Quebra do Dogma do Produtivismo
De acordo com os postulados do Reciprocidalismo a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das...
Guardando os ditames do Reciprocidalismo, o esfacelamento da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Nancy D. Munn ao analisar as canoas (waga), como símbolos que transformam materiais físicos em valor social e fama, conectando o espaço local ao inter-ilhas. Por meio do trabalho e da magia, a construção converte materiais estáveis em um objeto “leve” e rápido, capaz de gerar prestígio e expandir a reputação dos construtores de Gawa no comércio Kula. A análise de Nancy D. Munn sobre as ilhas de Gawa introduz um conceito fundamental para o Reciprocidalismo: a transmutação de valor. Para Munn, a canoa (waga) não é apenas um meio de transporte, mas um artefato que “alonga” o indivíduo no espaço e no tempo, transformando o trabalho pesado em “fama” e prestígio. No Semiárido, os Núcleos de Reciprocidade e de Irradiação de Tecnologias de Convivência (NITs) funcionam exatamente como as canoas de Gawa. Elas são os veículos que permitem ao sertanejo romper o isolamento do subdesenvolvimento (a “estabilidade” da pobreza) e navegar em direção à soberania e ao reconhecimento social.
A CANOA DA CONVIVÊNCIA: TRANSFORMANDO TRABALHO EM SOBERANIA
1.0. A Tecnologia como a “Waga” (Canoa) do Sertão – Munn descreve como o trabalho e a magia convertem materiais pesados em um objeto “leve” e veloz. No Reciprocidalismo, a construção de uma cisterna, de uma barragem subterrânea ou o manejo do umbu-cajá é esse processo de conversão.
1.1. Da Matéria ao Valor Social – O cimento, a pedra e o suor do agricultor são materiais estáveis. Por meio da Reciprocidade Genuína, esse esforço físico é convertido em Capital Social. Uma tecnologia instalada no âmbito de um Núcleo deixa de ser um objeto estático e “pesado” para se tornar “leve”: ela ganha a capacidade de Irradiar. Ela leva a reputação daquele agricultor e daquela comunidade para além das fronteiras do seu sítio.
2.0. A Expansão da Reputação e a Fama (Mwasila) – Para Munn, a canoa expande a reputação do construtor no círculo Kula. No Semiárido, o subdesenvolvimento é, em essência, a invisibilidade e o silenciamento do produtor.
2.1. Fiandeiro como Construtor – Quando o técnico ou o produtor líder (o Fiandeiro) implementa o modelo de convivência, ele está construindo sua “fama” no sentido de Munn: uma reputação baseada na utilidade social. Essa fama é o que permite ao Núcleo mediar conflitos. Um grupo com alta reputação de cooperação e sucesso técnico tem força para dizer “não” às imposições arbitrárias do Estado e às condições leoninas do Mercado. O prestígio é o escudo da dignidade.
3.0. Mediação entre o Local e o Inter-ilhas (Estado e Mercado) – A canoa de Munn conecta o espaço local ao sistema regional. O NIT cumpre essa função mediadora.
3.1. Frente ao Mercado – O Mercado quer a mercadoria (o fruto do umbu-cajá). O Núcleo entrega a mercadoria, mas mantém a “Canoa” (o controle da tecnologia e do processo). A reciprocidade impede que o agricultor seja engolido pela logística do mercado, pois ele navega em sua própria estrutura de apoio mútuo;
3.2. Frente ao Estado – O Estado tenta impor o “peso” da burocracia e do assistencialismo. O Núcleo, com sua agilidade técnica e organizativa (a “leveza” de Munn), responde com autonomia. O progresso é desbloqueado porque o sertanejo não espera o Estado chegar; ele constrói seu próprio veículo de ascensão.
4.0. Magia e Trabalho: A Eficácia do Reciprocidalismo – Munn fala da “magia” que torna a canoa rápida. No Reciprocidalismo, a “magia” é a Espoleta da Reciprocidade.
4.1. A Força do Coletivo – O trabalho individual é pesado e lento; o trabalho em reciprocidade (o mutirão, a troca de sementes, a irradiação do saber) é veloz e eficaz. A superação da miséria ocorre quando o sertanejo entende que a tecnologia de convivência é o instrumento para ele “navegar” para fora da zona de exclusão, conectando-se a outros Núcleos e criando um “continente” de prosperidade nas terras secas.
SÍNTESE: NAVEGAR É PRECISO, COOPERAR É ESSENCIAL
Relacionar Nancy Munn ao Reciprocidalismo permite concluir que: (i) O progresso é movimento; o subdesenvolvimento é a estagnação. O Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias é o que põe a sociedade em movimento; (ii) O Valor é Relacional – A riqueza não é a cisterna em si, mas o que ela permite em termos de conexão e prestígio entre os produtores; (iii) A Dignidade é a fama do dom – O sertanejo recupera sua dignidade ao ser reconhecido como o “construtor” de soluções que beneficiam o todo.
Nas águas de Gawa ou nas terras secas do Assu, a lição é a mesma: a canoa só é leve se for construída com a madeira da cooperação e a magia do Dom. Onde houver um Núcleo de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido, haverá um veículo de libertação pronto para levar o sertanejo ao encontro da sua própria grandeza.