Descolonização da Mente: o “I Am a Sertanejo” (Eu sou um Sertanejo)
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Desfazer o desenvolvimento (no sentido de desconstruir a lógica neolocalista de atomização social) para refazer o mundo com reciprocidade genuína, segundo a perspectiva de Mark Granovetter, envolve reincorporar (re-embed) as ações econômicas nas redes de relações sociais. Granovetter argumenta que a confiança e a reciprocidade não surgem do nada, mas sim de relações pessoais duradouras e da estrutura das redes sociais. Segundo ele, esse processo pode ser assim estruturado: 1. Desfazer o “desenvolvimento” desincorporado, mediante o (i) Rejeitar a atomização (Undersocialized), ou seja, desconstruir a visão de que atores econômicos são apenas agentes racionais isolados buscando maximizar ganhos. A verdadeira reciprocidade genuína não sobrevive em mercados totalmente despersonalizados, bem como, (ii) Combater a “sobresocialização” (Oversocialized), qual seja, evitar a ideia de que as pessoas agem apenas por regras culturais rígidas. A reciprocidade real nasce da interação contínua, não de obediência cega e, também, o (iii) Romper a imediação da confiança, na justa medida do reconhecimento de que, laços fortes (família, amigos próximos) geram confiança, eles podem fragmentar a sociedade em “cliques” isolados; 2. Refazer o Mundo pela Reciprocidade é (iv) Investir na “imbricação” (Embeddedness), posto pela reconstrução da economia local e nas relações sociais, de forma que, o comércio e a troca de informações sejam baseados em conexões pessoais e confiança mútua, não apenas em transações contratuais impessoais. Além disso, (v) Fortalecimento de laços “pontes” (Weak Ties). Utilizar laços fracos (conhecidos, vizinhos, colegas de outras áreas) como pontes que conectam diferentes grupos (clusters). Granovetter aponta que, paradoxalmente, laços fracos conectam mais pessoas e geram mais oportunidades inovadoras do que laços fortes, que tendem a ser redundantes, além de (vi) Fomentar a confiança de terceiros (Generalized Trust). Criar redes onde a má conduta (falta de reciprocidade) seja punida pela disseminação rápida de informações através dos laços fracos, incentivando comportamentos honestos; e 3. Resgatar a reciprocidade genuína é (vii) Resgatar a “imbricação relacional”. Valorizar as relações diretas onde a troca vai além do econômico, incluindo suporte social, confiança e emoção, essenciais para a reciprocidade genuína, assim como, (viii) Fomentar a ação coletiva. A força dos laços fracos em comunidades cria redes que permitem a organização social e a ação coletiva contra a despersonalização do desenvolvimento. Por fim, na perspectiva de Granovetter, “desfazer o desenvolvimento” significa diminuir a distância entre a economia e a estrutura social, permitindo que laços fracos conectem comunidades, gerando confiança estrutural e reciprocidade genuína em uma sociedade de redes mais densas e diversas.
A integração entre a sociologia das redes de Mark Granovetter e o Reciprocidalismo propõe uma “engenharia social de conexões” para o semiárido. Se Granovetter nos ensina que a economia está mergulhada (embedded) nas relações sociais, o Reciprocidalismo identifica que o subdesenvolvimento das terras secas é fruto de uma “desincorporação”: o Estado e o Mercado tentaram tratar o sertanejo como um átomo isolado, rompendo os fios de confiança que sustentavam a convivência com o bioma. Nesta reflexão, os Núcleos de Reciprocidade (NITs) funcionam como os nódulos de uma rede de imbricação, onde a irradiação tecnológica atua como o “laço ponte” que conecta ilhas de isolamento, mediando os conflitos através da densidade social.
O NIT COMO ARQUITETURA DE IMBRICAÇÃO (EMBEDDEDNESS)
1.0. Desfazer a Atomização do Sertanejo – O desenvolvimento tradicional, tanto estatal quanto mercantil, cometeu o erro da “subsocialização”: tratou o agricultor como um agente racional isolado que só responde a estímulos financeiros ou auxílios emergenciais. Isso gerou a anomia (falta de normas sociais de ajuda mútua).
