Empobrecimento das Capacidades vs Despertar da Imaginação

reciprocidalismoAdmin
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De acordo com os postulados do Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Suleymane M’Baye, citando A. Gorz, ‘o triunfo das relações de mercado sobre as relações de reciprocidade e do valor de troca sobre os valores de uso causou o empobrecimento das capacidades e da vida de cada um de nós’. Isso porque a crise decorrente do insucesso das políticas de desenvolvimento e as consequências dos programas de ajuste estrutural levaram, de um lado, a um desenvolvimento extensivo do setor informal, e de outro, provocaram uma explosão de imaginação nos atores que foram recrutados por esse setor, à base de um princípio muito simples: a estratégia do menor custo ligada, ademais, a um imperativo de solidariedade de alguma medida seletiva. Qualquer tentativa de questionar as bases do conceito de desenvolvimento é considerada um luxo reservado a certa intelligentsia. A microorganização precisa de seu ambiente social para perdurar e para ser eficaz, sobretudo mediante o sistema de dom/contradom, que dá forma a seu modo de gestão. A lógica da reciprocidade, que está na base do dom/contradom, garantindo desse modo a compenetração entre o econômico e a outra grande instância que é o social. Uma das finalidades atribuídas a atividade econômica é também a solvibilidade social. A necessidade do intercâmbio social, característico do paradigma relacional, confere um papel importante aos dons e aos investimentos sociais. Ter uma vida decente significa muito mais a possibilidade de, em parte graça a essa mesma atividade, participar em algum momento de trocas no âmbito do dom e contradom. É nessa esfera que as referências emprestadas da cultura social local intervém, com o princípio da reciprocidade por meio de redes sociais. Encontramos traços dessa lógica do dom no sistema de intercâmbio da área senegalês-gambiana pré-colonial.
A reflexão trazida por Suleymane M’Baye e André Gorz oferece o alicerce sociológico para a “cura” proposta pelo Reciprocidalismo. Ao identificar que o triunfo do mercado sobre a reciprocidade causou um empobrecimento das capacidades humanas, M’Baye resgata a ideia de que a economia não pode ser separada do social. No Semiárido, a implantação dos Núcleos de Reciprocidade atua precisamente na restauração dessa solvibilidade social, desfazendo a lógica do “ajuste estrutural” e do assistencialismo para refazer o mundo por meio do investimento relacional.

A SOLVIBILIDADE SOCIAL: O RESGATE DA VIDA DECENTE

1.0. O Empobrecimento das Capacidades vs. O Despertar da Imaginação – M’Baye aponta que o insucesso do desenvolvimento gerou uma “explosão de imaginação” no setor informal. O Reciprocidalismo aproveita essa energia latente.

1.1. A Perspectiva do Reciprocidalismo – O subdesenvolvimento bloqueou o progresso porque transformou o sertanejo em um receptor passivo (assistencialismo). O Reciprocidalismo inverte isso ao tratar a Tecnologia de Convivência não como um fim, mas como uma espoleta para a imaginação criativa. Ao desfazer a ideia de que a solução vem “de fora”, o agricultor recupera a capacidade de gerir sua própria vida, utilizando a estratégia do menor custo (recursos locais) ligada ao imperativo de solidariedade.

2.0. A Microorganização e o Sistema Dom/Contradom – A eficácia de uma organização, segundo M’Baye, depende do sistema de Dar, Receber e Retribuir. Sem isso, a economia torna-se fria e excludente.

2.1. A Aplicação nos Núcleos – O Núcleo de Reciprocidade é a unidade prática desse sistema. A “gestão” do Núcleo não segue as planilhas do mercado, mas o Pacto de Honra. Quando um agricultor recebe uma cisterna ou sementes (o Dom), ele não assina um recibo de dívida monetária, mas assume um compromisso de Irradiação (o Contradom). Essa dinâmica garante a compenetração entre o econômico e o social, impedindo que a técnica se torne uma “prótese” isoladora.

3.0. A Vida Decente como Participação no Dom – M’Baye define “vida decente” como a possibilidade de participar das trocas do dom. O desenvolvimento convencional falhou porque ofereceu o consumo, mas roubou a Dignidade de Dar.

3.1. O Resgate pelo Reciprocidalismo – O assistencialismo é a negação da decência, pois mantém o homem apenas como receptor. Refazer o mundo, na proposta do Reciprocidalismo, é garantir que cada Fiandeiro tenha condições técnicas (água, solo, semente) para voltar a ser um Dador. A “solvibilidade social” é atingida quando o agricultor é capaz de investir no seu vizinho, participando da rede de proteção que o mercado e o Estado ignoraram.

4.0. Das Raízes Pré-coloniais à Convivência Moderna – Assim como M’Baye encontra traços dessa lógica na área senegalês-gambiana, o Reciprocidalismo a encontra na raiz do povo sertanejo.
4.1. O progresso foi usurpado quando as relações de parentesco e vizinhança foram substituídas por relações impessoais de mercado. A implantação dos Núcleos é uma Descolonização Prática. Ela resgata a mentalidade primária para enfrentar desafios modernos (mudanças climáticas, crises econômicas) com uma segurança que nenhuma “intelligentsia” pode oferecer sem o paradigma relacional.

SÍNTESE FINAL: REFAZER A RELAÇÃO, RESGATAR O MUNDO – Relacionar M’Baye e o Reciprocidalismo é entender que a economia deve servir para produzir laços sociais, e não apenas mercadorias.

  1. Desfazer o Desenvolvimento – Substituindo a “teologia da acumulação” pela Circulação do Saber.
  2. Desfazer o Assistencialismo – Devolvendo ao sertanejo o direito de ser o Garantidor da Solidariedade.
  3. Refazer o Mundo – Por meio de redes sociais face-a-face, onde a técnica é o meio para que a humanidade se encontre na reciprocidade genuína.

O mercado empobrece a vida ao colocar preço em tudo; a Reciprocidade enriquece a vida ao colocar valor no vínculo. Ter uma vida decente no Semiárido não é apenas ter água na cisterna, é ter a honra de ser aquele que compartilha a fonte.