Trocas como forma de sociabilidade
É importante que se faça uma reflexão sobre como o “Mutirão de Candido”evolui para o “Mutirão de Soberania” do Reciprovidalismo, detalhando como...
Em conformidade com os ditames do Reciprocidalismo, a fratura da reciprocidade genuína, causou uma anomia nas sociedades – ao serem privadas das trocas do Dom e restringidas suas inclusões no Mercado -, causando o subdesenvolvimento e a exclusão social, visto que nesse contexto, o progresso foi bloqueado. Como escreveu Marie-Dominique Perrot, o gasto ostensivo, competitivo tem estimulado práticas consumistas da modernidade, enquanto que de outro lado, encontra-se a necessidade, que impede que se viva, pois impede que se dê – e, portanto de receber -, anulando, consequentemente o laço social, arrastando-se e ferindo com repetidos golpes em praticamente todos os cantos do planeta. Essa característica de mundialização econômica e financeira tem criado desigualdades sociais em todos os hemisférios. O custo das coisas foi invertido. Nada escorre da fonte que não de vá ser necessariamente regenerado, convertido em algo rentável. Na tradição judaico-cristã, com o nascimento do humanismo, quanto no século XVIII, com o iluminismo, o homem concedeu-se um lugar central na natureza, atribuindo-se a missão de dominar, com o fi m de explorar as riquezas naturais e de usufruir delas. O homem, como uma criança mimada, exige não só o crescimento infinito ou durável, mas também um ambiente saudável e não-poluído. Redescobrir o sentido da medida significa reconsidera o lugar homem na natureza e o lugar dos homens em relação aso outros, na medida em que a despeito de todos os discursos generosos, um ser humano não é considerado igual a outro ser igualmente humano. O mundo se apresenta como totalizante e tautológico. Redescobrir o senso da medida equivale, portanto, a resistir à utopia de um único mundo em via de constituição – como faz o desenvolvimento -, porque essa utopia é perigosa. O mundo como sujeito tende a expelir os outros pretendentes á existência, entre os quais, o mundo da natureza e a pluralidade dos mundos sociais. A loucura do mais é filha da mais-valia, seja ela extraída da matéria, do trabalho, da tecnologia ou do imaterial.
A análise de Marie-Dominique Perrot oferece o diagnóstico moral da crise que o Reciprocidalismo se propõe a curar. Ao denunciar a “loucura do mais” e a “criança mimada” do Iluminismo, Perrot revela que o subdesenvolvimento não é uma falta de recursos, mas uma *patologia do excesso e do isolamento, onde a necessidade extrema impede o ato de Dar, anulando o laço social. O Reciprocidalismo atua precisamente na restauração do “Senso de Medida”, desfazendo a utopia totalizante do desenvolvimento para refazer o mundo por meio da escala humana dos Núcleos de Reciprocidade e Irradiação de Tecnologias de Convivência com o Semiárido.
O RESGATE DO SENSO DE MEDIDA: DO CONSUMO AO DOM
1.0. A Inversão do Custo e a Morte da Fonte – Perrot afirma que a modernidade inverteu o custo das coisas: nada escorre da fonte que não deva ser rentável. No Semiárido, isso se traduziu na mercantilização da água e da semente, transformando o que era vida em custo.
1.1. A Resposta do Reciprocidalismo – Nos Núcleos de Reciprocidade, resgata-se a Gratuidade da Fonte. A água da chuva captada e a tecnologia irradiada não são ativos rentáveis para o mercado, mas Dons que regeneram a comunidade. O “custo” deixa de ser financeiro e volta a ser ético: o compromisso de retribuir à rede.
2.0. A “Criança Mimada” vs. O Fiandeiro Consciente – O homem moderno exige crescimento infinito e um ambiente puro sem abrir mão do domínio. Perrot chama isso de utopia perigosa.
2.1. O Desfazer do Desenvolvimento – O Reciprocidalismo substitui a exigência do “crescimento infinito” pela Estabilidade do Estoque. Ao implantar Tecnologias de Convivência, o sertanejo abandona a postura de “consumidor de assistência” (a criança mimada do Estado) para assumir o papel de Fiandeiro. Ele aceita o limite da natureza e, dentro desse limite, constrói sua abundância social.
3.0. A Cura da Anomia: Permitir que o Necessitado Volte a Dar – O ponto mais profundo de Perrot é que a necessidade extrema impede o homem de dar, e quem não dá, não recebe verdadeiramente, ferindo o laço social.
3.1. O Papel do Núcleo – O assistencialismo mantém o homem na “necessidade”, pois ele é apenas um receptor. O Reciprocidalismo quebra esse ciclo. Mesmo o mais pobre, ao entrar no Núcleo, é convidado a Dar (seu trabalho, seu conhecimento, seu zelo). Ao permitir que o “excluído” se torne um “Dador”, o Reciprocidalismo cura a anomia e restaura a igualdade humana que o desenvolvimento apenas finge defender.
4.1. A Irradiação como Pluralismo – Os Núcleos de Reciprocidade não buscam integrar o sertanejo a um “único mundo” globalizado. Eles criam Zonas de Soberania Local. Cada Núcleo é um mundo em si, com sua própria dinâmica de face-a-face, protegendo a “pluralidade dos mundos sociais” contra a pasteurização da mundialização financeira.
SÍNTESE FINAL: REFAZER O MUNDO PELO PACTO DE HONRA – Relacionar Perrot e Reciprocidalismo é entender que o progresso foi bloqueado pela “loucura do mais”. Resgatar esse progresso exige: (i) Substituir a Mais-Valia pela Mais-Vida – Onde o excedente não vira lucro acumulado, mas Fundo de Reserva Comum; (ii) Trocar a Prótese Numérica pelo Vínculo – Usar a técnica para aproximar as pessoas no mutirão, não para isolá-las em planilhas de desempenho; (iii) Restaurar o Sentido da Medida – Reconhecer que a dignidade humana nasce da nossa capacidade de ser úteis uns aos outros por meio da Reciprocidade Genuína.
O desenvolvimento é o grito de uma criança mimada que quer tudo sem dar nada; o Reciprocidalismo é o silêncio operoso do Fiandeiro que sabe que só possui aquilo que é capaz de partilhar. Refazer o mundo é devolver ao homem o direito de ser dador em uma terra que volta a ser sagrada.