Desconstruindo a Fábrica Homem Tecnocrática
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Com base no pensamento do economista francês Paul Leroy-Beaulieu, a ideia de “desfazer o desenvolvimento” para resgatar a reciprocidade genuína seria reinterpretada não como a destruição da modernidade, mas como a correção dos desvios da colonização de exploração, promovendo uma colonização de povoamento baseada no intercâmbio técnico e cultural. Leroy-Beaulieu, em sua obra De la colonisation chez les peuples modernes (1874), defendia um modelo específico que visava, na sua visão, um progresso mútuo. A perspectiva de Paul Leroy-Beaulieu sobre a Reciprocidade era baseada na: (i) Colonização de Povoamento sobre Exploração – Leroy-Beaulieu opunha-se à exploração puramente mercantilista (extrativista), que via como uma relação parasitária. A verdadeira reciprocidade, para ele, aconteceria através da colonização de povoamento, onde europeus se estabeleceriam de forma permanente, cultivando a terra e estabelecendo laços duradouros com o novo território; (ii) Difusão de capital e técnicas – A reciprocidade genuína seria alcançada ao levar técnicos, capitais e “civilização” (leis, educação, modos de produção) a regiões consideradas “inexploradas” ou com populações vistas por ele como ineficientes. Isso criaria uma dependência mútua, não uma submissão servil; (iii) Respeito à produção local (Idealizado) – Ele argumentava que a colonização ideal deveria ser respeitosa e adaptada, focando em “ensinar aos habitantes do país os processos modernos de aproveitamento da terra”; (iv) Auto-administração (Self-government)- Leroy-Beaulieu via com bons olhos a organização “elementar, mas completa” de colônias que promoviam o self-government (auto-administração), o que aumentava a liberdade e a garantia dos cidadãos, diferenciando-se da exploração militarizada. “Desfazer o Desenvolvimento” nessa perspectiva, resgatando a reciprocidade baseada em Leroy-Beaulieu, o “desenvolvimento” a ser desfeito, seria o colonialismo predatório do século XIX: (v) Fim da Conquista Militar – Abandono da submissão militar e dos métodos de exploração de “marinheiros e militares” em busca de prestígio imediato; (vi) Substituição da Extração pela Produção – Trocar o modelo de envio de recursos para a metrópole (exploração) pela instalação de famílias e técnicos que produzam riqueza no próprio local (povoamento); (vii) Educação e capitalização – Em vez de apenas retirar matérias-primas, a ênfase estaria na “educação, justiça regular, divisão de trabalho e uso de capital”. Em síntese, para Paul Leroy-Beaulieu, a reciprocidade genuína não vinha de um retorno a um estado pré-moderno, mas da transformação da exploração colonial predatória em uma colonização de povoamento técnica, organizada e, na sua visão, “civilizatória.
A integração entre a visão de Paul Leroy-Beaulieu e o Reciprocidalismo propõe uma mudança de paradigma sobre a “ocupação” do Semiárido: sair da lógica da exploração parasitária (extrativismo de recursos e votos) para a lógica do povoamento técnico e permanente. Para Leroy-Beaulieu, a colonização de exploração era estéril. Para o Reciprocidalismo, o desenvolvimento atual é uma forma de “exploração interna”. Os Núcleos de Reciprocidade (NITs) surgem, então, como as novas “colônias de povoamento” de base técnica, onde o objetivo não é extrair riqueza para fora, mas fixar a inteligência e o capital no território.
DO PARASITISMO AO POVOAMENTO TÉCNICO
1.0. O NIT como Unidade de “Povoamento de Ideias” – Leroy-Beaulieu defendia que a reciprocidade só existia quando se levavam capitais e técnicas para criar laços duradouros. No Semiárido, o progresso foi bloqueado porque o Estado e o Mercado agem como “marinheiros de passagem”: trazem uma obra, retiram o prestígio (ou o lucro) e partem, deixando a anomia para trás.
1.1. Fixação do Saber – O Núcleo de Reciprocidade inverte isso. Ele é o local onde o técnico e o agricultor se estabelecem de forma “permanente”. Não é uma visita técnica assistencialista; é a criação de uma rede de vida onde o saber do cultivo da Umbu-cajazeira e outras plantas adaptadas ao semiárido ou do reuso de águas se torna o capital enraizado no solo.
2.0. Difusão de Técnicas vs. Submissão Servil – Beaulieu acreditava que “ensinar processos modernos” criava dependência mútua, não submissão. O Reciprocidalismo leva isso ao ápice por meio da Irradiação.
2.1. Mediação entre Estado e Mercado – O NIT atua como o mediador que impede a submissão. Ao ensinar o agricultor a produzir e a se auto-administrar, o núcleo reduz a necessidade da “proteção militarizada” do Estado ou da “dependência total” do Mercado. A reciprocidade genuína nasce quando a técnica deixa de ser uma ferramenta de controle para se tornar uma ferramenta de produção local.
AUTO-ADMINISTRAÇÃO (SELF-GOVERNMENT) NO SERTÃO
3.0. O Fim da Conquista Militar/Assistencialista – Leroy-Beaulieu criticava a exploração em busca de prestígio imediato. O Reciprocidalismo identifica isso no “curral eleitoral” e no lucro rápido.
3.1. Autonomia e Justiça – O NIT promove o self-government (auto-administração) da comunidade. A reciprocidade exige que os habitantes do país (o sertão) dominem a justiça regular e a divisão do trabalho técnico. Superar o subdesenvolvimento, nesta ótica, é substituir o “envio de recursos para a metrópole” (fuga de talentos e capital) pela instalação de famílias técnicas que vejam o Semiárido como seu lar definitivo e produtivo.
4.0. Capitalização e Educação como Civilização – Para Beaulieu, a civilização era educação e uso de capital. No contexto de Nizomar, a verdadeira “civilização” é a Convivência.
4.1. A Troca de Conhecimentos – O conflito entre Estado e Mercado é mediado pela criação de um Capital Social. O agricultor não é mais um “ineficiente” a ser substituído, mas um parceiro que troca saberes ancestrais pela técnica moderna. Essa “troca de conhecimentos” produz algo que nenhum dos dois atores (Estado/Mercado) consegue sozinho: a estabilidade social e econômica das terras secas.
SÍNTESE: A COLONIZAÇÃO DA CONVIVÊNCIA – Integrar Paul Leroy-Beaulieu ao Reciprocidalismo estabelece que: (i) O progresso é enraizamento – Superar o subdesenvolvimento é impedir que o conhecimento e o lucro “vazem” do sertão para a cidade; (ii) O NIT é a Escola do Self-Government – Ele treina o cidadão para não depender da “conquista” externa, gerindo seu próprio destino técnico; (iii) A Reciprocidade é Produção Coletiva – O foco muda de “dar o que sobra” (assistencialismo) para “produzir o que é necessário” (parceria técnica).
Leroy-Beaulieu percebeu que a exploração mata a colônia, mas o povoamento a faz florescer; o Reciprocidalismo mostra que o assistencialismo mata o sertão, mas a Reciprocidade o faz soberano. No Sertão de Beaulieu, o Núcleo de Reciprocidade é a nossa ‘colônia de povoamento técnica’, onde o capital é o saber e a metrópole é a própria comunidade.