Descolonizar o Desenvolvimento: O Fim do Plano Tecnocrático

reciprocidalismoAdmin
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O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Desfazer o desenvolvimento para refazer o mundo na perspectiva de Mamadou Diouf implica uma ruptura radical com o modelo hegemônico ocidental (capitalista e tecnocrático) e o resgate de um “socialismo africano” ou “humanismo comunitário”. Para Dia, a reciprocidade genuína só é possível mediante um desenvolvimento endógeno que priorize os valores humanos e a dignidade coletiva em detrimento da acumulação econômica. Os pilares dessa perspectiva para “refazer o mundo” são: 1. Desconstrução do modelo colonial/desenvolvimentista, significando a (i) Rejeição da modernidade ocidental – Dia via o capitalismo como uma extensão do colonialismo, falho em suas soluções e “senil” em suas instituições. Desfazer o desenvolvimento significa recusar a ideia de que o progresso linear ocidental é o único caminho e a (ii) Ruptura com o individualismo – Combater a visão que transforma o ser humano em mero instrumento de produção, substituindo-a por uma perspectiva humanista e social; 2. Resgate da reciprocidade genuína e valores comunitários, representando (iii) Socialismo africano (participativo) – Basear a sociedade nos valores comunitários pré-coloniais, onde a terra e o trabalho têm caráter coletivo, promovendo a autogestão e a participação rural (animação rural), (iv) Síntese humanista – Dia propunha um socialismo que sintetizasse valores individuais e socialistas, com raízes culturais locais, alinhado tanto com crenças religiosas (cristãs/muçulmanas) quanto com a cultura africana (Négritude) e a (v) Cooperação em vez de competição – Substituir a busca pelo lucro individual pela valorização do homem e sua relação com a comunidade; 3. Ações para “refazer o mundo” (reconstrução), exprimindo (vi) Animação rural e autogestão – Colocar o homem do campo no centro do planejamento do progresso, capacitando-o para ser sujeito de sua própria emancipação, em vez de objeto de planos tecnocráticos, a (vii) Reapropriação da identidade – Revalorizar a cultura africana e o “ser africano” (negritude) como base intelectual e moral para o desenvolvimento, rejeitando a submissão cultural ao ocidente e a (viii) Política de “investimento humano” – Focar na construção do cidadão e na reconstrução do tecido social e econômico, com ênfase na educação e na conscientização, mais do que no crescimento econômico puro. Por fim, a perspectiva de Mamadou Diouf para refazer o mundo exige a descolonização do pensamento econômico, priorizando o ser humano (a pessoa) sobre a mercadoria e a reciprocidade comunitária sobre a exploração individualista.
A integração entre o humanismo comunitário de Mamadou Diouf e o Reciprocidalismo propõe uma “descolonização do sertão”. Se Mamadou Diouf nos ensina que o desenvolvimento imposto pelo ocidente é uma extensão do colonialismo que mata a alma das comunidades, o Reciprocidalismo identifica que o subdesenvolvimento das terras secas é uma forma de “senilidade institucional”: o Estado e o Mercado tentam aplicar fórmulas tecnocráticas que ignoram a negritude sertaneja – a identidade profunda de quem vive e resiste no Semiárido. Nesta reflexão, os Núcleos de Reciprocidade (NITs) funcionam como as unidades de animação rural propostas por Dia: espaços de autogestão onde a tecnologia de convivência é o instrumento de emancipação do homem do campo.

O NIT COMO CÉLULA DE INVESTIMENTO HUMANO

1.0. Descolonizar o Progresso: O Fim do Plano Tecnocrático – Mamadou Diouf criticava os planos de desenvolvimento que tratavam o homem como objeto. No Semiárido, o “desenvolvimentismo” sempre foi uma exportação de modelos urbanos e industriais que não cabem na realidade das terras secas.

1.1. Ação do Núcleo – O NIT opera a reapropriação da identidade. Ele desfaz o desenvolvimento ao colocar o sertanejo no centro do planejamento. Ao irradiar tecnologias de convivência, o núcleo não está “entregando um produto”, mas realizando um investimento humano. O NIT media o conflito entre Estado e Mercado ao provar que a modernização técnica só faz sentido se for endógena, ou seja, se nascer da cultura e das necessidades reais de quem habita o território.

2.0. Animação Rural e Autogestão Sertaneja – Para Dia, o socialismo comunitário exige que a terra e o trabalho tenham caráter coletivo. O subdesenvolvimento foi bloqueado porque o Mercado fragmentou a posse e o Estado centralizou a decisão.

2.1. Cooperação em vez de Competição – No NIT, a irradiação da tecnologia é a própria animação rural. Ela capacita o agricultor para ser o sujeito de sua emancipação. A reciprocidade genuína – o dar, receber e retribuir – restaura o caráter coletivo do trabalho sertanejo. O núcleo torna-se uma zona de autogestão onde a tecnologia (cisternas, bancos de sementes, reuso de água) é um bem comum, protegendo a comunidade da exploração individualista do capital.

RECONSTRUÇÃO DO TECIDO SOCIAL E ÉTICO

3.0. Síntese Humanista: Fé, Cultura e Técnica – Mamadou Dia propunha uma síntese entre valores espirituais e sociais. O Reciprocidalismo materializa isso ao unir a ética do Dom (espiritual/antropológica) com a tecnologia de convivência (técnica).

3.1. Refazer o Mundo – Superar a exclusão nas terras secas exige desfazer a visão de que o sertanejo é um “atrasado”. O NIT refaz o mundo ao integrar a negritude sertaneja (o orgulho da cor, do solo e da história) com a ciência moderna. A reciprocidade genuína não é imposta; ela flui das raízes culturais locais, criando uma economia que prioriza a Pessoa sobre a mercadoria.

4.0. Política de Reciprocidade contra a “modernidade senil” – Dia via o capitalismo como uma instituição “senil” para as necessidades africanas. O Reciprocidalismo vê o assistencialismo e o livre mercado puro como insuficientes para o Semiárido.

4.1. Mediação ética – O NIT é o mediador que substitui a lógica da inimizade e da competição pela lógica da fraternidade técnica. Refazer o mundo é reconstruir o tecido social por meio da educação e da conscientização. Quando um núcleo irradia uma tecnologia, ele está praticando o socialismo participativo de Dia: garantindo que a riqueza (o saber e a água) circule para todos, impedindo que o Estado ou o Mercado sequestrem a dignidade do povo das terras secas.

SÍNTESE: O SOCIALISMO DA CONVIVÊNCIA – A reflexão integrativa entre Mamadou Dia e o Reciprocidalismo estabelece que: (i) O progresso é endógeno – Superar a pobreza exige que a força de mudança venha de dentro da cultura sertaneja; (ii) O NIT é a escola da autonomia – Espaço de “animação rural” onde o agricultor deixa de ser objeto de planos alheios para ser o arquiteto do seu destino; (iii) A Reciprocidade é o humanismo prático – O mundo é refeito quando a cooperação comunitária substitui a exploração, tornando o ser humano o objetivo final de toda técnica.

Mamadou Diouf nos ensinou que nenhum povo se desenvolve se for obrigado a esquecer quem é; o Reciprocidalismo nos mostra que, no Semiárido, o Núcleo de Reciprocidade é onde o sertanejo lembra de sua força. No Sertão de Mamadou Diouf, a tecnologia de convivência não é um presente do colonizador, é a ferramenta da Negritude Sertaneja que prova que a maior modernidade é a partilha, e o maior progresso é a dignidade de quem vive em comum sob o mesmo sol.