Relativismo Cultural contra a Soberba do Desenvolvimento

reciprocidalismoAdmin
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O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Desfazer o desenvolvimento na perspectiva de Michel de Montaigne não significa um retorno literal à idade da pedra, mas sim uma desconstrução cética e existencial dos excessos da “civilização” ocidental para resgatar a nossa humanidade natural. Para Montaigne, a verdadeira reciprocidade genuína reside na simplicidade, na experiência direta e na aceitação da alteridade, valores que ele observou nos povos nativos do novo mundo (“canibais”), que viviam mais próximos da natureza do que os europeus de sua época. Os pilares para “refazer o mundo” sob o olhar de Montaigne: 1. Desconstruir a “barbárie” da civilização, mediante um (i) Relativismo cultural – Montaigne nos convida a entender que “cada um chama de barbárie o que não é seu costume”. Para resgatar a reciprocidade, devemos desaprender a superioridade ocidental e reconhecer que os “selvagens” tupinambás, em sua simplicidade, viviam em maior harmonia do que os europeus, cujos costumes eram marcados por inveja, traição e avareza e uma (ii) Crítica à soberba intelectual. Desfazer o desenvolvimento exige ceticismo. Montaigne duvidava da capacidade da razão humana de encontrar verdades absolutas, defendendo que o excesso de “cultivo” intelectual e técnico nos afasta da natureza; 2. Retorno à simplicidade e à natureza, para (iii) Viver em conformidade com a natureza. Os povos “selvagens” que Montaigne descreve e admirava, viviam sem o acúmulo de riqueza, sem distinção entre ricos e pobres, e sem a necessidade de escravos. Refazer o mundo implica valorizar a vida simples e a satisfação com o necessário, contrapondo-se ao consumo desenfreado e à busca constante por conforto penoso, mediante (iv) Valorização das experiências pessoais. Montaigne acreditava que o conhecimento verdadeiro vem da experiência pessoal e não de livros ou dogmas; 3. Resgate da reciprocidade genuína, ocorre por uma (v) “Ação fria e desinteressada” – Para uma relação autêntica, Montaigne sugere evitar a “paixão e aspereza de desejo”, que obscurece o raciocínio e impede a calma consideração do outro. A verdadeira amizade e a reciprocidade nascem da liberdade, não da necessidade ou da troca mercadológica e pela capacidade de (vi) Abertura à alteridade. O contato com o diferente (o novo mundo) é a chave para o autoconhecimento. A reciprocidade genuína ocorre quando, em vez de dominar o outro (ou sua cultura), permitimo-nos ser espelhados por ele; 4. Pedagogia e autoconhecimento é (vii) Formar o julgamento, não a memória. Montaigne criticava uma educação que embrutecia pelo excesso de informações (desenvolvimento intelectual dogmático). A alternativa é uma formação focada no discernimento, na moderação e no conhecimento de si mesmo (“O que sei?” – Que sais-je?) e pelo (viii) Aprender a morrer (viver no presente) – Ao desmistificar a morte e focar no presente, o indivíduo liberta-se das angústias geradas pela imaginação e pela busca ansiosa por progresso. Enfim, para Montaigne, refazer o mundo é um ato de “retornar à casa” de nossa natureza, onde a “selvageria” é apenas a pureza original, livre do artifício e da crueldade que chamamos de civilização.
A integração entre o ceticismo humanista de Michel de Montaigne e o Reciprocidalismo propõe uma “pedagogia do desaprendizado” para o semiárido. Se Montaigne nos ensina que a civilização muitas vezes nos torna mais bárbaros do que os “selvagens” que desprezamos, o Reciprocidalismo identifica que o subdesenvolvimento das terras secas é uma invenção da soberba intelectual e técnica do Estado e do Mercado. Nesta reflexão, os Núcleos de Reciprocidade (NITs) funcionam como a “casa da natureza” de Montaigne, onde o sertanejo resgata sua pureza original e sua autonomia por meio do discernimento prático, mediando os conflitos entre a barbárie burocrática e a avareza mercadológica.

O NIT COMO ESPAÇO DE DESCONSTRUÇÃO DA BARBÁRIE “CIVILIZADA”

1.0. Relativismo Cultural contra a Soberba do Desenvolvimento – Montaigne argumentava que chamamos de “bárbaro” aquilo que foge aos nossos costumes. O subdesenvolvimento do Semiárido foi construído por um olhar externo que considerava a vida no sertão inferior por não seguir o modelo de acúmulo europeu/capitalista.

