Desintegração do Problema da Seca em Soluções Locais
O Reciprocidalismo de Nizomar Falcão procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis...
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Desfazer o desenvolvimento tecnológico e econômico descontrolado para refazer o mundo em uma perspectiva ricoeuriana não significa retornar a um estado primitivo, mas reinterpretar o desenvolvimento à luz de uma “pequena ética”, focada na vida boa com e para os outros. O objetivo de Paul Ricoeur é resgatar a reciprocidade genuína, passando da “civilização técnica” para uma mutualidade ética. O caminho proposto na filosofia de Ricoeur para essa transformação é: 1. Desfazer o Desenvolvimento (a crítica ao utilitarismo e à técnica) – O primeiro passo é desconstruir a visão de que desenvolvimento é apenas progresso técnico. É preciso (i) Superar a reciprocidade de interesse. O desenvolvimento atual é frequentemente pautado por uma “permuta” utilitária (dar para receber vantagem), que se desfaz quando a vantagem acaba. É necessário suspender essa visão objetivante e utilitarista das relações humanas, e (ii) Reconhecer a disssimetria. Ricoeur assinala que a técnica unifica o mundo tecnicamente, mas gera desigualdades. A reciprocidade genuína começa com o reconhecimento de que há uma “dissimetria original” – não somos iguais, e o outro é um outro, não um reflexo de mim; 2. Resgatar a Reciprocidade Genuína (a “pequena ética” – A reciprocidade genuína, para Ricoeur, está ancorada na solicitude e no reconhecimento mútuo, acima de tudo (iii) Solicitude (cuidado de si e do outro). Baseia-se no “dar e receber”, em que o eu se permite afetar pelo sofrimento do outro. Ela substitui a lógica da vingança (ou da competição) pela lógica do dom e do reconhecimento, mediante (iv)”Via Longa” do Reconhecimento. Ricoeur propõe passar da luta por reconhecimento (conflito) para uma troca de dons (reconhecimento mútuo), onde o outro é visto como um “si mesmo como um outro” e (v) O “amor e justiça”. A reciprocidade genuína se dá na busca de uma “vida boa com e para os outros em instituições justas”. A justiça é o crivo moral que permite a reciprocidade; 3. Refazer o Mundo (instituições justas e identidade narrativa0 – Refazer o mundo envolve criar novas narrativas e estruturas sociais, por meio de (vi) Instituições ustas – O desenvolvimento só é ético se inserido em instituições que garantam a equidade. O “justo” não é apenas o legal, mas o que promove a justiça (instituições que asseguram a cidadania), de acordo com a (vii) Narrativa e sentido. A identidade narrativa (capacidade de narrar a própria história) nos permite dar sentido às nossas ações, superando o egoísmo e promovendo o diálogo, via (viii) Perdão e memória. Para refazer o mundo após o “desenvolvimento” destrutivo, Ricoeur propõe o perdão como um arquétipo de reconhecimento que cura a memória e permite novas possibilidades de ação (o recomeço). Por fim, segundo Ricoeur, desfazer o desenvolvimento é submeter a técnica à sabedoria prática (ética), substituindo a lógica do “ter” (desenvolvimento material) pela lógica do “ser-com” (reconhecimento recíproco).
A integração entre a hermenêutica fenomenológica de Paul Ricoeur e o Reciprocidalismo propõe uma “poética do reconhecimento” para o semiárido. Se Ricoeur nos convoca a uma vida boa “com e para os outros em instituições justas”, o Reciprocidalismo identifica que o subdesenvolvimento das terras secas é o resultado de uma “civilização técnica” que tratou o sertanejo como um objeto de troca utilitária, ignorando sua identidade narrativa e sua capacidade de solicitar e oferecer o Dom. Nesta reflexão, os Núcleos de Reciprocidade (NIT) funcionam como as instituições Justas de Ricoeur: espaços mediadores onde a técnica é submetida à sabedoria prática (phronesis), transformando o conflito entre Estado e Mercado em mutualidade ética.
O NIT COMO INSTITUIÇÃO DE SOLICITUDE
1.0.Desfazer o Utilitarismo: Da Permuta ao Reconhecimento – Ricoeur critica a reciprocidade de interesse (o “dou para que me dês” vantajoso). O assistencialismo estatal e a lógica de mercado nas terras secas operam nessa chave utilitária, que se desfaz quando o recurso seca ou o lucro diminui.
