Desconstruir o Imaginário da Escassez e a Apatia

reciprocidalismoAdmin
Uncategorized
8 min de leitura

O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Desfazer o “desenvolvimento” na perspectiva de Cornelius Castoriadis não significa um retorno nostálgico ao passado, mas sim a ruptura com a heteronomia – a ideia de que as leis da sociedade (incluindo o crescimento econômico infinito) são naturais, dadas ou impostas por Deus/Razão. Para Castoriadis, resgatar a reciprocidade genuína implica o projeto de autonomia, onde a sociedade se auto-institui conscientemente, reconhecendo-se como criadora de suas próprias significações. Os pilares para esse processo de “refazer o mundo” são: 1. Ruptura com a heteronomia e o imaginário capitalista, denota (i) Desconstruir o “desenvolvimento” como imaginário – O desenvolvimento moderno é uma “significação imaginária social” que aprisiona a sociedade no crescimento ilimitado. Desfazê-lo exige questionar essa lógica que valoriza apenas o econômico e ignora o viver, por meio da (ii) Recusa da burocracia e apatia – Castoriadis critica a forma como a burocracia (no ocidente capitalista e na antiga URSS) gerencia a sociedade, transformando os cidadãos em espectadores passivos (apatia política). É necessário romper com essa apatia e retomar a capacidade de deliberação e a (iii) Desmistificação do “domínio tecnológico” das grandes máquinas – A técnica não é neutra; ela é parte do imaginário instituído. É preciso subordinar o desenvolvimento tecnológico às escolhas coletivas de autonomia, em vez de ser governado por ele; 2. O Projeto de autonomia na liberdade (individual e social) simboliza (iv) A “instituição imaginária da sociedade” – Perceber que as leis, valores e instituições são criações imaginárias e, portanto, podem ser transformadas. Não há leis históricas que nos obriguem a seguir este modelo de desenvolvimento e a (v) Autonomia como autogestão – A autonomia só ocorre quando os indivíduos e a coletividade criam suas próprias regras de forma consciente. Isso resgata a reciprocidade genuína, pois as trocas sociais são feitas por sujeitos lúcidos, não por engrenagens burocráticas, pela adoção de uma (vi) Práxis revolucionária – A ação política não é apenas votar, mas a “práxis” – a ação consciente que altera a própria forma como a sociedade é instituída; 3. Resgatando a reciprocidade genuína pele afirmação de uma (vii) Democracia radical – A política para Castoriadis é a deliberação coletiva e a autogestão. A reciprocidade surge em assembleias autônomas onde o poder é diluído, bem como, (viii) O “imaginário radical” – Valorizar a capacidade criadora (poiesis) dos indivíduos e grupos, permitindo que novas formas de vida social e espacial surjam, em vez de reproduzir modelos pré-moldados e uma (ix) Cooperação por meio da paideia – Educação voltada para a formação de subjetividades reflexivas, que questionam as normas instituídas e valorizam a alteridade e o “Outro”; 4. Refazer o mundo (práxis no presente) é prospectar o horizonte com uma (x) Mudança no Olhar (elucidação) – Compreender o presente através de uma reflexão sobre o passado, sem se submeter à reprodução das instituições herdadas, pelo sentimento de (xi) Criação de novos sentidos – O objetivo é a “criação de um mundo de significações imaginárias” que deem sentido ao ser humano, focando em valores como bem-viver e equidade, em contrapartida às métricas financeiras e a reflexão sobre (xii) O “Trabalho da alma” – A autonomia social depende da autonomia psíquica. Indivíduos precisam lidar com seu próprio “caos” interno para serem capazes de criar instituições sem dominação. Por fim, desfazer o desenvolvimento em Castoriadis é um ato de auto-instituição consciente, onde a humanidade assume o controle de sua história, dissolvendo o imaginário do crescimento infinito e substituindo-o por um projeto de autonomia baseada na criação e na liberdade partilhada.
A integração entre o projeto de autonomia de Cornelius Castoriadis e o Reciprocidalismo propõe uma “instituição imaginária do Semiárido”. Se Castoriadis nos alerta que a sociedade está presa à heteronomia (a crença de que as leis do mercado e da burocracia são naturais e imutáveis), o Reciprocidalismo identifica que o subdesenvolvimento das terras secas é uma “significação imaginária social” imposta: a ideia de que o sertão é inviável e que o sertanejo deve ser um espectador passivo do assistencialismo estatal ou da exploração mercantil. Nesta reflexão, os Núcleos de Reciprocidade (NITs) funcionam como espaços de auto-instituição, onde a tecnologia de convivência não é um fim em si, mas a ferramenta da poiesis (criação) que devolve ao sertanejo o poder de instituir sua própria realidade.

