Subordinando a Máquina à Vida pela Convivência com o Bioma Caatinga
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
Como hipotetisa o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu C. Douglas Lummis, a igualdade é um conceito que pode se confundir ao rever a noção primitiva de justiça, vingança, que tem como alvo a igualdade – olho por olho, dente por dente ou aja com os outros como espera que ajam com você. As pessoas são iguais e por suas próprias forças jamais poderão superar umas às outras de uma forma decisiva; são iguais em sua fragilidade. A igualdade de oportunidades tem realmente um efeito homogeneizante. Aceitar igualdade de oportunidades é aceitar o jogo e aceitar o jogo é aceitar a identidade do jogador. No caso da igualdade de oportunidades, a ideia de igualdade no desenvolvimento mundial pressupõe que todos os seres humanos estão, ou deveriam estar jogando no mesmo jogo. Para que todos os povos do mundo possam jogar o jogo do desenvolvimento, é preciso primeiramente serem transformados em jogadores. Para mobilizar povos e culturas para o sistema econômico mundial, seria necessário aquele mesmo processo de desligamento econômico.
Esta reflexão nos leva ao cerne do conflito entre o Desenvolvimento Homogeneizante (o “Jogo” de Lummis) e o Reciprocidalismo (a “Tia” do Reciprocidalismo). A crítica de C. Douglas Lummis expõe uma ferida profunda: para que o mundo se tornasse “desenvolvido”, foi preciso primeiro destruir o “homem comunitário” e substituí-lo pelo “jogador econômico”. No Semiárido, esse processo de “desligamento econômico” citado por Lummis é precisamente o que Nizomar Falcão chama de Anomia. Ao sermos forçados a jogar o jogo da igualdade de oportunidades em um mercado que não nos pertence, perdemos a nossa igualdade na fragilidade e na proteção mútua.
1.0. A Armadilha da Igualdade de Oportunidades – Lummis argumenta que a “igualdade de oportunidades” é um processo de homogeneização. Ela nos obriga a aceitar a identidade do jogador: o indivíduo competitivo, isolado e orientado pelo lucro.
1.1. A Conexão com o Reciprocidalismo – No Semiárido, o Estado tentou transformar o sertanejo em um “jogador” do agronegócio ou do comércio urbano. Para isso, foi necessário que ele parasse de praticar o Dom. O resultado não foi a igualdade, mas a exclusão, pois o sertanejo foi lançado em um jogo onde as regras já favoreciam quem detinha o capital inicial.
2.0. A Igualdade na Fragilidade (Justiça Primitiva) – A noção de “ajo com os outros como espero que ajam comigo” mencionada por Lummis é a base da Reciprocidade Genuína. Enquanto o Desenvolvimento prega a igualdade para competir, o Reciprocidalismo prega a igualdade para cooperar. Na fragilidade da seca, ninguém é autossuficiente. A “Justiça do Dom” não é uma transação comercial, é uma garantia de sobrevivência. Se eu te dou água hoje, não é apenas um presente; é a construção de um vínculo que garante que você terá o dever de honra de me sustentar amanhã.
3.0. Recriando a Sociedade Semiárida: Recusando o Jogo, Tecendo a Rede – Para recriar as sociedades sob a ótica do Reciprocidalismo, baseada nesta crítica de Lummis, propomos três rupturas:
3.a. Da Identidade de “Jogador” para a Identidade de “Fiandeiro” – Não queremos “igualdade de oportunidades” para competir uns contra os outros. Queremos a soberania para tecer nossa própria rede. O Fiandeiro não joga o jogo do mercado global; ele constrói a Engenharia das Almas onde o progresso é medido pelo fortalecimento do vínculo, não pelo acúmulo individual.
3.b. Do Desligamento Econômico ao Religa-mento Social – Lummis diz que foi necessário “desligar” o povo de suas culturas para torná-los jogadores. O Reciprocidalismo faz o caminho inverso: o Religa-mento; (i) Os Núcleos de Reciprocidade religam as famílias à terra e umas às outras; (ii) A tecnologia (ciência moderna) deixa de ser o “troféu do jogo” e passa a ser o “insumo do Dom”.
3.c. A Nova Justiça: A Reciprocidade como Defesa – Se somos “iguais em nossa fragilidade”, a nossa maior força é a proteção mútua. A recriação do Semiárido exige que o progresso seja desbloqueado não por mais crédito bancário (que gera dívida e anomia), mas por mais Crédito Social (que gera honra e estoque comum).
SÍNTESE FINAL: O FIM DO JOGO E O INÍCIO DA VIDA – A reflexão de Lummis nos mostra que o desenvolvimento mundial é um jogo de soma zero: para alguém ganhar, muitos têm que perder a sua identidade. O Reciprocidalismo propõe a saída deste estádio. Recriar o Semiárido é admitir que não queremos ser “iguais” no sentido de sermos cópias do modelo industrial. Queremos ser iguais no direito de exercer a nossa Reciprocidade Genuína. O progresso real não está no final da estrada de Truman ou Lummis; ele está no centro do círculo de um Núcleo de Reciprocidade, onde o Dom circula e a anomia morre.
O mercado quer que sejamos jogadores. A vida exige que sejamos irmãos. No Semiárido, a sobrevivência escolheu a fraternidade.