Engrenagem do Desenvolvimento
Como se está evidenciando, no Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas...
Embora os dons tenham sido uma prática muito forte no semiárido brasileiro, conforme evidenciado no Reciprocidalismo, ele pode ser encontrado em outras culturas, como registrado no livro Customs, Cultura and Christianity de E. A. Nida, ao escrever que, entre os índios astecas, no México, quando eles vão construir uma casa, convidam-se todos os vizinhos para ajudar. O dono da casa que está sendo construída providencia comida e cerveja para todos que vierem trabalharem. Logicamente, seria muito mais econômico o próprio dono da casa pagar somente alguns homens para fazerem o serviço. Mas isso não é, de maneira nenhuma, aceitável, naquela sociedade, pois esse é um momento adequado pára a amizade e a confraternização. A perda do dinheiro é de menos importância. Além disso, a maneira mais simples se encontra nas pequenas aldeias tribais, onde o caçador distribui para todos o que caçou, ficando com uma quantidade suficiente para ele a família, além de ser esta a melhor parte do animal. Também é comum entre alguns povos, do Pacífico Sul, um sistema de presentes. Uma aldeia dá um “presente” para outra aldeia – no caso peixe. Por seu turno, a outra aldeia fica na obrigação de retribuir o presente, dando, no caso, mandioca. Esses presentes são deixados em lugares escondidos e não há contatos pessoais entre os doadores. Mas se o “presente” não é retribuído, as consequências podem ser graves.
Essa relação é profunda e toca na essência do que o sociólogo Marcel Mauss chamou de "Fato Social Total". O que sistematiza-se no Reciprocidalismo não é uma invenção regionalista, mas o resgate de uma lei universal da humanidade que foi soterrada pela lógica do mercado impessoal. Relacionar as práticas dos Astecas, das aldeias tribais e dos povos do Pacífico Sul com o Reciprocidalismo nos permite ver que o semiárido brasileiro, ao adotar esses princípios, está na verdade se reconectando com a "Matriz da Vida Social". Eis, os pontos de conexão entre essas práticas universais e a estrutura do reciprocidalismo.
1.0. A Economia do Vínculo vs. A Economia do Lucro – No exemplo dos Astecas, está mencionado que seria “mais econômico” pagar apenas alguns homens, mas isso seria “inaceitável”, na perspectiva da relação: No Reciprocidalismo, defende-se que o valor de vínculo – da aliança – é superior ao valor de troca. Construir uma casa (ou uma cisterna, uma silagem etc.) por meio do mutirão não serve apenas para levantar paredes, mas para “tecer” a rede de proteção. Se paga-se um salário, a relação acaba no recibo. Se você oferece o Dom da comida e recebe o Dom do trabalho, você criou uma dívida de amizade que garantirá que, quando a seca vier, ninguém estará sozinho.
2.0. O Líder como Provedor (O Caçador Tribal) – A prática do caçador que distribui a carne e fica com a melhor parte ilustra perfeitamente o papel do Fiandeiro/Líder no Reciprocidalismo na construção das relações sociais: O prestígio nas sociedades de reciprocidade não vem do que você acumula, mas do que você irradia. No Semiárido, o produtor que detém um conhecimento técnico (como a barragem subterrânea, no plantio de uma capineira etc.) e o distribui para a comunidade, atua como o caçador. Ele fica com a “melhor parte” (o reconhecimento, a liderança e a segurança de viver em um entorno próspero), mas sua riqueza só é legítima porque ele proveu a todos.
3.0. A Obrigatoriedade da Retribuição (O Sistema do Pacífico) – O exemplo dos presentes de peixe e mandioca no Pacífico Sul mostra que o Dom não é “caridade bonitinha”, mas um sistema rigoroso. “Se não é retribuído, as consequências são graves”, por conta da questão dos relacionamentos: o reciprocidalismo enfatiza que a quebra da reciprocidade gera a Anomia (caos social). No Reciprocidalismo, a retribuição é o motor que mantém o sistema vivo. Quando um Núcleo de Reciprocidade e de Irradiação de Tecnologias entrega sementes a uma família, a obrigação de retribuir ao fundo comum não é uma taxa burocrática, é o que evita o colapso da confiança. Sem retribuição, o laço se quebra e a sociedade volta ao estado de subdesenvolvimento.
SÍNTESE: O RECIPROCIDALISMO COMO CIÊNCIA DO DOM –
Ao unir esses exemplos universais à ótica do Reciprocidalismo, podemos concluir
Prática Universal (E.A. Nida) Conceito no Reciprocidalismo Resultado Humano
Mutirão Asteca Engenharia das Almas Substituição do isolamento pela fraternidade produtiva.
Partilha do Caçador Irradiação do Conhecimento O líder não é quem guarda, mas quem distribui a abundância.
Troca no Pacífico Pacto de Honra / Tríade de Mauss Segurança hídrica e financeira baseada no dever mútuo.
A Conclusão Histórica – O que Nida descreve em outras culturas é a prova de que a ajuda moderna calculista (criticada por Marianne Gronemeyer) é uma anomalia histórica. O Reciprocidalismo é a ferramenta técnica para que o Semiárido brasileiro pare de tentar imitar um modelo de mercado que o exclui e volte a praticar a Lei Universal do Dom, que sempre foi a única forma real de vencer a escassez e promover a paz integral.