NIT como Espaço de Des-distanciamento

reciprocidalismoAdmin
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O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Desfazer o “desenvolvimento” na perspectiva de Elias Canetti não significa um retorno nostálgico a um passado primitivo, mas sim uma inversão radical dos processos de poder, dominação e medo que moldaram a civilização moderna. Para Canetti, especialmente em sua obra-prima Massa e Poder (1960), a história da humanidade é uma história de violência disfarçada de progresso, onde a sobrevivência é baseada na morte do outro. Para resgatar a reciprocidade genuína, Canetti propõe um “desfazer” (Entwandlung ou desmascaramento) que passa por: 1. Desmascarar o Medo do Toque (A Reciprocidade Oculta) – Canetti argumenta que o homem moderno tem um medo patológico do toque do desconhecido. A estrutura social (“desenvolvimento”) foi construída para nos separar; logo é fundamental (i) Refazer o mundo – Criar espaços e dinâmicas onde o toque e a proximidade física não gerem pânico, mas sim alívio e igualdade. A “massa” (Crowd) é, para ele, o local onde esse medo é superado e todos se tornam iguais, mediante resgate da (ii) Reciprocidade – Aceitar que a verdadeira conexão humana ocorre quando as barreiras individuais caem, permitindo uma fusão temporária onde o “eu” não se sente ameaçado pelo “outro”; 2. Desmantelar a paranoia do poder e a “sobrevivência”. O poder, segundo Canetti, é intrinsecamente paranoico e se alimenta da “sobrevivência” – a necessidade de se sentir vivo enquanto outros morrem para (iii) Desfazer o desenvolvimento – Desarticular as hierarquias que permitem que um indivíduo ou grupo se alimente da destruição (física ou simbólica) de outros. Isso implica questionar o comando e a obediência cega, por meio da (iv) Reciprocidade – Substituir a “sobrevivência” pela “metamorfose”. Canetti propõe o “guardião das metamorfoses” como alternativa ao ditador/paranoico. A metamorfose é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de assumir múltiplas formas, gerando empatia em vez de dominação; 3. Subverter a massa fechada (cristais de massa). Canetti distingue massas abertas (inclusivas) de massas fechadas (cristais de massa, como exércitos, religiões organizadas ou partidos), que se alimentam de inimizade e ódio. Importante (v) desfazer o desenvolvimento – Desconstruir os “cristais de massa” que segregam a humanidade em “nós” contra “eles”, usando a (vi) reciprocidade para fomentar massas abertas e temporárias que buscam a igualdade genuína e a liberdade do toque, sem a necessidade de um inimigo externos; 4. O Ofício da escuta e as metamorfoses – Para Canetti, o “ofício do poeta” é uma forma de resistência: escutar as vozes que o poder silencia e passar por metamorfoses para entender a vida alheia, com vistas a (vii) refazer o mundo – Resgatar a reciprocidade genuína por meio da escuta ativa e da capacidade de se transformar no “outro”. É uma abordagem poético-ética, não política-estrutural e da (viii) reciprocidade – Entender que a reciprocidade não é uma troca de mercadorias, mas uma troca de sensibilidades e narrativas. Por fim, desfazer o desenvolvimento em Canetti é desparanoizar a sociedade, desconstruindo a necessidade de ser o “último a sobreviver” e permitindo que a vida humana seja redefinida pela metamorfose (empatia) e pelo toque (proximidade).
A integração entre a densa teoria de Elias Canetti e o Reciprocidalismo propõe uma “Cura da Paranoia” no Semiárido. Se para Canetti o poder é o desejo de sobreviver à morte do outro, o subdesenvolvimento das terras secas é a face paranoica de um sistema que se sente “vivo” (desenvolvido) enquanto mantém o sertanejo “moribundo” (subdesenvolvido). Os Núcleos de Reciprocidade (NIT) surgem como espaços de Metamorfose e Proximidade, onde a técnica de convivência serve para derrubar as barreiras do “medo do toque” impostas pelo Estado e pelo Mercado.

A METAMORFOSE DO SERTÃO CONTRA A PARANOIA DO PODER

1.0. O NIT como Espaço de “Des-distanciamento” – Canetti afirma que a civilização moderna criou o “medo do toque” para nos separar e hierarquizar. O assistencialismo estatal e o mercado segregador funcionam como barreiras que impedem o toque real entre as pessoas e a terra.

