Descolonizar a Memória da Seca: Da Curiosidade à Potência

reciprocidalismoAdmin
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O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. A perspectiva de Malick Ndiaye, historiador da arte e pesquisador senegalês do IFAN (Institut Fondamental d’Afrique Noire), sobre “desfazer o desenvolvimento” para refazer o mundo com base na reciprocidade genuína, está fundamentada na descolonização do saber, da cultura e das instituições museais. Ele propõe uma ruptura com a lógica extrativista colonial, que enxerga o desenvolvimento como uma imposição ocidental que congela a África no passado. Para Ndiaye, resgatar a reciprocidade genuína implica: (i) Descolonizar os museus e a memória – Transformar instituições como o museu Théodore Monod, em Dakar, de um espaço etnográfico colonial (que tratava objetos africanos como curiosidades) para um local de produção de contranarrativas e novos futuros. Isso envolve recontextualizar obras de arte e redefinir o patrimônio a partir da perspectiva nativa, não da europeia; (ii) Criar novas praxes patrimoniais – Desenvolver “laboratórios de imaginação” que questionem o extrativismo cultural e promovam a restituição, não apenas física de objetos, mas a “instituição” de novas formas de relacionamento entre arte, cultura e sociedade; (iii) Crítica à “sociedade de apropriação” – Ndiaye investiga o “ethos do desenvolvimento” e a ética Ceddo, confrontando a apropriação cultural e econômica que corrói os laços comunitários e a reciprocidade; (iv) Valorização da arte contemporânea como contranarrativa – Utilizar a Bienal de Dakar e exposições contemporâneas (como Picasso em Dakar) para reexaminar o passado colonial e reimaginar a identidade africana no presente; (v) Pensamento prospectivo e autocrítico – Adotar uma abordagem que, segundo seus estudos sobre o Senegal, combina a autocrítica com a prospecção de soluções locais, sustentáveis e modernas, desvinculadas da dependência ocidental. Por fim, para Ndiaye, “refazer o mundo” passa por dar voz aos artistas e pensadores africanos para reescreverem suas próprias histórias, transformando instituições coloniais em espaços de diálogo, igualdade e produção de sentido.
A integração entre a práxis museológica e curatorial de Malick Ndiaye e o Reciprocidalismo propõe uma “curadoria da sobrevivência” para o Semiárido. Se Ndiaye nos convoca a descolonizar os museus e a memória para libertar o futuro africano, o Reciprocidalismo identifica que o subdesenvolvimento das terras secas é uma “etnografia da escassez” imposta pelo Estado e pelo Mercado, que congelou o sertanejo em uma imagem de vitimização e atraso. Nesta reflexão, os Núcleos de Reciprocidade (NITs) funcionam como laboratórios de imaginação e contranarrativa, onde a tecnologia de convivência não é um objeto exótico de museu, mas uma ferramenta viva de restituição da dignidade e soberania.

O NIT COMO MUSEU VIVO E ESPAÇO DE RESTITUIÇÃO

1.0. Descolonizar a Memória da Seca: Da Curiosidade à Potência – Ndiaye critica museus que tratam a cultura local como curiosidade etnográfica. No Semiárido, o desenvolvimento convencional transformou a seca em um espetáculo de miséria para justificar o extrativismo político.

1.1. Ação do Núcleo – O NIt atua como um museu de novos uturos. Ele desfaz o desenvolvimento ao recontextualizar o patrimônio técnico do sertão (as cisternas, o manejo da caatinga, as sementes). Em vez de “objetos de assistência”, estas tecnologias tornam-se ativos de liberdade. O NIT media o conflito entre Estado e Mercado ao produzir uma contranarrativa: o sertão não é um lugar que precisa de “salvação” externa, mas um território de produção de sentido e soluções modernas e sustentáveis.

2.0. Praxes Patrimoniais: Restituição da Autonomia – Para Ndiaye, a restituição vai além do objeto físico; é a instituição de novas formas de relacionamento. O subdesenvolvimento foi bloqueado porque o Estado e o Mercado “se apropriaram” da capacidade criativa do sertanejo.

2.1. Laboratório de Imaginação – No NIT, a irradiação da tecnologia é a restituição da autonomia. Quando um núcleo compartilha o saber sobre tecnologias de convivência, ele está restituindo ao agricultor o seu direito de imaginar e construir o próprio destino. A reciprocidade genuína substitui a “sociedade de apropriação” por uma rede de diálogo e igualdade, onde o conhecimento circula para fortalecer o coletivo, e não para ser extraído como mercadoria.

A ARTE DA CONVIVÊNCIA COMO CONTRANARRATIVA

3.0. Crítica ao Ethos Extrativista e a Ética do Cuidado – Ndiaye confronta o ethos do desenvolvimento que corrói os laços comunitários. O Reciprocidalismo vê no assistencialismo e no mercado as forças que desintegraram a ética do Dom.

3.1. Ação Estética e Social – O NIT é a bienal da convivência. Ele valoriza a “arte contemporânea” de viver no Semiárido – a engenhosidade do agricultor em criar sistemas complexos de equilíbrio ambiental. Refazer o mundo nas terras secas exige um Pensamento Prospectivo que una a memória ancestral (a ética do cuidado) com a tecnologia moderna (irradiação técnica). O NIT media os conflitos ao estabelecer que a cultura local é a base intelectual para qualquer solução técnica viável.

4.0. Refazer o Mundo: Dar Voz aos Sujeitos do Território – Para Ndiaye, refazer o mundo exige que os próprios sujeitos escrevam suas histórias.

4.1. Mediação Ética – O NIT garante que o sertanejo deixe de ser um “item de catálogo” das políticas de desenvolvimento e passe a ser o curador de sua realidade. Refazer o mundo é transformar o “vazio” das terras secas em um espaço de diálogo e produção de sentido. A reciprocidade genuína é o motor que permite que a identidade sertaneja se reafirme no presente, desvinculada da dependência ocidental e centrada na capacidade criativa de quem habita o bioma/ecossistema.

SÍNTESE: A CURADORIA DO DOM SERTANEJO – A reflexão integrativa entre Malick Ndiaye e o Reciprocidalismo estabelece que: (i) O Desenvolvimento é uma narrativa colonial – Superar a pobreza exige reescrever a história do Semiárido a partir da potência, não da carência; (ii) O NIT é um laboratório de restituição – Espaço onde a técnica e a cultura se unem para devolver ao povo a soberania sobre sua própria memória e futuro; (iii) A Reciprocidade é a obra de arte social – O mundo é refeito quando as relações de troca genuína substituem o extrativismo cultural e econômico, gerando igualdade e dignidade.

Malick Ndiaye nos ensinou que descolonizar um museu é abrir as janelas para o futuro de um povo; o Reciprocidalismo nos mostra que, no Semiárido, o Núcleo de Reciprocidade é onde o sertanejo deixa de ser visto como uma ‘peça do passado’ para ser o autor do seu amanhã. No Sertão de Ndiaye, a tecnologia de convivência é a contra-narrativa mais poderosa, provando que a maior riqueza não está naquilo que se guarda em vitrines, mas naquilo que se irradia em reciprocidade sob o sol.