1.1. Ação do Núcleo – O NIT promove a reincorporação econômica. Ele desfaz a atomização ao provar que a produção de alimentos e o manejo da água não são atos individuais de mercado, mas eventos sociais. Ao colocar a tecnologia de convivência dentro de um núcleo de trocas, o Reciprocidalismo garante que a economia local esteja mergulhada na confiança mútua, e não apenas no contrato impessoal.
2.0. A Força dos Laços Fracos na Irradiação Técnica – Granovetter apresenta o “paradoxo dos laços fracos”: enquanto a família (laços fortes) provê suporte, são os conhecidos e vizinhos (laços fracos) que trazem informações novas e oportunidades. No Semiárido, o subdesenvolvimento muitas vezes se manifesta em “cliques” familiares isolados que não compartilham inovações.
2.1. O NIT como ponte – O Núcleo de Reciprocidade é a instituição dos laços fracos. A “Irradiação” é, por definição, a criação de pontes. Quando um NIT irradia uma tecnologia para um vizinho de outra comunidade, ele está criando um laço fraco que conecta diferentes grupos (clusters). Isso permite que o conhecimento sobre a convivência com o Semiárido circule rapidamente, impedindo a redundância e gerando inovação coletiva contra o atraso.
CONFIANÇA ESTRUTURAL E AÇÃO COLETIVA
3.0. Fomentar a Confiança de Terceiros contra a Má Conduta – Para Granovetter, a confiança surge da estrutura da rede. Se alguém quebra a reciprocidade, a informação circula e o agente é punido socialmente. No modelo de Estado/Mercado atual, a falta de reciprocidade (corrupção ou exploração) é comum porque as redes sociais foram destruídas.
3.1. Mediação ética – O NIT estabelece a confiança generalizada. Ao mediar o conflito entre Estado e Mercado, o núcleo cria uma rede onde a reciprocidade é a norma de conduta. A irradiação técnica cria uma “vigilância do bem”: todos na rede têm interesse em manter a honestidade e a troca, pois dependem da circulação do saber e do Dom para sobreviver às crises climáticas.
4.0. Resgatar a Imbricação Relacional para Refazer o Mundo – Refazer o mundo nas terras secas, sob a ótica de Granovetter e Nizomar, significa diminuir a distância entre o “fazer dinheiro” e o “fazer comunidade”.
4.1. Refazer o Mundo – Superar a exclusão social não é dar dinheiro (Estado) nem apenas vender insumos (Mercado), mas densificar a rede social. O NIT resgata a reciprocidade genuína ao valorizar trocas que incluem suporte emocional, confiança técnica e segurança hídrica. Refazer o mundo é transformar o Semiárido em uma sociedade de redes densas, onde a tecnologia de convivência é o “adesivo” social que mantém os laços unidos e produtivos.
SÍNTESE: A REDE DA RECIPROCIDADE – A reflexão integrativa entre Mark Granovetter e o Reciprocidalismo estabelece que: (i) O progresso é conectividade social – Superar o subdesenvolvimento exige tirar o agricultor do isolamento e mergulhá-lo em redes de confiança; (ii) O NIT é um conector de pontes. Um espaço que transforma tecnologias em “laços fracos” poderosos, capazes de espalhar a autonomia por todo o território; (iii) A Reciprocidade é a estrutura da economia. O mundo é refeito quando as transações financeiras voltam a ser guiadas pelo respeito e pelo compromisso social entre as pessoas.
Mark Granovetter nos ensinou que a força de uma sociedade está nos laços que conectam mundos diferentes; o Reciprocidalismo nos mostra que, no Semiárido, o Núcleo de Reciprocidade é o nó que une esses laços. No Sertão de Granovetter, a tecnologia de convivência não é apenas um cano ou uma semente, é um fio de confiança que atravessa cercas e une vizinhos, provando que a maior riqueza não é o capital acumulado em silêncio, mas a informação generosa que circula em rede, libertando o povo através da união.