1.1. A superação do Alheamento – O Núcleo de Reciprocidade desfaz esse desenvolvimento paranoico. Ele é um espaço de proximidade física e técnica. No NIT, o agricultor “toca” a tecnologia e o vizinho. A Irradiação é o alívio de Canetti: é o momento em que a barreira do “cada um por si” (paranoia do mercado) cai, e todos se tornam iguais na posse do saber. O NIT transforma a “massa fechada” da dependência política em uma “massa aberta” de cooperação técnica.

2.0. Substituir a “Sobrevivência” pela “Metamorfose” – Para Canetti, o poderoso quer ser o “último sobrevivente”. O subdesenvolvimento é bloqueado porque o Estado e o Mercado agem como sobreviventes: o Estado sobrevive através do voto do faminto, e o Mercado sobrevive por meio da dívida do pobre.

2.1. O Guardião das Metamorfoses – O Reciprocidalismo propõe que o núcleo seja o “guardião das metamorfoses”. Em vez de um ditador técnico (o burocrata), o NIT fomenta o agricultor que se transforma no outro ao ensinar. A reciprocidade genuína é a capacidade de assumir a forma da necessidade alheia. Quando um agricultor doa o “azeite” do seu conhecimento de reuso de água, ele não está dominando; ele está passando por uma metamorfose, colocando-se no lugar do vizinho para que ambos vivam. O NIT mata o “paranoico do poder” para fazer nascer o irmão da dádiva.

O NIT COMO MEDIADOR CONTRA OS “CRISTAIS DE MASSA”

3.0. Subvertendo as Hierarquias do Comando – Canetti descreve os “cristais de massa” (exércitos, instituições rígidas) como grupos que se alimentam de inimizade. O conflito entre Estado e Mercado no Semiárido cria esses cristais: de um lado, a burocracia inacessível; de outro, a ganância que vê o outro como competidor.

3.1. A Escuta Ativa e a Irradiação – O NIT subverte isso mediante o “ofício da escuta”. Ele é o mediador que escuta as vozes silenciadas pela tecnocracia. A reciprocidade aqui não é troca de mercadorias, mas troca de sensibilidades. O Núcleo permite que o agricultor recuse o “comando e a obediência cega” dos pacotes técnicos fechados. Ele adapta, transforma e irradia, criando uma rede horizontal que desparanoiza as relações sociais no sertão.

4.0. Descolonizar o Medo por meio da Tecnologia de Convivência – O subdesenvolvimento das terras secas é, em essência, uma estrutura de medo. Medo da fome, medo da sede, medo do outro que pode “tirar o que eu tenho”.

4.1. Refazer o Mundo sem Inimigos – O Reciprocidalismo, sob a ótica de Canetti, refaz o mundo ao mostrar que a convivência com o Semiárido não exige um inimigo externo (a natureza ou o vizinho). A abundância do Dom no NIT elimina a necessidade de ser o “último a sobreviver”. Se o saber é irradiado, a segurança de um é a segurança de todos. A “Metamorfose” técnica (o agricultor tornando-se mestre e aprendiz ao mesmo tempo) dissolve a paranoia e estabelece a Igualdade Genuína.

SÍNTESE: A CIVILIZAÇÃO DA METAMORFOSE – A reflexão integrativa entre Elias Canetti e o Reciprocidalismo estabelece que: (i) O progresso é proximidade – Superar o subdesenvolvimento é derrubar as distâncias criadas pela burocracia e pelo individualismo; (ii) O NIT é o antídoto ao Poder – Ele impede a formação de pequenas “tiranias técnicas” ao promover a rotação constante de quem ensina e quem aprende (Metamorfose); (iii) A Reciprocidade é poética-ética – A vida humana nas terras secas é redefinida pelo toque da solidariedade e pela escuta das águas e das pessoas.

Canetti nos alertou que o poder quer nos ver mortos para se sentir vivo; o Reciprocidalismo nos mostra que a Reciprocidade nos faz viver na vida do outro. No Sertão de Canetti, o Núcleo de Reciprocidade é onde abandonamos a armadura do medo para tocar a mão do vizinho com o Dom da convivência, provando que ninguém precisa ser o ‘último sobrevivente’ quando todos aprendem a se transformar no Bem Comum.