Ficar com o Problema da Terra Seca

reciprocidalismoAdmin
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O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Desfazer o desenvolvimento para refazer o mundo na perspectiva de Donna Haraway não significa um retorno nostálgico a um estado natural primitivo, mas sim uma reconfiguração radical das relações entre humanos e não-humanos (animais, plantas, tecnologias, terra) no que ela chama de Chthuluceno. O objetivo é superar a “reciprocidade” baseada na exploração do Capitaloceno/Antropoceno e substituí-la por uma simbiose, um “fazer-com” (sympoiesis) que respeite a integridade própria de cada ser. Os caminhos fundamentais propostos por Haraway para este resgate são: 1. “Ficar com o problema” (Staying with the Trouble); isto é, abandono de soluções fáceis. Haraway argumenta que não devemos buscar soluções apocalípticas (o fim do mundo) ou otimistas (tecnologia salvadora), mas “ficar com o problema” de viver e morrer em uma terra danificada e response-ability (habilidade de resposta). Desenvolver a capacidade de responder ao outro (não-humano) e assumir responsabilidade coletiva pelas cicatrizes na terra; 2. Fazer parentes, não bebês (Making Kin, Not Babies), mediante novas configurações familiares. A reciprocidade genuína exige que a parentela (kin) seja feita por laços de cuidado e afinidade, não apenas por sangue ou biologia, como também, parentes multiespécies. Reconhecer animais, plantas e ecossistemas como membros da nossa família estendida e co-habitantes do mundo, para superação do indivíduo. Focar na “simpoiésis” (produção conjunta) em vez da “autopoiésis” (auto-produção/individualismo); 3. Saberes localizados e parciais (Situated Knowledges), em face da rejeição do “truque de Deus”. Desfazer a visão científica disfarçada de neutralidade que observa “tudo a partir de lugar nenhum”, para que se tenha Conhecimento corporificado. Valorizar saberes situados, parciais e corporificados que reconhecem sua posição social e política. Isso permite uma “reciprocidade” sem a falsa igualdade que apaga as diferenças e violências; 4. Viver no Chthuluceno (confabular novos mundos) é prospectar naturezas-culturas. Parar de separar natureza (objeto passivo) e cultura (humano ativo). Haraway propõe “naturezas-culturas”, onde histórias e mundos são produzidos conjuntamente, mediante narrativas SF (String Figures/Speculative Fabulation). Usar narrativas alternativas, ficção científica e fábulas especulativas para imaginar e praticar outros modos de vida, criando “laços” multiespécies (as “string figures”), para plantationoceno. Reconhecer que o modelo de desenvolvimento atual é herdeiro das plantações coloniais e capitalistas e, portanto, romper com a lógica de extração; 5. Resgatar a reciprocidade genuína, é encontrar espécies companheiras. A relação com cães, por exemplo, é usada por Haraway para exemplificar uma ética de encontro, onde humanos e animais se transformam mutuamente, reconhecendo a agência do outro, em uma reparação regenerativa. A reparação não é “consertar” o mundo para o consumo humano, mas regenerar a capacidade de regeneração da Terra em parceria com outras espécies. Por fim, refazer o mundo com Haraway envolve desfazer a visão do mundo como recurso, abraçar a complexidade técnica e biológica do Ciborgue, e criar, coletivamente, parentescos onde a “reciprocidade” é um processo contínuo de cuidado, “fazer-com” e coabitação.
A integração entre o pensamento tentacular de Donna Haraway e o Reciprocidalismo propõe uma “simpoiése do sertão”. Se Haraway nos convoca a “ficar com o problema” em uma terra danificada, o Reciprocidalismo identifica que o subdesenvolvimento das terras secas é uma cicatriz do capitaloceno – um subproduto de um modelo de progresso (desenvolvimento) que tratou o semiárido como uma plantation de recursos ou um depósito de populações assistenciadas. Nesta reflexão, os Núcleos de Reciprocidade (NIT) funcionam como centros de parentesco multiespécies, onde as tecnologias de convivência são o fio condutor de uma “brincadeira de cama de gato” (String Figures) que tece novos mundos entre humanos, plantas e máquinas.

O NIT COMO ESPAÇO DE SIMPOIÉSE (FAZER-COM)

1.0. Ficar com o Problema da Terra Seca – Haraway rejeita o otimismo da tecnologia salvadora (Estado) e o desespero do apocalipse econômico (Mercado). O subdesenvolvimento foi bloqueado por soluções que tentavam “consertar” o Semiárido de fora para dentro.

