Desenvolvimento como Instrumento de Submissão

reciprocidalismoAdmin
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Com as premissas do Reciprocidalismo, fica evidente que a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Jose María Sbert, com o surgimento do mundo moderno, uma fé caracteristicamente moderna – fé no desenvolvimento – apareceu para compreender e dar sentido último às novas noções e instituições que agora dominavam. Nossas reverências profundas pela ciência e tecnologia estava, intimamente ligadas com a fé no desenvolvimento. O fortalecimento universal do Estado-nação realizou-se sob a bandeira do desenvolvimento. E uma crescente conformidade com o governo da economia, e intensificada com a fé nas suas leis, ainda lançam sobre esta fé ilustrada. A obsolescência gradual no desenvolvimento e a repentina implosão do socialismo de estado burocrático certamente representam uma redução no primado, bem como, nas manifestações concretas, da fé no desenvolvimento. Houve “desenvolvimento” e “revolução” que acham que incorporaram progresso; todavia, isso é uma ilusão. O desenvolvimento continua sendo imperativo irresistível de poder. É necessário para os que não têm poder a fim de garantir a sua submissão, assim como é necessário para os poderosos porque eles querem conservar suas posições. O desenvolvimento redefine a realidade por meio da influência múltipla do poder. A fé no desenvolvimento floresceu exuberantemente como força ideológica. O desenvolvimento conduziu uma luta contra o poder moral daquelas tradições que representavam um obstáculo para a expansão do mercado, da indústria e do Estado moderno. O desenvolvimento impeliu essas pessoas a se tornarem o seu próprio Deus e a fazer a sua própria história. Ridicularizou suas velhas crenças, medos e superstições, bem como, sua reverência pela natureza, pelo passado e pelos ancestrais. Rejeitou o gênero vernacular – a divisão oniabrangente do mundo interno e do mundo externo da pessoa na complementariedade assimétrica de homens e mulheres – como irracional, obstinado e injusto.
Esta reflexão de Jose María Sbert nos conduz à camada mais profunda do diagnóstico do subdesenvolvimento: a dimensão religiosa e ideológica. Sbert argumenta que o desenvolvimento não é apenas uma estratégia econômica, mas uma “fé” que exigiu o sacrifício das tradições e da alma vernacular para erguer o altar do Mercado e do Estado-nação. Ao cruzar essa “Fé no Desenvolvimento” com o Reciprocidalismo, visualiza-se que a Anomia não foi um efeito colateral, mas um objetivo. Para que o homem se tornasse súdito da economia, foi necessário matar o Fiandeiro que reverenciava a natureza e os ancestrais através do Dom.

A FÉ NO DESENVOLVIMENTO VS. A RITUALÍSTICA DO DOM

1.0. O Desenvolvimento como Instrumento de Submissão – Sbert afirma que o desenvolvimento é um “imperativo irresistível de poder” que garante a submissão dos despossuídos.

1.1. A Perspectiva do Reciprocidalismo – No Semiárido, essa fé manifestou-se na promessa de que a ciência (obras de engenharia isoladas) traria a salvação. Ao aceitar essa fé, o povo abandonou suas Redes de Reciprocidade – que o desenvolvimento ridicularizou como “superstição” ou “atraso”;
1.2. O Bloqueio do Progresso – O progresso foi bloqueado porque, ao perder sua bússola moral (o Dom), o sertanejo ficou à mercê de forças que ele não controla. Ele trocou a soberania da ajuda mútua pela submissão à burocracia estatal e à volatilidade do mercado.

2.0. A Destruição do “Vernacular” e a Invenção do Indivíduo Isolado – Sbert destaca o ataque do desenvolvimento ao “gênero vernacular” e à complementariedade. O desenvolvimento exige indivíduos homogêneos, desvinculados de suas raízes, para servirem como peças da maquinaria produtiva.
2.1. A Anomia como Perda de Gênero Social – O Reciprocidalismo reconhece que a força do sertão residia na divisão orgânica e na complementariedade das tarefas (o homem, a mulher, o jovem, o ancião — cada um com seu papel no ciclo do Dom). O desenvolvimento rotulou isso como “irracional”, mas, ao destruí-lo, deixou no lugar o vazio social e a exclusão.

3.0. A Implantação do Reciprocidalismo (A Heresia contra o Mito_ – Implantar o Reciprocidalismo sob a ótica de Sbert é realizar um ato de “apostasia” da fé no desenvolvimento para retornar à lealdade ao vínculo.

3.a. Restaurar o Poder Moral das Tradições – Se o desenvolvimento lutou contra as tradições, o Reciprocidalismo as utiliza como base técnica. O respeito aos ancestrais e à natureza (o “conhecimento vernacular”) é o que dá sentido ao uso da ciência. A técnica não é um Deus, mas uma ferramenta nas mãos de quem honra sua história;
3.b. Da Fé Cega à Ciência Consciente – Nizomar não rejeita a ciência, mas a retira do altar da fé para colocá-la na bancada do trabalho. No Núcleo de Reciprocidade, a tecnologia serve para fortalecer a “complementariedade assimétrica” das famílias, protegendo o modo de vida local em vez de tentar transformá-lo em uma cópia da vida urbana industrial.
3.c. Reconstituir o Homem contra o Deus do Mercado – Sbert diz que o desenvolvimento impeliu as pessoas a serem “seu próprio Deus”. O resultado foi a neurose e a miséria. O Reciprocidalismo propõe que o homem redescubra sua Fragilidade Igualitária. Ao admitir que precisamos uns dos outros (o princípio da reciprocidade), derrubamos o ídolo do indivíduo autossuficiente e reconstruímos a Comunidade Soberana.

SÍNTESE FINAL: O RENASCIMENTO DO SAGRADO SOCIAL – A reflexão de Jose María Sbert nos revela que o subdesenvolvimento é o preço que pagamos por uma fé estrangeira. O Reciprocidalismo de Nizomar Falcão é a resposta herética que o Semiárido dá ao poder mundial. Recriar a sociedade semiárida exige: (i) Desmascarar a ilusão do progresso linear – Onde a ciência é usada para escravizar e não para libertar; (ii) Validar o vernacular – Trazer de volta a reverência à natureza e aos laços familiares como a verdadeira infraestrutura do desenvolvimento; (iii) Viver o Dom como Ritual de Resistência: – Cada retribuição de honra no Núcleo é um golpe contra o “imperativo de poder” do desenvolvimento moderno.

A fé no desenvolvimento nos prometeu o céu e nos entregou a anomia; a Reciprocidade nos devolve a terra, o vizinho e a soberania de sermos, novamente, os Fiandeiros de nossa própria luz.