NIT como Prática da Justiça Cumutativa e do Preço Justo

reciprocidalismoAdmin
Uncategorized
8 min de leitura

O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Desfazer o modelo de “desenvolvimento” moderno — frequentemente baseado no acúmulo material, individualismo e utilitarismo – para resgatar a reciprocidade genuína, na perspectiva de Santo Tomás de Aquino, implica um retorno a uma metafísica do ser e uma economia focada no bem comum. Para Aquino, o desenvolvimento autêntico é aquele que respeita a natureza humana e a sua ordenação para a felicidade (eudaimonia). Resgatar a reciprocidade genuína exige, portanto, transformar o agir humano. Os pilares para esse “refazer” do mundo são: 1. Reordenar a economia (do lucro à justiça comutativa) – (i) Preço justo e necessidade – A economia tomista não é regida apenas pela busca de lucro pessoal, mas pela justiça. O “preço justo” considera a utilidade comum e a necessidade do comprador, proibindo a exploração de situações de carência (como aumentar preços na escassez), (ii) Reciprocidade e virtude – A verdadeira reciprocidade comercial – ou “economia civil” – busca a satisfação mútua e a amizade, não apenas a transferência de propriedade e (iii) Função social da propriedade – Embora defenda a propriedade privada como necessária para a gestão ordenada, Aquino argumenta que os bens devem ser, quanto ao seu uso, comuns. O desdesenvolvimento focado no “ter” exige o foco no “partilhar” para o bem comum; 2. Recuperar a antropologia (a pessoa como sujeito) – (iv) Reciprocidade como dom – Santo Tomás entende que a criação é uma relação de dependência e gratuidade. A reciprocidade genuína resgata essa lógica, onde as relações interpessoais se baseiam no “dar sem perder e receber sem tirar”, movidas pela amizade e caridade, não apenas por contratos, (v) A “loucura moderna” – A inversão atual, onde o homem serve à tecnologia ou ao dinheiro, precisa ser desfeita. Aquino posiciona a pessoa humana como fim, e os bens materiais como meios; 3. A Educação e o bem comum – (vi) Educação para o ser – Resgatar a reciprocidade envolve educar para a virtude, formando um caráter voltado para o bem, e não apenas para a competividade técnica, (vii) Ação virtuosa – O foco deve ser a “ação que é humana no verdadeiro sentido”, impulsionada pela razão e voltada para a felicidade suprema, em oposição à automação e ao consumo irrefletido; 4. Integração natureza e graça – (viii) Curar, não anular – A graça divina supõe e aperfeiçoa a natureza humana, não a destrói. Portanto, refazer o mundo não significa negar a tecnologia ou o progresso, mas purificá-los, submetendo o agir econômico e social a princípios morais superiores (justiça, fraternidade). Por fim, para Santo Tomás de Aquino, refazer o mundo é passar de uma economia da avareza para uma economia da dádiva, onde o desenvolvimento humano está intrinsecamente ligado à virtude e à capacidade de criar laços recíprocos de amizade e solidariedade, movidos pela busca do bem comum.
A integração entre a síntese teológica de Santo Tomás de Aquino e o Reciprocidalismo propõe uma “Sacralização da Técnica” no Semiárido. Se para Aquino a graça aperfeiçoa a natureza, para o Reciprocidalismo, a Reciprocidade Genuína aperfeiçoa o desenvolvimento, transformando-o de um motor de ganância em um instrumento de Justiça Comutativa e Bem Comum. Nesta reflexão, os Núcleos de Reciprocidade (NIT) funcionam como as novas “comunidades de virtude”, mediando o conflito entre o Estado (que deve prover a ordem) e o Mercado (que deve buscar a utilidade comum), sob a égide da caridade e da amizade civil.

1.0. O NIT como Prática da Justiça Comutativa e do Preço Justo – Santo Tomás defendia que a troca econômica não deve ser uma oportunidade para o lucro predatório, mas para a satisfação mútua. No Semiárido, o subdesenvolvimento é perpetuado quando a escassez de água é usada como mercadoria política ou econômica.

