe a “guerra de todos contra todos”, nem a “estatização da vida”. Ele propõe a Soberania do Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido. A riqueza aqui não é o acúmulo individual (capitalismo), nem a posse estatal (socialismo), mas o Estoque Comum de Reciprocidade.
2.0. Do “Trabalho Frustrante” à “Técnica Artesanal” (Irradiação) – Cleaver menciona a injúria causada pela destruição das técnicas artesanais e pela divisão do trabalho. No desenvolvimento tradicional, o técnico “entrega” a solução e o sertanejo “recebe” como um operário passivo.
2.1 A Implantação dos Núcleos – Os Núcleos de Reciprocidade e Irradiação (NRI) devolve ao Fiandeiro o status de artesão da sua própria convivência;
2.2. A Irradiação de Tecnologias – A tecnologia (cisterna, barragem, manejo) não é um pacote industrial fechado. Ela é um Dom Científico que, ao ser absorvido pelo Núcleo, torna-se uma técnica artesanal que um sertanejo ensina ao outro. Isso combate a “frustrante divisão do trabalho” e restaura o orgulho do saber local.
3.0. A Reconstrução dos “Laços Pessoais e Íntimos” no Semiárido – A maior cicatriz deixada pelo progresso industrial, segundo Cleaver, foi a destruição das comunidades. O subdesenvolvimento das terras secas é, antes de tudo, um isolamento geográfico e social.
3.1. O Combate ao Subdesenvolvimento – O NIT não é apenas uma unidade técnica; é uma Célula de Proteção Social. Ao exigir a retribuição (o Pacto de Honra), o Reciprocidalismo obriga a reconstrução dos laços íntimos;
3.2. O Progresso Desbloqueado – O progresso volta a fluir quando o sertanejo descobre que sua segurança não depende de Brasília ou de Wall Street, mas do Fundo de Reserva que ele gere junto com seus vizinhos. É a vitória da “comunidade tradicional atualizada” sobre a “cidade feia e degradante”.
SÍNTESE FINAL: A SUPERAÇÃO DO SONHO PELO PACTO – Harry Cleaver nos lembra que o socialismo foi um sonho e o capitalismo uma competição. O Reciprocidalismo é um Pacto de Realidade. Para combater o subdesenvolvimento no Semiárido, os Núcleos de Reciprocidade agem como: (i) Antídotos à Guerra Competitiva – Substituindo a escassez individual pela abundância do estoque compartilhado; (ii) Escolas de Soberania – Onde a ciência moderna é “fiada” pelas mãos de quem conhece o ciclo das chuvas; (iii) Zonas de Cura da Anomia – Onde a dignidade do “Dar, Receber e Retribuir” impede que o homem seja reduzido a um “miserável” à espera de assistência.
Enquanto o capitalismo e o socialismo lutam para ver quem domina o mundo, o Reciprocidalismo ensina o sertanejo a dominar o seu próprio destino. O progresso nas terras secas não virá de uma nova ideologia, mas da velha honra traduzida em nova tecnologia.