1.1. Ação do Núcleo – O NIT estabelece a solicitude. Ele desfaz o desenvolvimento utilitarista ao tratar a irradiação da tecnologia de convivência não como uma venda ou uma doação política, mas como um ato de Reconhecimento Mútuo. Ao reconhecer a “dissimetria original” (o vizinho que sofre com a sede ou a fome), o membro do núcleo não oferece apenas um cano ou uma semente, mas a si mesmo como um apoio. A técnica torna-se o veículo de uma ética que busca a vida boa para o coletivo, superando a frieza do cálculo econômico.
2.0. A “Via Longa” da Irradiação Técnica – Para Ricoeur, o reconhecimento não é imediato; ele exige uma “via longa” de mediações. O subdesenvolvimento foi bloqueado por tentativas de soluções imediatistas e “curtas” do Estado.
2.1. Mediação hermenêutica – No NIT, a irradiação das Tecnologias de Convivência é a própria via longa. Por meio do aprendizado conjunto, do manejo da terra e do compartilhamento hídrico, os sujeitos passam da “luta por reconhecimento” (conflito por recursos) para a “troca de dons”. O NIT media o conflito entre o Estado e o Mercado ao propor que a justiça no sertão não é apenas a distribuição legal de bens, mas a promoção da capacidade de cada sertanejo de ser um “doador” de soluções.
IDENTIDADE NARRATIVA E JUSTIÇA NO SEMIÁRIDO
3.0. Refazer o Mundo pela Identidade Narrativa – Ricoeur defende que somos a história que contamos sobre nós mesmos. O desenvolvimento descontrolado impôs ao sertanejo uma narrativa de “vítima da seca”.
3.1. Narrar a Autonomia – O NIT é o lugar onde se reconstrói a identidade narrativa do Semiárido. Refazer o mundo significa permitir que o agricultor narre sua história não mais como um excluído, mas como um protagonista da convivência. A tecnologia (cisterna, mandala, biodigestor, aprisco etc.) funciona como um “personagem” nessa nova trama que dá sentido à ação coletiva. Ao narrar o sucesso da irradiação, a comunidade cura a memória das privações passadas e abre espaço para o perdão e o recomeço, libertando-se do determinismo geográfico.
4.0. Amor e Justiça: A Sabedoria Prática da Convivência – Ricoeur equilibra o “amor” (abundância do dom) com a “justiça” (regra de equivalência). O Mercado foca na regra fria; o Assistencialismo, na falsa caridade.
4.1. Refazer o Mundo – O NIT é a síntese de amor e justiça. Ele é uma instituição justa porque garante a equidade no acesso à tecnologia, mas é movido pela economia do Dom. Superar o subdesenvolvimento nas terras secas é, portanto, submeter a técnica à sabedoria prática. O NIT media o conflito ao provar que o desenvolvimento só é autêntico quando promove o “ser-com”. Refazer o mundo é transformar o deserto social em um jardim de reconhecimentos, onde a água que corre é, acima de tudo, o símbolo da solicitude humana.
SÍNTESE: A HERMENÊUTICA DA CONVIVÊNCIA – A reflexão integrativa entre Paul Ricoeur e o Reciprocidalismo estabelece que: (i) O progresso é ético ou não é progresso, é desenvolvimento – Superar a exclusão exige que a técnica seja um instrumento da “vida boa” com o outro, e não apenas acumulação; (ii) O NIT é a instituição do justo – Um espaço que organiza a reciprocidade para que ela não seja passageira, transformando-a em cultura e memória narrativa; (iii) A Reciprocidade é Reconhecimento – O mundo é refeito quando o sertanejo olha para o vizinho e vê um “si mesmo como um outro”, partilhando o saber para que ambos existam plenamente.
Paul Ricoeur nos ensinou que a memória pode ser curada através da narrativa e do perdão; o Reciprocidalismo nos mostra que, no Semiárido, o Núcleo de Reciprocidade é a oficina dessa cura. No Sertão de Ricoeur, a tecnologia de convivência não serve para ter mais, mas para ‘ser-com’ mais profundidade, provando que a maior justiça é aquela que permite a cada homem e mulher do sertão serem os narradores de sua própria dignidade, unidos pelo laço indestrutível do reconhecimento mútuo.