O NIT COMO RUPTURA COM A HETERONOMIA BUROCRÁTICA

1.0. Desconstruir o Imaginário da Escassez e a Apatia – Castoriadis critica a burocracia que transforma cidadãos em espectadores. No Semiárido, o desenvolvimento convencional tratou o agricultor como um receptáculo passivo de “ajuda” ou “crédito”, gerando uma apatia política e social.

1.1. Ação do Núcleo – O NIT opera a elucidação do presente. Ele desfaz o desenvolvimento ao desmistificar a ideia de que a tecnologia deve ser gerida por “grandes máquinas” ou burocratas distantes. Ao irradiar tecnologias, o núcleo pratica a autonomia como autogestão. O NIT media o conflito entre Estado e Mercado ao provar que a convivência com o Semiárido é uma escolha coletiva consciente, e não um destino técnico imposto por especialistas.

2.0. A Técnica subordinada à Autonomia Social – Para Castoriadis, a técnica deve ser governada pelas escolhas da coletividade. O subdesenvolvimento foi bloqueado porque a tecnologia foi usada como ferramenta de domínio (o “poder sobre” a água e a terra).

2.1. Práxis de Convivência – No NIT, a irradiação tecnológica é a instituição de novas significações. A tecnologia (cisternas, reúso de água, manejo da caatinga, recaatingamento com Spondias etc.) deixa de ser um “pacote do mercado” para se tornar uma criação social. A reciprocidade genuína ressurge quando sujeitos lúcidos decidem juntos como usar o conhecimento para o bem-viver. O núcleo substitui a “fé” no progresso técnico pela democracia radical do saber partilhado.

O IMAGINÁRIO RADICAL E A RECRIAÇÃO DO MUNDO

3.0. Criação de Novos Sentidos e a Paideia Sertaneja – Castoriadis valoriza a paideia – a educação que forma subjetividades reflexivas. O Reciprocidalismo materializa isso na formação de uma natureza civilizatória que questiona as normas instituídas.

3.1. O Trabalho da Alma no Sertão – O NIT funciona como um centro de formação de autonomia. Refazer o mundo nas terras secas significa que o agricultor lida com seu próprio “caos” (o medo da seca e da exclusão) para criar instituições (os núcleos) sem dominação. A reciprocidade genuína é fruto desse “trabalho da alma”, onde o cuidado com o Outro substitui a métrica financeira. O núcleo é o mediador que permite que novas formas de vida espacial surjam, baseadas na equidade e na liberdade partilhada.

4.0. Práxis Revolucionária contra o Crescimento Infinito – A mudança no olhar permite compreender que as leis do capital não são leis da natureza.

4.1. Refazer o Mundo – Superar a exclusão exige uma ruptura com o imaginário capitalista. O NIT refaz o mundo ao instituir um modelo de convivência que não busca o crescimento ilimitado, mas a sustentabilidade do ser. Refazer o mundo é assumir o controle da própria história. O NIT é o mediador que dissolve o conflito entre Estado e Mercado ao propor uma terceira via: a via da sociedade que se autogoverna, transformando o Semiárido em um pluriverso de autonomia e criação constante.

SÍNTESE: A SOBERANIA IMAGINÁRIA DO SERTÃO – A reflexão integrativa entre Cornelius Castoriadis e o Reciprocidalismo estabelece que: (i) O desenvolvimento é uma prisão imaginária – Superar a pobreza exige romper com a ideia de que somos “gerenciáveis” por burocracias ou mercados; (ii) O NIT é a unidade de autonomia política. Espaço de deliberação coletiva onde a tecnologia de convivência é o instrumento da liberdade, e não do controle; (iii) A reciprocidade é a práxis da criação. O mundo é refeito quando o sertanejo deixa de ser uma engrenagem burocrática para se tornar o poeta e o engenheiro de sua própria existência.

Cornelius Castoriadis nos ensinou que a sociedade é aquilo que ela ousa imaginar e instituir; o reciprocidalismo nos mostra que, no Semiárido, o Núcleo de Reciprocidade é o local dessa ousadia. No Sertão de Castoriadis, a tecnologia de convivência não é um dado da Razão, é uma criação da liberdade, provando que a maior riqueza não é o crescimento do PIB, mas a capacidade de um povo de dizer ‘nós’ e decidir o seu próprio caminhar em reciprocidade genuína.