1.1. Ação do Núcleo – O NIT é o lugar onde se pratica o Relativismo Cultural. Ele desfaz a ideia de que o sertão precisa ser “salvo” por modelos externos. Ao valorizar tecnologias de convivência que respeitam a simplicidade e a ecologia local, o núcleo prova que a harmonia sertaneja não é “atraso”, mas uma forma de sabedoria superior. O NIT media o conflito ao mostrar ao Estado e ao Mercado que a verdadeira civilização reside na satisfação com o necessário e não na dependência de auxílios ou de consumo penoso.

2.0. Formar o Julgamento contra a Memória Dogmática – Para Montaigne, a educação “civilizada” embrutece ao focar em informações dogmáticas em vez do discernimento. O subdesenvolvimento foi bloqueado por uma educação que ensinava o sertanejo a decorar manuais técnicos inúteis para a sua realidade.

2.1. Pedagogia da autonomia – No NIT, a irradiação da tecnologia não é um dogma a ser memorizado, mas uma ferramenta para formar o julgamento. O agricultor aprende a perguntar: “Que sais-je?” (O que sei?). Ele testa a tecnologia na prática sensorial, desconfiando de verdades absolutas e confiando na sua própria experiência. Isso cria um indivíduo que não é mais “sujeitado” pela técnica, mas que a utiliza com moderação para o bem viver.

O RESGATE DA NATUREZA E DA ALTERIDADE

3.0. A “ação fria” e a amizade desinteressada – Montaigne via na amizade pura a forma mais alta de relação humana, longe da “paixão e aspereza” do desejo de ganho. A anomia social no sertão é fruto de relações baseadas na necessidade extrema (Estado) ou na troca fria (Mercado).

3.1. Reciprocidade Genuína – O NIT restabelece a amizade montaigniana. A troca do Dom (irradiação de tecnologias ou saberes) é uma ação “desinteressada” no sentido mercantil, mas profundamente interessada na liberdade do outro. O núcleo é o espaço onde o vizinho deixa de ser um concorrente para ser um espelho. Superar o subdesenvolvimento é, portanto, retornar a essa simplicidade onde a vida comunitária é guiada pela calma consideração do outro e pela abertura à alteridade.

4.0. Viver no presente contra a ansiedade do desenvolvimento – Montaigne defendia que “aprender a morrer” é aprender a viver sem as angústias do futuro. O desenvolvimento moderno mantém o sertão em eterna angústia, buscando um “progresso” que nunca chega.

4.1. Refazer o Mundo – O NIT é a prática de viver o presente. Por meio da tecnologia de convivência, o agricultor estabiliza sua existência hoje, libertando-se das promessas vazias do Estado. Refazer o mundo nas terras secas significa “retornar à casa” da nossa natureza humana, onde a dignidade não depende da riqueza acumulada, mas da qualidade da nossa alma e da pureza dos nossos laços sociais.

SÍNTESE: A SABEDORIA DA CONVIVÊNCIA – A reflexão integrativa entre Michel de Montaigne e o Reciprocidalismo estabelece que: (i) O Desenvolvimento é artifício – Superar a exclusão exige despir-se da arrogância técnica e abraçar a simplicidade inteligente do sertão; (ii) O NIT é a heterotopia da liberdade – Um espaço onde o discernimento pessoal vale mais que o lucro corporativo ou a ordem estatal; (iii) A reciprocidade é a nossa natureza original. O mundo é refeito quando deixamos de querer dominar a terra e as pessoas para simplesmente coexistirmos em um intercâmbio de saberes e humanidade.

Michel de Montaigne nos ensinou que o trono mais alto do mundo ainda é o assento do nosso próprio ser; o Reciprocidalismo nos mostra que, no Semiárido, o Núcleo de Reciprocidade é onde o sertanejo recupera esse trono. No Sertão de Montaigne, o progresso não é uma estrada em linha reta, é o círculo da amizade ao redor de uma árvore nativa, provando que a maior barbárie é a indiferença, e a maior civilização é o abraço recíproco entre quem vive em paz com o seu destino e com a sua terra.