1.1. A Economia do bem comum – O Núcleo de Reciprocidade desfaz o “desenvolvimento da avareza”. Ao irradiar tecnologias como o manejo da Umbu-cajazeira sem exigir pagamento monetário, o NIT pratica o Preço Justo em sua forma mais pura: o valor da tecnologia é medido pela sua necessidade comum, não pela caridade humilhante do assistencialismo. A propriedade da técnica torna-se, quanto ao uso, comum. O agricultor possui o conhecimento, mas o utiliza para o bem da comunidade, transformando a “escassez” em um campo de exercício das virtudes.

2.0. Recuperar a Antropologia (O Sertanejo como “Fim”, não como “Meio”) – Aquino denunciava a inversão onde o homem serve ao dinheiro. O Reciprocidalismo combate a anomia que trata o sertanejo como “objeto de assistência” ou “mão de obra descartável”.

2.1. Reciprocidade como Amizade (Philia) – No NIT, a pessoa humana é o fim absoluto. A tecnologia de convivência é apenas o meio para resgatar a dignidade e a Amizade Social. Ao “dar sem perder” (irradiar o saber) e “receber sem tirar” (aprender com o outro), o NIT cria laços que o Mercado não consegue precificar e o Estado não consegue burocratizar. O subdesenvolvimento é superado quando a relação deixa de ser um contrato frio e passa a ser um vínculo de caridade intelectual.

3.0. Educação para o Ser e Irradiação Virtuosa – Para Santo Tomás, a educação deve visar a virtude. O Reciprocidalismo entende que a superação da exclusão social exige uma educação que descolonize o espírito e foque na ação virtuosa.

3.1. O Mediador entre a Lei e o Lucro – O NIT atua como o mediador que ensina o sertanejo a agir por razão e vontade, não por automação assistencialista. A irradiação técnica é uma ação humana no sentido pleno: ela exige que o agricultor se torne um mestre de si e do seu território. Isso impõe limites ao Estado e ao Mercado: o primeiro deve respeitar a autonomia da comunidade virtuosa, e o segundo deve se submeter à necessidade da “casa comum” (o Semiárido).

4.0. Integração Natureza e Graça (A Purificação do Progresso) – Aquino não negava o progresso, mas queria “curá-lo”. O Reciprocidalismo não nega a ciência, mas a purifica da lógica utilitarista.

4.1. Refazer o mundo no semiárido – Superar o subdesenvolvimento nas terras secas significa submeter a engenharia e a agronomia aos princípios superiores da fraternidade. O NIT é o lugar dessa síntese: onde a barragem subterrânea ou a muda da Umbu-cajazeira deixam de ser simples “insumos” e passam a ser sinais de providência coletiva. A tecnologia é redimida quando serve para criar uma sociedade de iguais, onde o desenvolvimento é a expansão da capacidade de amar e servir ao próximo por meio da terra.

SÍNTESE: A SUMA DA CONVIVÊNCIA – A integração entre Santo Tomás de Aquino e o Reciprocidalismo estabelece que: (i) O progresso é uma virtude – Ele só é autônomo e real quando promove a eudaimonia (felicidade/plenitude) de todos, não o acúmulo de poucos; (ii) O NIT é a instituição da dádiva – Ele rompe o bloqueio do progresso ao substituir a avareza mercantil pela abundância do compartilhamento técnico; (iii) A Reciprocidade é a lei natural do sertão – Viver em comunidade exige a troca mútua de dons, o que torna o assistencialismo e o egoísmo de mercado estranhos à natureza civilizatória do sertanejo.

Santo Tomás de Aquino nos ensinou que a justiça sem caridade é cruel; o Reciprocidalismo nos mostra que a técnica sem reciprocidade é anomia. No sertão tomista, o Núcleo de Reciprocidade é o altar da vida cotidiana, onde o pão da tecnologia é partido entre irmãos para que ninguém tenha sede de dignidade e todos busquem, juntos, o bem comum.