Desconstruir a Ajuda e a Dependência Técnica
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
Desde que os Estados Unidos, em 1949, resolveram difundir conhecimentos tecnológicos para o aumento da produção de alimentos na América Latina, exportaram a concepção de que o conhecimento se adquire de fora para dentro. Os primórdios da Extensão Rural, desde então, atuam no Brasil, dessa forma, notadamente, na Extensão Rural pública. Os mentores primários acreditavam que os operadores seriam capazes de induzirem os produtores rurais a mudarem seus modos de produção pelo convencimento, como se o saber fosse algo bancário (fora para dentro dos indivíduos). O Reciprocidalismo; todavia, inverte essa convicção: os saberes são despertados de dentro para fora e, recomenda a utilização dos métodos de Extensão Rural como espoletas para disparar esse processo; Ou seja, os indivíduos mudam de comportamento em relação a decisão de adotar ou não, determinada tecnologia, quando elementos cognitivos entram em conflito com aspectos da consciência humana; isto é, as pessoas mudam de dentro para fora e não de fora para dentro, como acreditava a modernidade, ao impor o uso de tecnologias. O papel do mediador (agentes de Ater), nos Núcleos de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido, no sistema sócio-econômico do Reciprocidalismo, não é ser o projétil, mas a espoleta que vai disparar o gatilho do conflito psicológico. Isso pode ser feito por meio dos métodos de extensão rural, como Unidades Demonstrativas (U.D.), Unidades de Observação (U.O.) Demonstração de Resultados (D.R.) etc.
Essa inversão de paradigma descrita – do “modelo bancário” dos EUA de 1949 para a “extensão espoleta” do Reciprocidalismo – é a transição da dominação tecnológica para a Soberania Cognitiva. Para que os Núcleos de Reciprocidade se tornem Faróis de Conhecimento, o mediador (agente de Ater) deve abandonar a postura de “professor que deposita” para assumir a de “provocador que desperta”. Na sequência a estruturação dessa concepção de mundo para orientar os mediadores no campo (agentes de Ater).
GUIA DO MEDIADOR: O NÚCLEO COMO FAROL DA SOBERANIA
1.0. A RUPTURA EPISTEMOLÓGICA: O FIM DO “SABER BANCÁRIO” – O mediador deve compreender que o desenvolvimento imposto em 1949 fracassou porque tentou substituir a alma do sertanejo por uma bula técnica.
1.1. O Erro da Modernidade – Acreditar que o produtor é uma “vasilha vazia” à espera de tecnologia;
1.2. A Verdade do Reciprocidalismo – O saber já habita o Fiandeiro; ele está apenas bloqueado pela anomia e pela dependência. A mudança de comportamento só ocorre quando o indivíduo resolve o conflito entre a necessidade de sobreviver e a dignidade de prove*
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2.0. O MEDIADOR COMO ESPOLETA (A Engenharia do Conflito) – O papel do agente de Ater não é ser o projétil (a força que invade), mas a espoleta (o calor que inicia a explosão interna). O Gatilho Psicológico – Ao instalar uma tecnologia (cisterna de placa ou um banco de sementes ou uma unidade de produção de feno etc.), o mediador não deve focar no objeto, mas no conflito. Exemplo: “Se o seu vizinho produziu sementes sem comprar do mercado, por que você ainda depende do caminhão da prefeitura?”
A Função do Método – Os métodos de Extensão Rural (U.D., U.O., D.R.) deixam de ser “vitrines de produtos” para serem Espelhos de Possibilidade.
Método de Extensão Função no Reciprocidalismo (A Espoleta)
Unidade Demonstrativa (U.D.) Provar que a tecnologia funciona no chão do vizinho, gerando o conflito: “Se ele fez, eu também posso”.
Unidade de Observação (U.O.) Permitir que o Núcleo avalie riscos e falhas, despertando o senso crítico e a autogestão.
Demonstração de Resultados (D.R.) O momento da Irradiação – É onde o sucesso de um Fiandeiro fere o orgulho do outro, disparando o desejo de retribuição e superação.
3.0. A ESTRUTURA DOS NÚCLEOS COMO FARÓIS DO CONHECIMENTO – Para que a luz do conhecimento brilhe de dentro para fora, o mediador deve estruturar o Núcleo em três camadas de consciência.
3.a. A Camada do Despertar (Individual) – O mediador utiliza a Unidade Demonstrativa para causar o impacto visual e técnico. O agricultor vê a vida brotando na seca e entra em conflito com sua própria resignação;
3.b. A Camada da Pactuação (O Grupo) – Uma vez despertado o indivíduo, o mediador utiliza o método para selar o Pacto de Honra. A tecnologia só é entregue se houver o compromisso de Irradiação. O conhecimento deixa de ser posse e passa a ser fluxo;
3.c. A Camada da Irradiação (O Território) – O Núcleo torna-se um Farol quando o técnico já não é mais necessário para explicar a técnica. O Fiandeiro que aprendeu na U.D. torna-se o instrutor da próxima U.O. no sítio vizinho. A luz do conhecimento se espalha por contágio, não por decreto.
4.0. MANDAMENTOS PARA O AGENTE DE ATER NO RECIPROCIDALISMO
CONCLUSÃO: DO “EXTENSIONISTA VENDEDOR” AO “ARQUITETO DA HONRA” – O mediador do Reciprocidalismo é um arquiteto de consciências. Deve ter convicção de que a melhor tecnologia é aquela que o agricultor adota porque decidiu e que não aceita mais a condição de miserável. Ao utilizar os métodos de Ater como espoletas, o técnico não está apenas aumentando a produção de alimentos; está explodindo as correntes da anomia e acendendo faróis de soberania em cada canto do Semiárido.
A tecnologia é o fósforo, mas o combustível é a honra do sertanejo. O mediador apenas risca o fósforo; o incêndio da soberania é o próprio povo quem faz.