1.1. Ação do Núcleo – O NIT é a prática de ficar com problema. Ele não busca uma solução final mágica, mas desenvolve a response-ability (habilidade de resposta). As tecnologias de convivência não são ferramentas de domínio, mas modos de responder às cicatrizes da terra. O NIT media o conflito ao mostrar que o progresso não é a erradicação da seca, mas a capacidade coletiva de viver e morrer bem em parceria com o bioma, assumindo a responsabilidade pelas feridas do passado colonial.

2.0. Parentesco Multiespécies contra o Plantationoceno – O modelo de desenvolvimento atual é herdeiro das plantações coloniais: extração, monocultura e hierarquia. O Reciprocidalismo rompe com isso ao propor o Dom.

2.1. Fazer Parentes, não Bebês (ou Mercadorias) – No NIT, a Umbu-cajazeira, a Caatinga, a abelha etc. são reconhecidos como espécies companheiras. A reciprocidade genuína não ocorre apenas entre humanos, mas no “fazer-com” essas espécies. O NIT transforma o agricultor de um “indivíduo autopoiético” (focado no lucro ou na sobrevivência isolada) em parte de uma rede simpoiética. Refazer o mundo nas terras secas significa criar laços de cuidado onde a planta e a terra são membros da família estendida, mediando a ganância do Mercado e a frieza do Estado.

SABERES SITUADOS E NARRATIVAS DE REPARAÇÃO

3.0. Conhecimento Corporificado contra o “Truque de Deus” – Haraway critica a ciência neutra que observa “tudo de lugar nenhum”. O Estado e o Mercado impõem um desenvolvimento baseado nesse olhar abstrato e universalista.

3.1. Saberes Localizados – O NIT é o lugar do saber situado. Ele valoriza o conhecimento corporificado do sertanejo – aquele que sabe onde a água corre e como o vento sopra. A irradiação técnica não é a imposição de uma “verdade” superior, mas a partilha de uma perspectiva parcial e política que reconhece sua posição no mundo. Essa reciprocidade sem falsas igualdades permite que cada núcleo seja uma intervenção única na saúde da Terra, contrapondo-se à padronização excludente do sistema tradicional.

4.0. O Ciborgue Sertanejo e a Reparação Regenerativa – Haraway abraça a complexidade técnica e biológica do Ciborgue (a fusão entre o orgânico e o tecnológico). O Reciprocidalismo materializa isso na Tecnologia de Convivência.

4.1. Refazer o Mundo – O NIT media o conflito entre o biológico e o técnico. O sertanejo no núcleo é um ciborgue reciprocidário: ele usa a tecnologia (bombas com placas solares, irrigação de precisão, ordenhadeiras mecânicas, tanques de resfriamento etc.) não para devorar o planeta, mas como uma extensão de seu cuidado para com as outras espécies. A reparação regenerativa no semiárido não é “voltar ao passado”, mas confabular novos mundos onde a tecnologia e a natureza-cultura dançam juntas. Refazer o mundo é regenerar a capacidade da própria Terra de se regenerar, em uma parceria contínua de coabitação e “fazer-com”.

SÍNTESE: A TEIA DA RECIPROCIDADE TENTACULAR – A reflexão integrativa entre Donna Haraway e o Reciprocidalismo estabelece que: (i) O Desenvolvimento é uma narrativa SF (fábula especulativa) – Devemos parar de contar a história da “falta” e começar a praticar a história do “fazer-com” o bioma; (ii) O NIT é um laboratório de parentesco. Um espaço onde humanos e não-humanos se tornam parentes por meio do cuidado técnico e da reciprocidade do Dom; (iii) A Reciprocidade é um processo contínuo – O mundo é refeito quando aceitamos que a nossa sobrevivência é inseparável da saúde das nossas espécies companheiras e da integridade da terra danificada.

Donna Haraway nos ensinou que ninguém vive sozinho; o Reciprocidalismo nos mostra que, no Semiárido, o Núcleo de Reciprocidade é onde aprendemos a fazer parentes com a Caatinga. No Sertão de Haraway, a tecnologia de convivência é o fio da ‘cama de gato’ que passamos de mão em mão, provando que a maior riqueza não é o que extraímos da terra, mas a nossa habilidade de responder ao seu chamado e criar, em conjunto, um futuro onde todos os seres possam florescer na simbiose do cuidado.