Economia-Comunhão

reciprocidalismoAdmin
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Uma confrontação entre o reciprocidalismo e a reciprocidade-comunhão de Luigino Bruni, especialmente quando ele diz que ela é um tipo específico de reciprocidade ou um modo específico de entendê-la. Para ele a característica da reciprocidade-comunhão é a transitividade ou abertura. Com isto ele quer dizer que a resposta do outro, a atitude de reciprocidade, também pode não ser dirigida a quem desencadeou o processo, mas a uma terceira pessoa. Em outras palavras, A, que realiza uma toda gratuidade para com B, faz uma experiência de reciprocidade não só se B lhe retribui, mas também se B é recíproco com C.
A confrontação entre o Reciprocidalismo e a Reciprocidade-Comunhão de Luigino Bruni (um dos maiores expoentes da Economia de Comunhão) revela um dos diálogos mais férteis da teoria social contemporânea. Enquanto o reciprocidalismo foca na estabilidade estrutural do Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido, Bruni foca na transitividade da graça. A grande ponte entre ambos é a superação da “reciprocidade de balcão” (onde trocamos A por B). Aqui, a balança do reciprocidalismo ganha a terceira dimensão de Bruni: a irradiação.

1.0. A Reciprocidade Binária vs. A Transitividade de Bruni – Luigino Bruni propõe que a reciprocidade não precisa ser um círculo fechado entre dois atores (A /B). Ela pode ser um vetor aberto: se A é gratuito com B, e B retribui a C, o ciclo da comunhão está completo.

1.1. No Reciprocidalismo – O reciprocidalismo operacionaliza essa transitividade por meio da Irradiação Tecnológica. Quando um Núcleo de Reciprocidade encontra-se consolidado (A) doa o saber técnico e o esforço para fundar um novo Núcleo de Reciprocidade (B), ele não espera que B o “pague” de volta. A experiência de reciprocidade de A se realiza plenamente quando B retribui o gesto ajudando a fundar o Núcleo C.

2.0. A Gratuidade como Desencadeadora – Bruni defende que a reciprocidade-comunhão começa com um ato de gratuidade que “abre mão” do controle sobre o retorno.

2.1. A Engenharia das Almas – O reciprocidalismo concorda que o Mediador ou o Fiandeiro pioneiro deve dar o primeiro passo sem a garantia contratual do retorno mercantil. No entanto, para o reciprocidalismo, a retribuição (mesmo que a terceiros) é essencial para que o recebedor não seja humilhado. A transitividade de Bruni é, para o reciprocidalismo, a garantia de que a dignidade circula: “Eu não te devo, eu devo ao mundo o que você me deu”.

3.0. O Nó da Contradição: Estrutura vs. Abertura – Existe uma tensão interessante entre a “balança íntegra” do reciprocidalismo e a “Abertura” de Bruni.

3.1. A Prudência do reciprocidalismo – Por lidar com a sobrevivência no Semiárido, o reciprocidalismo exige uma reciprocidade de proximidade no dia a dia do Núcleo de Reciprocidade, para garantir que a barragem seja feita, o alimento garantido etc. É a “mão que segura a outra”;
3.2. A Profecia de Bruni – Bruni alerta que, se a reciprocidade ficar presa apenas ao grupo fechado, ela pode se tornar um “clã” ou uma “máfia da simpatia”. A transitividade é o que torna o sistema soberano e universal.

Dimensão Reciprocidalismo (Nizomar) Reciprocidade-Comunhão (Bruni)
Foco Soberania e Segurança Técnica. Fraternidade e Abertura Social.
Mecanismo Retribuição via Trabalho/Saber. Transitividade (A/B/C).
Risco Fechamento em si mesmo (Endogenia). Diluição da responsabilidade (Perda de foco).
Solução Irradiação – O Núcleo como semente. Vulnerabilidade – O risco de dar sem retorno.

4.0. A Experiência de Reciprocidade no Terceiro – A frase de Bruni – “A faz uma experiência de reciprocidade se B é recíproco com C” — é a alma da Soberania do Sertão. Quando um Fiandeiro do reciprocidalismo vê a técnica que ele ensinou sendo replicada por um vizinho em outra comunidade, ele sente a Satisfação Pessoal (Dádiva Agonística) não porque recebeu dinheiro, mas porque sua existência foi validada na vida de um terceiro. A “comunhão” de Bruni é o que o reciprocidalismo chama de mútua vontade expandida.

SÍNTESE FINAL: A TRELIÇA DA SOBERANIA – A união dessas duas visões cria um sistema indestrutível: (i) Internamente (reciprocidalismo) – Praticamos a reciprocidade direta para garantir que a barragem se erga e o pão não falte; (ii) Externamente (Bruni) – Praticamos a transitividade, irradiando o saber para que o vizinho cure sua própria carne, sem nos dever nada, mas devendo ao próximo o mesmo gesto. O Reciprocidalismo fornece os “tijolos” (a técnica e a retribuição), enquanto a Reciprocidade-Comunhão de Luigino Bruni fornece o “cimento” (a abertura e a transitividade) que impede o Núcleo de ser uma ilha isolada.