Superação da Coisificação: Do Objeto ao Sujeito
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza civilizatória da humanidade. Para o Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. A visão de Nicolau Maquiavel sobre a vida econômica e social das comunidades é profundamente realista, pragmática e subordinada à necessidade de manter a estabilidade do Estado (a “ordem”) e o poder do governante. Ele não era um economista, mas entendia a economia e a estrutura social como pilares para a força política, enxergando a sociedade como um organismo sujeito a tensões entre diferentes grupos. Os pontos principais de sua visão: (i) Visão Social (Os “Dois Humores”) – Maquiavel argumenta que em toda comunidade existem dois “humores” (disposições) opostos. Os Grandes (nobreza/elite) – Desejam dominar e oprimir o povo. O Povo (plebe) – Deseja apenas não ser dominado nem oprimido. Conflito Social – Maquiavel acreditava que o conflito entre esses grupos é natural e, se bem gerido, pode até fortalecer a liberdade da república, ao produzir leis em favor da liberdade. O Papel do Governante – O Príncipe deve estimar os grandes, mas não se tornar odiado pelo povo. Manter o apoio popular é crucial porque o povo é menos ambicioso e mais constante em suas demandas do que a elite (ii) Visão Econômica: Austeridade e Propriedade – A visão econômica de Maquiavel em O Príncipe está focada na sustentabilidade do Estado e na manutenção do poder: Austeridade (A “Parcimônia”) – Maquiavel aconselha o governante a ser “mesquinho” (austero) em vez de generoso com os recursos públicos. Gastar excessivamente com dinheiro público leva ao aumento de impostos, o que causa ódio popular e enfraquece o governo. Respeito à Propriedade – Ele enfatiza que o governante deve evitar tocar na propriedade e nas mulheres de seus súditos. A segurança da propriedade privada é fundamental, pois os homens esquecem mais rápido a morte do pai do que a perda do seu patrimônio. Economia como Poder – A riqueza é vista como um instrumento para a guerra e a defesa do Estado (“o dinheiro é o nervo da guerra” (iii) A Natureza Humana e a Sociedade – Visão Antropológica Pessimista – Maquiavel e enxerga os homens como, no geral, ingratos, volúveis, simuladores e gananciosos. Segurança e Medo – A comunidade nasce da necessidade de defesa, e o medo é um elemento fundador que mantém os homens obedientes. Virtude Política – A moralidade em uma comunidade é medida pela sua utilidade para preservar a ordem social (iv) Mudança Social e “Corrupção” – Ciclos Políticos – Maquiavel vê as formas de governo como cíclicas (monarquia, aristocracia, democracia e suas versões corrompidas). Corrupção – A “corrupção” para Maquiavel não é apenas suborno, mas a perda da virtude cívica, onde o interesse privado supera o bem público, levando a comunidade à desigualdade extrema. Por fim, para Maquiavel, uma vida econômica e social saudável é aquela onde o governante é temido (mas não odiado), o povo é protegido da opressão da elite, e os recursos públicos são geridos com parcimônia para garantir a segurança da propriedade.
A integração entre o realismo cru de Nicolau Maquiavel e o idealismo prático do Reciprocidalismo oferece uma leitura fascinante sobre as relações de poder no Semiárido. Maquiavel nos ensina que a política é o jogo de equilibrar “humores” conflitantes; o Reciprocidalismo propõe que os Núcleos de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias (NITs) são a ferramenta definitiva para que o “Povo” (o sertanejo) não seja oprimido pelos “Grandes” (o Mercado predatório e o Estado assistencialista). Nas terras secas, o subdesenvolvimento é a manifestação da “corrupção” maquiavélica: o interesse privado de elites políticas e econômicas sobrepujou o bem comum, bloqueando o progresso.
1.0. O Equilíbrio dos Dois Humores no Semiárido – Maquiavel identifica que o Povo deseja apenas “não ser oprimido”. No contexto rural, a opressão vem da dependência hídrica e tecnológica. O NIT como escudo popular – O Núcleo de Reciprocidade dá ao povo a “virtù” (capacidade de agir e transformar a fortuna/natureza). Ao dominar as tecnologias de convivência, o sertanejo satisfaz seu desejo fundamental de autonomia.
