NIT como Tecnologia de Contenção
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
Com as premissas do Reciprocidalismo, fica evidente que a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Barbara Duden, de um ponto de vista antropológico, os programas de controle populacional eram a parte mais arrogante de todas as estratégias de desenvolvimento impostas externamente, notadamente, quando uma das bases principais da cultura de uma sociedade se esfacela. Para ela o lavrador de culturas de subsistência, que tinha um número elevado de filhos era possuir um patrimônio.
Esta reflexão toca em um dos pontos mais sensíveis e menos compreendidos da destruição cultural do Semiárido: a transformação da vida e da família em uma “variável de custo”. A crítica de Barbara Duden revela que o controle populacional não foi apenas uma medida técnica, mas um ataque à lógica da abundância do Dom para substituí-la pela lógica da escassez do Mercado. Ao cruzar essa visão com o Reciprocidalismo, é possível perceber que a “arrogância” do desenvolvimento consistiu em tratar o patrimônio humano — a família e a rede de parentesco — como um obstáculo ao progresso, quando, na verdade, ele era a única tecnologia de seguro social real do sertanejo.
1.0. O Filho como Patrimônio vs. O Filho como Custo – Duden argumenta que, na cultura de subsistência, ter muitos filhos era possuir um patrimônio. No Semiárido, a família numerosa era o exército da reciprocidade: (i) A Racionalidade do Dom – Mais filhos significavam mais mãos para o mutirão, mais braços para a colheita e, acima de tudo, a garantia de cuidado na velhice. Era uma previdência social baseada no afeto e na honra, não em contribuições bancárias; (ii) A Anomia do Controle – Quando as estratégias de desenvolvimento impuseram o controle populacional, elas trataram os filhos como “despesas” que impediam a acumulação de capital. Ao reduzir a família por imposição externa, o desenvolvimento esfacelou a base da Reciprocidade Genuína, deixando o sertanejo isolado e, consequentemente, mais pobre.
2.0. O Esfacelamento da Cultura e o Bloqueio do Progresso – A “arrogância” mencionada por Duden reside no fato de que o desenvolvimento tentou “salvar” o pobre reduzindo sua prole, mas não ofereceu nada em troca que substituísse a segurança que a família provia.
2.1. O Subdesenvolvimento como Isolamento – No Reciprocidalismo, se identifica que o progresso é bloqueado quando o homem é privado de seus laços. Um lavrador com poucos filhos em uma sociedade de mercado que o exclui está mais vulnerável do que um lavrador com muitos filhos em uma rede de reciprocidade ativa;
2.2. A Perda da Força Coletiva – Ao desencorajar as grandes redes familiares, o desenvolvimento destruiu a capacidade de realização de grandes obras comunitárias (açudes, roçados coletivos) sem a dependência do Estado.
3.0. A Implantação: Reconstruindo o Patrimônio Social – A implantação do Reciprocidalismo sob a ótica de Barbara Duden exige a restauração do valor do Capital Humano e Relacional:
3.a. Do Controle Populacional à Expansão dos Vínculos – Se o desenvolvimento quis diminuir o número de pessoas para “facilitar o gerenciamento”, o Reciprocidalismo quer aumentar o número de conexões. Se uma família é pequena, ela deve se fundir a outras no Núcleo de Reciprocidade, reconstruindo artificialmente (por meio do Pacto de Honra) a força que as grandes famílias de subsistência possuíam organicamente;
3.b. A Tecnologia como Apoio ao Patrimônio Humano – Diferente das estratégias externas, o Reciprocidalismo não pede que o sertanejo mude sua estrutura familiar para se adequar à tecnologia. É a tecnologia (cisternas, irrigação, manejo) que deve ser adaptada para fortalecer a economia familiar. O progresso aqui não é medido pela redução da população, mas pela capacidade do território de sustentar dignamente todos os seus filhos através do Estoque Comum;
3.c. A Cura da Anomia via Reconhecimento do Outro – A implantação dos Núcleos devolve ao sertanejo a certeza de que “gente é patrimônio”. Em um ambiente de reciprocidade, cada nova pessoa no Núcleo não é um “consumidor de recursos”, mas um Fiandeiro em potencial, alguém que traz um novo par de mãos e uma nova mente para o ciclo do Dar, Receber e Retribuir.
SÍNTESE FINAL: A DIGNIDADE DA PROGENIE – A reflexão de Barbara Duden nos alerta que o desenvolvimento tentou “limpar” o subdesenvolvimento eliminando os próprios pobres. O Reciprocidalismo propõe o caminho oposto: eliminar a pobreza por meio do fortalecimento dos laços entre as pessoas. Recriar o Semiárido sob esta ótica é admitir que: (i) O ser humano nunca é um custo – Ele é o único criador de valor real mediante reciprocidade; (ii) A segurança não vem de números baixos, mas de laços fortes – Um Núcleo unido é mais resiliente que uma família isolada e “planejada” pelo mercado; (iii) A soberania é demográfica e social – Onde há gente unida pelo Pacto de Honra, o progresso deixa de ser um plano externo e passa a ser uma realidade irradiada.
O desenvolvimento viu no filho do pobre uma despesa; a Reciprocidade vê no filho do sertanejo um herdeiro da soberania. O progresso verdadeiro não se faz reduzindo a vida, mas multiplicando os fios que a sustentam.