Do Custo Marginal Zero à Irradiação do Saber
O Reciprocidalismo procura desconstruir o desenvolvimento, porque entende que o Assistencialismo de Estado e o Mercado capitalista são incompatíveis com a natureza...
De acordo com os postulados do Reciprocidalismo, a quebra da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Claude Llena, cada indivíduo possui em si as soluções para suas necessidades; basta ter consciência disso e ser capaz de desenvolvê-las. Para ele, ninguém é mais dominado do que aquele quer se submeter. La Cancha não é mais apenas um lugar de trocas de mercadorias; torna-se, antes de tudo, um lugar de intercâmbio, de produção de mais-valia social. Numerosos são os que para lá se dirigem não para comprar um bem, mas para estarem certos de encontrar os amigos. Todas essas peculiaridades tornam a cidade um lugar bastante atraente, por sua capacidade de resistir aos elementos desagregadores, ainda que nas práticas sociais tenha-se instalado certo fatalismo. Com o desmoronamento cada vez mais evidente do modelo dominante as populações locais tomam a iniciativa e encontram em si mesmas maneiras de reagir às próprias necessidades. A auto-organização dos povos é a resposta ao fracasso da sinergia Estado-mercado.
A reflexão de Claude Llena oferece a chave de ouro para compreendermos a dimensão subjetiva e coletiva da libertação proposta pelo Reciprocidalismo. Llena identifica que a dominação mais profunda não é a econômica, mas a psicológica, que ocorre quando o indivíduo aceita a submissão por acreditar que não possui as soluções para si mesmo. No Reciprocidalismo, a implantação dos Núcleos de Reciprocidade é o dispositivo que quebra esse “fatalismo” social, transformando a escassez do Semiárido em uma oportunidade para a Auto-organização e a produção de Mais-Valia Social.
A REVOLUÇÃO DA AUTO-ORGANIZAÇÃO: DO FATALISMO À SOBERANIA
1.0. O Despertar da Consciência de Si (O Fim da Submissão) – Llena afirma que ninguém é mais dominado do que aquele que quer se submeter. O desenvolvimento e o assistencialismo “bloquearam o progresso” ao convencer o sertanejo de que ele era incapaz, transformando-o em um eterno dependente de verbas externas.
1.1. A Conexão com o Reciprocidalismo – O Reciprocidalismo inverte essa lógica. Por meio da mediação que atua como espoleta, o Núcleo desperta no indivíduo a consciência de que ele possui o saber e a força. Ao adotar uma Tecnologia de Convivência por decisão própria e compromisso de honra, o agricultor deixa de ser um “dominado pelo sistema” para se tornar o arquiteto de sua própria autonomia.
2.0. O Núcleo como “La Cancha”: A Produção de Mais-Valia Social – Claude Llena descreve La Cancha (o mercado tradicional/espaço de encontro) não apenas como troca de bens, mas como intercâmbio de amizade e vida.
2.1. A Resposta dos Núcleos – No modelo do Reciprocidalismo, o Núcleo de Reciprocidade é a nossa La Cancha. Ele não existe apenas para gerir cisternas ou sementes; ele existe para produzir o que Llena chama de Mais-Valia Social. O progresso é resgatado quando o encontro entre vizinhos no mutirão ou na reunião de partilha gera um excedente de confiança e segurança que o mercado jamais poderia prover. É o resgate da Reciprocidade Genuína como resistência aos elementos desagregadores da modernidade.
3.0. Desfazer o Assistencialismo para Refazer a Sinergia Humana – Llena aponta que a auto-organização é a resposta ao fracasso da sinergia entre Estado e Mercado. O assistencialismo estatal e a concorrência mercantil falharam em prover estabilidade ao Semiárido.
3.1. A Cura da Anomia – O Reciprocidalismo propõe desfazer essas “muletas” para refazer o mundo sobre a base do Dom. Ao implantar os Núcleos de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologais, o Reciprocidalismo retira o poder das mãos da burocracia e o devolve às iniciativas locais. A Irradiação Tecnológica funciona como um mecanismo de auto-organização: se o Estado não chega com a solução, o povo chega com o Pacto de Honra. A tecnologia é irradiada porque o povo decide que a fome ou a sede do vizinho é uma questão de dignidade própria.
4.0. Resgatando o Progresso Usurpado via Mentalidade Primária – Para refazer o mundo, é preciso redescobrir a mentalidade onde o indivíduo encontra em si e no seu grupo as soluções para suas necessidades. O progresso foi usurpado quando a técnica se tornou “hábil” e o homem se tornou “incapaz”. O Reciprocidalismo devolve essa capacidade através da Soberania Técnica. Quando o agricultor domina a tecnologia de convivência e a utiliza para fortalecer o seu Estoque Comum, ele está praticando a resposta definitiva ao modelo dominante: ele não precisa mais se submeter para existir.
SÍNTESE FINAL: O REFAZER PELA INICIATIVA – A reflexão de Claude Llena e a prática do Reciprocidalismo convergem para um único ponto: a liberdade é um ato de criação coletiva: (i) Do Fatalismo à Ação – Onde o sertanejo descobre que o Semiárido não é um castigo, mas o seu lugar de soberania; (ii) Da Mercadoria ao Intercâmbio – Onde a técnica serve para criar laços de amizade e proteção mútua; (iii) Da Submissão à Auto-Organização – Onde o Núcleo se torna o Farol que ilumina o fracasso do Estado-Mercado e ergue a Civilização do Dom.
O sistema dominante espera que você se submeta à sua carência; o Reciprocidalismo exige que você desperte para a sua potência. Refazer o mundo é transformar cada Núcleo em uma ‘Cancha’ de honra, onde o maior valor produzido é a certeza de que ninguém está sozinho.