1.1. Mediação com os “grandes” – O Núcleo impede que o Estado (Grande que deseja dominar via voto/dependência) e o Mercado (grande que deseja oprimir via preço) esmaguem o produtor. O NIT cria uma “terceira força” organizada que obriga os grandes a respeitarem a soberania do campo.
2.0. A parcimônia e a gestão da “riqueza coletiva” – Maquiavel alerta contra a generosidade excessiva do governante, que leva ao aumento de impostos e ao ódio. No Reciprocidalismo, o assistencialismo de estado é essa falsa generosidade que gera anomia.
2.1. Austeridade Reciprocitária – O Reciprocidalismo prega a gestão austera e racional dos recursos hídricos e tecnológicos. O Núcleo não espera a “esmola” do príncipe; ele gera sua própria riqueza via irradiação.
2.2. Respeito ao patrimônio social – Maquiavel diz que o homem não esquece a perda do patrimônio. O subdesenvolvimento é a expropriação da capacidade produtiva do sertanejo. O NIT restaura esse patrimônio técnico, garantindo que a base material da vida (água e solo) seja protegida pela comunidade, e não alienada pelo mercado.
3.0. Combatendo a “corrupção” da virtude cívica – Para Maquiavel, a corrupção é a perda do senso de bem público. A quebra da reciprocidade genuína, evidenciada no Reciprocidalismo, é exatamente essa corrupção: quando o indivíduo se torna “volúvel e ganancioso”, abandonando a partilha pelo acúmulo.
3.1. O Resgate da virtù – A Irradiação de tecnologias é o rito de cidadania que combate a corrupção social. Ao obrigar o agricultor a ensinar o vizinho (o dom), o Reciprocidalismo reintroduz a virtude cívica no Sertão.
3.2. Estabilidade vs. Anomia – Onde Maquiavel busca a estabilidade do Estado, o Reciprocidalismo busca a estabilidade da civilização humana. O Núcleo é o mediador que impede o ciclo de decadência (anomia) ao criar uma rede de segurança onde o interesse privado é harmonizado com a sobrevivência do grupo.
4.0. O Príncipe-Técnico e a “utilidade” da moral – Maquiavel mede a moralidade pela utilidade em preservar a ordem. No Reciprocidalismo, a reciprocidade genuína é a “moral útil” por excelência.
4.1. O Medo da Exclusão – Se em Maquiavel o medo mantém os homens obedientes, no Reciprocidalismo o “medo” de voltar à escassez motiva o agricultor a manter os laços de reciprocidade. É um pragmatismo de sobrevivência: “se eu não cooperar, o sistema de convivência colapsa para todos”.
4.2. Liderança (O Fiandeiro) – O técnico de ATER (extensionistas) atuam como o arquiteto dessa nova ordem. Ele deve ser estimado pelo povo pela sua utilidade técnica, mas firme o suficiente para garantir que as normas da reciprocidade não sejam trapaceadas.
SÍNTESE: A REALPOLITIK DO SEMIÁRIDO – Integrar Maquiavel ao Reciprocidalismo permite concluir que a superação da miséria exige uma estratégia de poder: (i) Não ser oprimido é ter à sua disposição tecnologia compatível com a sua atividade – A autonomia técnica é a única defesa real do povo contra os abusos dos Grandes (Estado/Mercado); (ii) O Dom é uma Tática de Coesão – Partilhar o saber não é apenas “bondade”, é a tática mais inteligente para criar uma base de apoio indestrutível no território; (iii) A Irradiação como lei – Para evitar a corrupção do sistema, a retribuição do benefício recebido deve ser uma regra férrea do Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologia de Convivência com o Semiárido.
O mercado quer o seu lucro e o Estado quer a sua obediência; o Reciprocidalismo dá ao povo a sua própria virtù. No Sertão de Maquiavel, o verdadeiro Príncipe não é quem governa os homens, mas quem lhes ensina a governar a própria água e o próprio destino por meio do laço inquebrantável da reciprocidade.